A ciência percorre o Brasil – Um balanço da Semana Nacional de C&T 2009, artigo de Ildeu de Castro

A ciência percorre o Brasil – Um balanço da Semana Nacional de C&T 2009, artigo de Ildeu de Castro

"Obstáculos vão sendo superados pela consciência crescente em instituições de ensino e pesquisa no Brasil de que a popularização da ciência e a melhoria do ensino de ciências são ações importantes para o país e pelo trabalho dedicado e entusiasmado de milhares de pessoas"
 
De São Gabriel da Cachoeira a Rio Grande, de Natal a Rio Branco, a presença da borboleta azul – marca da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) de 2009 – simbolizou a capilaridade crescente da divulgação científica no Brasil.
 
Uma avaliação das atividades, realizadas entre 19 e 25 de outubro, mostra que o evento teve uma grande amplitude. Um processo de interiorização crescente, a produção de novos materiais educativos e atividades relativas à ciência no Brasil, sua história e seu quadro atual (tema central deste ano), caracterizaram a SNCT em 2009.
 
A participação ativa de universidades, instituições de pesquisa, Ifets, escolas e outras entidades, bem como de órgãos estaduais e municipais, em especial secretarias de C&T e FAPs, tem possibilitado este crescimento acentuado. Foram colocadas tendas da ciência em espaços públicos, como praças, ginásios esportivos, estações de metrô e shoppings, e realizadas atividades interativas, mostras de iniciação científica, palestras, oficinas, dias de portas abertas, observações astronômicas (como as Noites Galileanas), exibições de vídeos e peças de teatro, excursões científicas e visitas de cientistas às escolas.
 
Quase 25 mil atividades foram realizadas com o envolvimento de um milhar de instituições de pesquisa e ensino em cerca de 500 municípios. Destaque para a grande mobilização do estado do Amazonas, com atividades nos seus 62 municípios, com a participação de grande número de instituições públicas ou privadas, centenas de escolas e milhares de pessoas, a maioria crianças e jovens.
 
Característica marcante do evento foi a superação das distâncias geográficas proporcionada pela mobilização social e pelo uso de sistemas de transmissão à distância. Rondônia teve também um grande número de atividades em escolas espalhadas pela capital e pelo interior do estado, como em Nova Brasilândia d´Oeste. Em relação ao número de municípios envolvidos, Minas Gerais apresentou atividades em 76 deles. Além de Belo Horizonte, com muitos eventos criativos nas estações de metrô, foi alta a ocorrência de ações de divulgação em Ouro Preto, Uberlândia, Monsenhor Paulo e Poços de Caldas e uma caravana científica refez os caminhos de Saint-Hilaire na Estrada Real.
 
Em Brasília, cerca de 100 mil pessoas visitaram a grande Tenda da Ciência, colocada no centro da Esplanada dos Ministérios. Um grande painel com a caricatura do "escrete" de cientistas brasileiros importantes foi inaugurado dentro do Congresso Nacional e enormes borboletas azuis adornaram os postes da Esplanada. No Rio de Janeiro, o Armazém Científico abrigou dezenas de instituições em atividades interativas visitadas por milhares de escolares. Atividades similares foram realizadas em centro esportivo na zona oeste da cidade e em mais 29 municípios do estado.
 
Na Paraíba, diversos parceiros mobilizaram-se na capital e em outros municípios, como Sousa, Cuité e Bayeux; uma gincana educativa envolveu muitos e animados estudantes em Campina Grande. No Acre, ocorreram cerca de 30 eventos entre palestras, seminários, observações astronômicas e oficinas. Em Goiás, o planetário móvel foi visitado por mais de 10 mil pessoas em Goiânia e em sete municípios (Anápolis, Ceres, Urutai, Morrinhos, Abadia de Goiás, Rio Verde e Aparecida de Goiás), foi lançado o Museu de Zoologia José Hidasi e colocada a pedra fundamental do Museu do Césio.
 
No Pará, as atividades se concentraram principalmente em Belém e foram relembrados os 150 anos do nascimento de Emílio Goeldi.  Na Bahia, atividades interativas, com a participação de várias instituições, preencheram o Museu de Ciência e Tecnologia; no interior do estado, entre 24 outros municípios, sobressaiu-se Feira de Santana.  No Maranhão, a Cidade da Ciência foi montada em São Luís em várias tendas, buscando proporcionar ao público muitas atividades interativas; muita participação também em Imperatriz.
 
