A pergunta certa na escolha da formação

A pergunta certa na escolha da formação

Nos chamados bacharelados interdisciplinares, os alunos escolhem 50% de sua grade curricular, adquirindo o hábito de busca pelo conhecimento

De acordo com o documento n.º 63 do Observatório Universitário, menos de 30% dos brasileiros graduados em um curso superior em comunicação trabalham na área em que se formaram.

Esse mesmo percentual é de 33% para os engenheiros e de cerca de 50% para advogados, administradores e pedagogos.
Muitos educadores atribuem os números acima em parte à visão de que a educação superior existe apenas ou principalmente para oferecer formação profissional específica. Essa visão atrasada é a mãe da exigência da escolha a que nossos jovens se veem obrigados assim que chegam ao ensino médio e começam a pensar no vestibular.

Não é surpreendente que, mais tarde, muitos busquem atividades em áreas distintas daquelas em que se formaram. Há alguns anos, contudo, surgiu uma nova abordagem pedagógica para essas questões.

São os chamados bacharelados interdisciplinares (BIs), iniciados na Universidade Federal do ABC e hoje oferecidos em diversas universidades, entre elas na Universidade Federal de São Paulo, que oferecerá um BI em ciência e tecnologia a partir de 2011.

Focados em uma grande área do conhecimento, os BIs se propõem a ensinar os fundamentos de várias áreas do saber, relacionando-as entre si. O bacharel em ciência e tecnologia terá sólidos conhecimentos nas ciências básicas, aliados a uma formação humanística.

Um valor fundamental dos BIs é que, neles, o aluno é responsável pela escolha de 50% da sua grade curricular, adquirindo na universidade o hábito da busca pelo conhecimento e conquistando uma autonomia que deverá usar ao longo de toda a vida.

A capacidade de adquirir conhecimento novo com autonomia, aliás, parece ser a chave da habilitação profissional no século 21, e esse é o propósito dos BIs.

O curso é concebido para durar três anos, ao término dos quais o aluno recebe um diploma pleno de educação superior. De posse dele, poderá escolher uma de diversas trajetórias, que incluem a pós-graduação, para aqueles com forte vocação científica, a conclusão de um curso de formação específica ou, ainda, rumar diretamente para o mercado de trabalho.

Quanto à última alternativa, recém-apresentados ao assunto costumam demonstrar estranheza. Não raro, a pergunta que fazem é: “Mas, sem uma formação específica, em que irá trabalhar alguém que concluiu um BI”?

A pergunta não parece adequada. Afinal, os dados acima mostram que o mercado de trabalho brasileiro oferece oportunidades profissionais suficientes para abrigar mais de 70% dos graduados em comunicação, 67% dos engenheiros e 50% dos advogados, administradores e pedagogos que trabalham em áreas distintas daquelas em que se formaram. São milhões de pessoas.

Será que eles não fariam melhor o que fazem hoje se, em vez de um pacote de conhecimentos específicos que não empregam, tivessem recebido na universidade os estímulos necessários para adquirir autonomia na aquisição de conhecimento, por meio de um curso mais plural, mais abrangente e com maior probabilidade de ser concluído, como são os BIs?

Essa parece ser a pergunta certa.

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