A Educação Superior e as Perspectivas da UFSC

A Educação Superior e as Perspectivas da UFSC

Alvaro Toubes Prata – Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina

O censo da educação superior de 2006 indica que o Brasil possui 2.270 instituições de ensino superior com 4,7 milhões de alunos matriculados em cursos de graduação presenciais e 302 mil docentes em exercício. Anualmente 700 mil diplomas de graduação são concedidos pelo sistema, sendo que administração, direito, pedagogia, engenharia e letras são as áreas que mais titulam. A análise dos cursos oferecidos indica que o ensino superior nacional é majoritariamente privado (74%), noturno (61%) e oferecido por instituições com menos de cinco mil estudantes. A recente avaliação divulgada pelo MEC indica também que muitas instituições não oferecem ensino de boa qualidade. Com algumas exceções (notadamente as estaduais paulistas e as PUC's), nossas melhores instituições integram a rede federal de educação superior, que se alicerça nas 55 universidades existentes e que está sendo ampliada com a implementação de doze novas universidades e de cinco outras em criação. A boa educação proporcionada pelas universidades federais advém, sobretudo, da qualificação dos docentes, do forte envolvimento com a pesquisa científica e tecnológica, e dos projetos de extensão que são desenvolvidos em parceria com os diversos setores da sociedade. Nos últimos anos o sistema federal tem se revitalizado com recursos adicionais para obras e equipamentos, com a contratação de novos docentes e servidores técnico-administrativos, e com inúmeros editais que fomentam a pesquisa e a extensão. Muito ainda há por fazer, mas temos avançado bastante.

Dentre os grandes desafios nacionais na área de educação estão a ampliação do acesso à educação superior e a formação de professores para a educação básica. Temos um grande déficit de professores qualificados nos níveis de ensino fundamental e médio, o que reflete no baixo desempenho dos nossos alunos nas avaliações internacionais, sobretudo na área de ciências. Em Santa Catarina, por exemplo, 50% das turmas onde se ensina Física na educação básica não possuem professores com habilitação na área de Física. Dos docentes atuantes no ensino de Física na educação básica do nosso estado, 64% não possuem licenciatura em Física. Hoje já dispomos de um sistema de acompanhamento e avaliação para a educação básica que nos permite identificar nossas deficiências e os problemas específicos a serem atacados. Com isto, temos melhorado a qualidade das nossas escolas municipais e estaduais. Mas o grande problema de qualificar os professores para a educação básica e atrair os jovens para a carreira do magistério, só agora começa a ser enfrentado com a dimensão devida. As universidades federais têm ampliado suas vagas nos cursos de licenciatura, e, em parceria com os estados e municípios, têm se envolvido em programas de formação de professores. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, agência ligada ao MEC e que, juntamente com o CNPq, foi responsável por colocar o País em patamares de excelência em nível de pós-graduação, recém criou uma diretoria específica para cuidar da educação básica e aproximar a pós-graduação da qualificação de professores. Diversos programas e ações têm sido criados para qualificar os professores das redes municipais e estaduais, e para ampliar e melhorar a formação dos alunos nos cursos de licenciatura. Recente levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, INEP, indica que temos um déficit de mais de 350 mil docentes com formação específica na educação básica, sendo que as áreas de Matemática, Física e Química são as mais necessitadas.

Além do aspecto quantitativo, também o aspecto qualitativo é motivo de preocupação. Diferentemente de países que têm avançado muito na educação de seus jovens, a grande maioria dos nossos melhores talentos não se motiva pela carreira de professor de ensino básico. Reverter este cenário passa pela melhoria de salários, de infra-estrutura, e de prestígio social do docente. Os esforços recentes dos governos municipais, estaduais e federal e também a conscientização de toda sociedade de que somente através de uma valorização crescente da educação vamos elevar nossos índices de desenvolvimento humano e social, nos encoraja a descortinar um futuro promissor para o País.

Completando 48 anos de existência no dia 18 de dezembro, a Universidade Federal de Santa Catarina, pela sua importância em nível nacional e pelo compromisso com uma educação pública de qualidade, tem respondido afirmativamente às demandas nacionais e catarinenses. Oferecendo hoje 70 cursos de graduação em todas as áreas do conhecimento, a UFSC afirma-se como uma instituição plural e diversificada. Para melhor atendermos à comunidade, estamos realizando pela primeira vez dois vestibulares para ingresso em um mesmo ano letivo. O primeiro vestibular ocorreu nos dias 7,8 e 9 de dezembro, para a admissão de estudantes em março e agosto de 2009. São 4.571 vagas que representam um aumento de mais de 10% das vagas oferecidas em 2007. Em junho de 2009 teremos outro vestibular para ingresso em agosto de 2009, desta vez com 1.020 vagas que atenderão aos novos cursos a serem criados nos campi de Florianópolis, Joinville, Araranguá e Curitibanos. A criação dos novos cursos não representa apenas mais do mesmo; estaremos também ousando em novas propostas pedagógicas. Exemplos destas novas iniciativas incluem a criação do bacharelado em Ciências Rurais e o bacharelado em Engenharia da Mobilidade. Nestes cursos titularemos alunos com uma formação mais ampliada após três anos de estudo, e daremos condições para que os mesmos possam avançar em áreas mais específicas obtendo um segundo diploma após dois anos adicionais de universidade. Novas possibilidades pedagógicas também estão sendo discutidas nas áreas da vida, alimentos e sociais aplicadas.

Para a UFSC, o grande desafio é viabilizar uma reestruturação administrativa e pedagógica para que sua expansão possa ocorrer permitindo que a instituição eleve seus patamares de qualidade. Isso inclui melhoria das instalações físicas (laboratórios e salas de aula) que contemplem novos modelos de ensino, substituindo o formato tradicional onde disciplinas são ministradas por docentes individuais. O professor não deve ensinar ao aluno aquilo que ele pode e deve descobrir sozinho. Para isso devemos adotar equipes de ensino por áreas programáticas nas quais as disciplinas ficam a cargo de um grupo de professores que, em conjunto com alunos de pós-graduação e pesquisadores, desenvolvam metodologias que contemplem estudos dirigidos e tutoriais, elaborados ambientes virtuais, seminários e palestras em grandes salas, e aulas práticas e de exercícios ministradas por alunos de mestrado e doutorado. Tais modelos permitem uma maior integração entre graduação e a pós-graduação, contribuindo também para reduzir o distanciamento que se formou em algumas áreas entre estes dois níveis de formação. Dentre outras iniciativas estamos finalizando o projeto de um novo prédio de sala de aulas com 6.000 m2, a ser construído em duas etapas, e que contém salas para 50, 75 e cem alunos, de forma a suprir estas novas propostas pedagógicas. Esperamos com isto que os professores possam ter um envolvimento mais seletivo com os alunos, sem prejuízo para as atividades de pesquisa, extensão, e orientação de dissertações e teses. Dessa forma, todos os professores se envolverão fortemente com a graduação, melhorando a qualidade do ensino oferecido.

Muitas são as possibilidades, logo, é preciso que a comunidade universitária, com entusiasmo e dedicação, se comprometa com as mudanças que construirão a instituição que queremos para o século XXI. A sociedade também está sendo convidada a se envolver e a se comprometer mais e mais com a reestruturação e a expansão da UFSC. Todos queremos bem educar nossos jovens com um forte compromisso social e avançar o conhecimento para que possamos construir uma nação cada vez mais desenvolvida e independente.

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