A década das crianças perdidas

A década das crianças perdidas

Enquanto os operadores do mercado e as agências de pontuação de credibilidade econômica fazem seus jogos mirabolantes de especulação financeira, o mundo desperdiça a oportunidade de aproveitar os recursos gerados pelo emprego maciço de alta tecnologia na educação e no resgate de condições dignas de vida às crianças e aos adolescentes, tanto nos países centrais, hoje atolados em dívidas e desigualdades, como nos periféricos.

Recente artigo do professor Charles M. Blow, publicado no New York Times, aponta os primeiros anos do século 21 como a década das crianças perdidas, resultado da grande recessão provocada por sucessivos rompimentos de bolhas especulativas, e demonstra as seguintes razões para a constatação, a partir de dados colhidos do boletim The State of America”s Children 2011 (“O estado das crianças da América”):

O número de crianças vivendo na pobreza aumentou em 4 milhões desde o ano 2000 e o número de crianças que caíram nessa situação entre 2008 e 2009 foi o maior já verificado; O número de crianças sem teto em escolas públicas aumentou 41% entre os anos escolares de 2006-2007 e 2008-2009;

Em 2009, uma média de 15,6 milhões de crianças receberam tíquetes-alimentação mensalmente, num incremento de 65% no decênio;

A maioria de crianças em todos os grupos raciais e 79% de brancos e hispânicos em escolas públicas não sabem ler ou fazer cálculos aritméticos simples; e

O custo anual dos centros de cuidados com crianças de até quatro anos de idade é maior que o gasto com estudos primários em 33 estados e no Distrito de Colúmbia.

Por isso, conclui Blow: “Nós arriscamos formar uma geração criada numa cultura de segunda classe, inferiorizada socialmente e com menos perspectivas de mobilidade que a geração anterior”.

O exemplo norte-americano serve também ao Brasil, onde temos aproveitado muito pouco para corrigir o tremendo desnível social e as carências do sistema educacional, tanto que, nesta década de crescimento econômico, as empresas sofrem com a falta de mão de obra qualificada. O programa Bolsa Família tenta aliviar esse abismo social, mas tanto não tem servido à finalidade de levar e manter as crianças pobres nas escolas que de quando em vez os governos estaduais são forçados a cancelar o benefício para as famílias que seguidamente têm sido flagradas em descumprir a obrigação de frequência escolar dos filhos menores.

Certamente em função dos males causados pela fúria do capitalismo financeiro, agora que a Standard and Poor”s reduziu a pontuação dos Estados Unidos e a expectativa de que a repetição do rebaixamento por uma outra agência venha repercutir diretamente nos contratos, os políticos norte-americanos começam a questionar os poderes de tais agências para avaliar as finanças dos países. O representante Randy Neugebauer, republicano do Texas, que dirige o Comitê Financeiro da Câmara, disse aos jornais que seria apropriado à S&P considerar a situação política em sua análise, mas não poderia usar predições de como o Congresso agiria no futuro para reduzir a cotação americana, pois isso está carregado de subjetivismo.

Pois é, só agora eles descobriram o quanto de injustiça e de paranoia existe em se sobrepor avaliações particulares à direção econômica governamental, em escala internacional. Algum dia talvez se descubra que as bolsas de valores e os mercados de futuro e de derivativos são coisas de alucinados e, ao mesmo tempo, muito perigosas. De todo modo, é bom lembrar a lição de Emanuel Kant: “Porque cada um tem sua dose de doidice, é preciso que tenha paciência com as doidices dos outros”.

Compartilhar