A estrela do Sisu, artigo de Sidney Jard da Silva e Artur Zimerman

A estrela do Sisu, artigo de Sidney Jard da Silva e Artur Zimerman

"A UFABC tem muito a avançar para se colocar entre as principais instituições do país. No entanto, o reconhecimento de que há uma longa trajetória a seguir não pode ofuscar o destaque alcançado em pouco mais de três anos de atividade"

Nas últimas semanas, em um balanço apressado dos resultados alcançados pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o processo de reforma do sistema universitário brasileiro voltou à pauta dos principais meios de comunicação do país. As vicissitudes da implantação da Universidade Federal do ABC (UFABC), considerada um dos projetos mais inovadores do Governo Lula para a expansão do ensino superior, ocuparam papel de destaque neste debate.
 
Contudo, a discussão sobre as condições de implantação da universidade tem passado ao largo da avaliação que o corpo discente faz da instituição. O presente artigo, baseado em pesquisa realizada em setembro de 2009, com 2.599 alunos (99% dos matriculados), tem como objetivo apresentar o perfil sócio-econômico e a opinião dos estudantes da UFABC sobre a qualidade de ensino, a capacitação docente e as condições de aprendizagem na universidade.
 
Criada em julho de 2005, a UFABC recebeu seus primeiros estudantes em setembro de 2006, sob forte crítica de setores da mídia que questionavam a decisão de iniciar suas atividades em instalações provisórias. A maioria absoluta do corpo discente da universidade é formada por jovens entre 17 e 24 anos (87%), solteiros (94%), do sexo masculino (70%), sem filhos (97%). Os que se auto-declaram brancos representam 73% dos alunos, pardos 15%, de ascendência oriental 9%, negros 2% e indígenas 1%.
 
A grande maioria dos estudantes reside com seus familiares (72%) e depende do auxílio financeiro dos pais (60%); 75% apresentam renda familiar per capita de até três salários mínimos, 25% têm atividade remunerada não-acadêmica e 23% recebem bolsa-auxílio da instituição. Paulistas e paulistanos perfazem a grande maioria do corpo discente; destes, 60% residem no Grande ABC e 34% na cidade de São Paulo.
 
O bacharelado em Ciência e Tecnologia (BC&T), até então único curso de ingresso na universidade, é bem avaliado pela maioria dos alunos: 14% afirmam ser excelente, 55% bom e 23% regular. Após a conclusão do bacharelado interdisciplinar, 97% pretendem prosseguir seus estudos em uma das especialidades oferecidas pela UFABC. Os cursos mais procurados são: engenharia de instrumentação, automação e robótica (14%); engenharia de gestão (13%); engenharia ambiental e urbana (10%) e engenharia de materiais (9%).
 
Os professores são avaliados como bons por 61% dos estudantes e como excelentes por 24%. A capacitação administrativa da equipe dirigente é bem avaliada por 63% dos discentes e a capacitação dos servidores técnico-administrativos é aprovada por 73% dos alunos. A localização do campus (Santo André) e as condições para realização de pesquisa também são bem avaliadas pelo corpo discente, 69% e 61% respectivamente.
 
No que se refere aos pontos mais críticos para a plena instalação da UFABC, ao contrário do que tem sido divulgado por setores da imprensa, as condições de aprendizagem são consideradas regulares ou boas pela grande maioria dos discentes. A infra-estrutura é avaliada como regular por 36% dos alunos e como boa por 30%. O acervo da biblioteca é considerado regular por 34% dos estudantes e bom por 31%.
 
Em se tratando de uma universidade recém-criada, a UFABC tem muito a avançar em termos de infra-estrutura para se colocar entre as principais instituições do país. No entanto, o reconhecimento de que há uma longa trajetória a seguir não pode ofuscar o destaque alcançado pela instituição em pouco mais de três anos de atividade. Êxito confirmado pela significativa procura no Sisu e pela avaliação positiva dos atuais alunos no que se refere às condições de ensino oferecidas pela instituição.
 
No que tange ao futuro, 86% dos estudantes esperam que a UFABC os prepare para o mercado de trabalho, 67% que lhes forneça conhecimentos necessários para uma melhor compreensão do mundo e 46% desejam preparação para pesquisa científica.
 
Como podemos observar, são grandes as expectativas dos alunos em relação à nova universidade. Oxalá os meios de comunicação também estejam preparados para elevar o debate da expansão e da reforma do ensino superior brasileiro para além do cronograma das obras e dos calendários eleitorais.

Sidney Jard da Silva é professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do ABC. Artur Zimerman é coordenador do Bacharelado em Políticas Públicas e professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da UFABC. Artigo enviado pelos autores ao "JC e-mail".

 

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