UFG – Racismo e violência são temas da “batalha de conhecimento”

UFG – Racismo e violência são temas da “batalha de conhecimento”

 “Manas e manos, coletivos e movimentos negros, venham ao ato em homenagem a Luiz Carlos, a outros 9 jovens que foram mortos, e um que ficou gravemente ferido durante o incêndio que ocorreu no Centro de Internação Provisória (CIP)”, era o recado em um convite, que circulou nas redes sociais. O evento é a Batalha de Freecção, encontro que reúne jovens da periferia, interessados na cultura do hip-hop. O convite faz menção à morte de Luiz Carlos Pereira Castro, na terça-feira da última semana (5). Na ocasião, o rapaz de 19 anos foi baleado nas proximidades do DCE, durante a manhã. Os demais citados vieram a óbito no último dia 25, em um centro de internação para menores, localizado no Jardim Europa, em Goiânia. Outro rapaz ficou ferido, e foi levado ao Hospital de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), em estado grave. “Nos reunimos para lembrar a morte de jovens, vítimas da violência e da matança que se promove à população negra”, denunciou Negah Lô, uma das colaboradoras do encontro realizado na última segunda, dia 11 de junho.

Batalha freecção 3

Programação nas proximidades do Diretório Central dos Estudantes (DCE) contou com duelos de rima

A organização do evento do dia  foi gerida de modo horizontal, com livres contribuições que vindas de qualquer interessado. “Quem quiser pode chegar, participar da nossa batalha de rimas, declamar poemas. Essa é uma iniciativa descentralizada e democrática. Aqui o pessoal chega, deixa desenhos, livros, e obras de artesanato, para serem entregues aos vencedores das disputas”, destacou Bruno Borges, outro colaborador. Os campeões são escolhidos pelos próprios participantes, que sorteiam temas para embasar a construção dos improvisos.

As chamadas “batalhas de conhecimento” acontecem às segundas-feiras, às 15 horas, nas proximidades do Diretório Central dos Estudantes (DCE), em espaço aberto no Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Comunidade

“Essa iniciativa é totalmente aberta à comunidade”. Com música, pequenas rodas de conversa e improviso nos versos, o aquecimento para a batalha se mostrou como iniciativa aberta à comunidade. “Um dos pontos do tripé acadêmico, junto com o ensino e a pesquisa, é a extensão, que consiste no contato da academia com a sociedade”, ressaltou Kaio Cordeiro, colaborador da iniciativa. “Entretanto, sentimos uma grande distância entre o meio acadêmico e a sociedade, especialmente em relação às populações periféricas”.

Diante desse entrave à democratização do câmpus, jovens, artistas, curiosos, rappers, crianças, famílias inteiras – uma variedade de pessoas se aproximavam para acompanhar o aquecimento. “Minha irmã mora na região, e quando soube da Batalha de Freecção, tive interesse em vir aqui, ver isso de perto”, afirmou Kauany Nascimento, visitante pela primeira vez. “Algo muito legal aqui é que qualquer um pode chegar e ter acesso a uma cultura diferente da que estamos acostumados a ver por aí”, pontuou, ao ressaltar o aspecto marginal que ainda é conferido ao hip-hop.

Segurança

“Infelizmente, muitos de nós, negros e pobres, somos excluídos desse espaço – seja pela reprovação no exame de entrada na graduação, ou seja pela falta de oportunidades de acesso ao campus”, lamentou Kaio. O jovem destaca que a Universidade é um ambiente público, e por isso deve ser ocupado por todos. Ele lamenta que a população negra seja constantemente vítima de repressões, violências e coações, que afirma serem exercidas pela polícia.

Batalha de Freecção

Velas foram acesas em homenagem a Luiz Carlos e menores que morreram em incêndio

O momento ocorreu no mesmo local onde o rapaz foi baleado. Velas acesas homenagearam Luiz Carlos e os menores que morreram no fim de maio. “Infelizmente, à morte dos nossos jovens cabe apenas o sensacionalismo das notícias, sem choro, sem memória. Depois, a vítima se torna um número, uma estatística”, afirma Negah Lô. Dados do Mapa da Violência, apresentados em 2015, apontam que 46% das mortes registradas entre jovens de 16 e 17 anos, ocorreram por homicídio – desse total, morreram três vezes mais negros que brancos, em sua maioria, residentes nas periferias urbanas.

batalha de freecção 3

Rapper, Mana Black apresentou versos de autoria própria

A programação seguiu com a leitura e declamação de versos, muitos deles autorais. “Dá muita tristeza/ Falar em genocídio/ Ver uma mãe negra/ Chorar no caixão de seu filho”, expôs a rapper Mana Black, uma das visitantes, que esteve no encontro pela primeira vez. “Eu moro na região, e tenho amigos que estudam na Universidade”, contou. A jovem diz que gostou da batalha poética, e que pretende voltar na próxima edição. Os versos são de uma música, composta pela artista, chamada “Pisando no Ego”, que também exalta a história da mulher negra e a consciência de luta nas periferias.

Fonte : Secom UFG

Compartilhar