O Piauí teve atividades em 61 municípios e diversas ações valorizaram a formação de professores; o aeromodelismo rádio-controlado foi uma das principais atrações em Teresina. No Paraná, destaque para as atividades durante a SNCT 2009 no litoral (Matinhos) e em Cascavel. Em Alagoas, muitas atividades de divulgação da astronomia e alguns municípios do interior, como Santana do Ipanema, tiveram participação ativa.
 
Em Santa Catarina, milhares de jovens estudantes de educação básica e universitários encheram as tendas da ciência colocadas na UFSC. Ali ocorreu a VIII Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão e a I Feira do Inventor. Com atraso, mas com grande justiça, foi concedido o título de Doutor Honoris Causa (post mortem) a Fritz Muller, grande naturalista brasileiro e colaborador de Darwin. No Espírito Santo, ocorreu o tradicional Salão do Inventor bem como a Mostra Capixaba de Ciência, no Ifes.
 
No Mato Grosso, cerca de 30 mil pessoas, especialmente crianças e jovens, se empolgaram com as atividades do caminhão da ciência (Promusit) do Museu de Ciência e Tecnologia da PUC/RS. Já no Mato Grosso do Sul ocorriam muitos outros eventos, em especial de divulgação da química. O interior de São Paulo superou em mobilização a capital, tendo havido uma intensidade grande de atividades em Bauru, Caraguatatuba, São José dos Campos e Campinas. Na capital ocorreram atividades no Ibirapuera e foi realizado o I Salão Nacional de Divulgação Científica por entidades estudantis.
 
Em Pernambuco, os 15 anos do Espaço Ciência foram comemorados à altura com a realização de inúmeras atividades na capital e no interior, que atingiram 31 municípios, com destaque para a Caravana da Ciência. No Rio Grande do Norte, o projeto Pesquisa vai à Escola mobilizou pesquisadores de instituições de ensino e pesquisa em palestras, oficinas e demonstrações nas escolas. No Amapá, ocorreu em Macapá uma atividade ligada também às comemorações do Ano da França no Brasil, reunindo estudantes e pesquisadores dos dois países.
 
Durante a SNCT 2009 foi realizada a exibição, em todos os estados, de vídeos e programas de TV do projeto "Ver Ciência", que trouxe um número grande de vídeos sobre a ciência no Brasil. O Jornal da Semana foi distribuído por todo o país e colocado em bancas, com a tiragem total de 350.000 exemplares. Em Brasília, foi apresentado o conjunto de programas do "Globo Ciência" sobre cientistas brasileiros e lançado o primeiro fascículo da série "Grandes Cientistas Brasileiros" da revista Caros Amigos. A revista Raça produziu um dossiê especial sobre cientistas negros no Brasil. No Rio, foi lançado o guia "Centros e Museus de Ciência do Brasil 2009". Muitas cartilhas, jogos, folhetos e outros materiais educativos, em particular sobre cientistas brasileiros e instituições de pesquisa, foram produzidos e distribuídos.
 
O centenário da descoberta da doença de Chagas foi relembrado em exposições, livros e cartilhas. Uma réplica do Demoiselle sobrevoou a região da Barra da Tijuca, no Rio, em comemoração aos cem anos da invenção do primeiro ultraleve por Santos Dumont.
 
Como sempre, dificuldades de várias ordens, como recursos ainda insuficientes, restrições burocráticas em excesso, despreparo e pouca flexibilidade da máquina pública, tornam difícil o trabalho de organização de um evento com esta amplitude. A cobertura da mídia regional, em estados e municípios, tanto na TV como em jornais, tem sido grande, embora os jornais de amplitude nacional não dêem cobertura significativa.
 
No entanto, estes obstáculos vão sendo superados, aos poucos, pela consciência crescente em instituições de ensino e pesquisa no Brasil de que a popularização da ciência e a melhoria do ensino de ciências são ações importantes para o país e pelo trabalho dedicado e entusiasmado de milhares de pessoas, espalhadas pelo país inteiro, que tornam possível um evento desta magnitude.

Ildeu de Castro Moreira é diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência do MCT e coordenador da Semana Nacional de C&T. Artigo escrito para o "Jornal da Ciência". 

 

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