A multicampia das Universidades Federais

A multicampia das Universidades Federais

No Brasil, a multicampia é uma resposta à necessidade de interiorização da educação superior e reafirma uma visão de universidade como instrumento essencial para o desenvolvimento regional. Instalada em mais cidades, a instituição aproxima a população da cultura universitária, democratiza o conhecimento e distribui recursos materiais e humanos em maiores áreas de abrangência.

O atual ciclo de expansão das universidades federais, iniciado em 2005, redefiniu a multicampia porque: a) a multicampia passou a ser a regra do sistema federal (exceções: UFGD e UFCSPA); b) instituições recém-criadas nasceram com uma multicampia com um novo arranjo que traz uma distribuição mais equitativa das forças acadêmicas entre os campi.

Com esse processo, pode-se definir a existência de duas categorias de multicampia nas IFES: a) Vertical – formada por um campus com sede forte e campi menores, sendo que o primeiro concentra a maior parte da força acadêmica; b) Horizontal – formada por diversos campi com forças acadêmica e institucional equilibradas entre eles.

A multicampia horizontal é uma experiência nova nas IFES, por isso, são muitos os desafios que ela apresenta, afinal, a dispersão da capacidade acadêmica, presente nesses casos, determina a necessidade de estratégias especiais que criem condições para que as forças acadêmicas das unidades descentralizadas se somem, de modo a impor a cultura universitária em todo o sistema.

A multicampia organizada por áreas de conhecimento, de um lado favorece o estabelecimento de condições propícias à criação de programas mais potentes de ensino, pesquisa e extensão, mas, por outro, torna ainda mais restrita as possibilidades de convivência com a diversidade cultural, fundamental para o aguçamento do senso crítico.

Em 1969, Beryl Crowe, cientista político americano, destacava que a sociedade, com ênfase na diferenciação e especialização, levava a universidade ao desenvolvimento de ilhas de comunidades culturais entre as quais havia pouca comunicação, grandes disputas, suspeitas, desdém e competição por recursos escassos. O que mudou desde 1969? De um lado, um avanço na compreensão epistemológica sobre a interdisciplinaridade, mas por outro lado, avançou-se também na diferenciação e especialização.

Tal situação pode tomar proporções ainda maiores nessa multicampia horizontalizada, caso não haja uma ação institucional que integre esses campi. Vivenciar a multicampia sem correr o risco de constituir campi culturalmente isolados exige estratégia e disposição institucional e coletiva.

Como destacou Anísio Teixeira, a universidade deve construir uma cultura que responda às necessidades da civilização contemporânea, promovendo o desenvolvimento das fontes que a integram, dando–lhe sentido humano, por um lado, e novas sendas, por outro. Para Anísio a nova cultura não pode expressar apenas valores da civilização técnica, mas deve também servir de base para a sua crítica e constante reformulação. A proposta Anisiana destaca então a missão histórica da universidade como instituição da cultura.

Para encaminhar essa questão necessitamos de condições virtuosas para o desenvolvimento de um ambiente efetivamente universitário e isso significará a necessidade incontornável da instituição definir, como princípio de sua organização acadêmica, a utilização intensiva de novas tecnologias de apoio à aprendizagem (TAA).

Na Bahia, o uso intensivo de TAA não será alcançado sem a significativa ampliação da infraestrutura de acesso a internet: é urgente a elevação da velocidade de conexão de todos os campi universitários para acima de 1 Gbps.

É necessário pensar o processo de consolidação desse modelo de multicampia horizontal em todos os seus aspectos de ensino, pesquisa, extensão e gestão, de modo que a “nova” universidade federal brasileira que nasce neste início do século XXI possa construir uma cultura que não superficialize a sua contribuição à civilização contemporânea, mas que, ao contrário, fortaleça o sentido complexo e polifônico da aventura humana.

Paulo Gabriel Soledade Nacif – Reitor UFRB

(Publicado no Jornal A Tarde)

 

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