“A América Latina tem muito a contribuir com o mundo”, afirma Francisco Tamarit

Na última terça-feira (25), reitores das instituições públicas de ensino superior da América Latina e Caribe se reuniram em Porto Alegre (RS), para dar continuidade aos desafios lançados pela III Conferência Regional da Educação Superior (CRES 2018), no painel “A educação superior no pós-CRES 2018”. O evento foi realizado em uma parceria entre a Andifes, a Abruem e o Conif, e coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (URFGS).

O coordenador da CRES, ex-reitor da Universidade de Córdoba, professor Francisco Tamarit, foi um dos palestrantes e nos fala a respeito dos objetivos propostos para os próximos 10 anos.

 

 

Quais são as expectativas desse novo documento a partir da CRES 2018?
A expectativa de todas as instituições do Ensino Superior da América Latina e do Caribe é que o manifesto seja o ponto inicial de um processo de transformação do Ensino Superior da região. Não porque não tenhamos um bom sistema, já que temos realmente uma boa cobertura, muitas instituições, bons níveis de qualidade, mas, na verdade, há muito para melhorar. Um dos problemas mais importantes que tem o sistema continental é a falta de uma articulação e de uma visão estratégica do sistema. Isso requer muito trabalho. Imagino que vá demorar, no mínimo, uns 10 anos, mas temos que acabar com a ideia de que cada país tenha um trabalho isolado no que diz respeito ao mundo do conhecimento. E o conhecimento na América Latina e no Caribe está principalmente nas universidades, com um papel muito importante, aliás, do sistema público. Então, temos que recuperar o sentido estratégico desse potencial que nós temos e fazer dele uma ferramenta, não somente para atender e dar soluções aos problemas locais, mas, também, para trabalhar em conjunto a solução dos problemas da região que, por certo, é uma região problematizada, com uma crise muito grande, principalmente no plano social, econômico e humano. Se não tomarmos conta dessa problemática, acho que a América Latina não terá futuro próspero pela frente.

E quais são as medidas práticas que estão sendo adotadas?
Nesta etapa, estamos construindo o que chamamos de um plano de ação, que será um plano para 10 anos. Exatamente nesse momento, nós pensamos em acabar os detalhes do plano, que inclui o cronograma de atividades para aproximadamente dezembro. Esse plano, aos poucos, está tomando forma e vamos discutindo quais aquelas são ações que podemos fazer, mas é muito importante, nesse projeto, imaginar quais seriam as medidas e ideias que devemos seguir. Temos que ter uma conversa muito participativa com a nossa sociedade e governos, porque sabendo que o Ensino Superior é um direito, bem social, uma responsabilidade dos Estados, e o orçamento do sistema universitário não é suficiente para dar conta do desafio da integração e articulação desse sistema, pensamos que é necessário ter instrumentos regionais que visem integrar e potenciar principalmente a cooperação científica Sul-Sul, a mobilidade acadêmica de estudantes, professores, pesquisadores, funcionários e o reconhecimento das atividades do Ensino Superior. Pensando estrategicamente, a América Latina não tem um plano bom de mobilidade, não existe muita cooperação Sul-Sul, porque cada país prefere cooperar com países desenvolvidos. Acontece que cada país desconhece o que é feito na atividade em outro país, então temos uma realidade de que nossa mobilidade é toda Norte-Sul e Sul-Norte. Nossos alunos e pesquisadores privilegiam sempre interagir com a Europa, Estados Unidos e Canadá. Há a problemática da pobreza, marginalidade, violência, insustentabilidade e problema da crise de governabilidade que a América Latina está sofrendo, problemas que ocorrem a despeito da diversidade cultural, posto que somos a região mais violenta do planeta. Porque mesmo sem ter guerras nacionais, temos uma alta taxa de assassinatos, feminicídios, morte por não reconhecer a outra pessoa – são coisas que nos envergonham muito, realmente. O nível de desigualdade, qualidade de vida da periferia de nossas cidades e desmatamento são coisas que falam muito mal da América Latina, e se a mesma quiser dar solução, o mundo do conhecimento precisa estar lá ajudando, porque essa solução não irá aparecer em uma universidade da França, Inglaterra ou Estados Unidos. Claro que é importante colaborar, aprender com eles e temos coisas a ensinar, também, para o mundo. A América Latina tem que imaginar-se como um bloco de integração, não somente visando em ter o maior comércio, mas, principalmente, visando ser uma unidade cultural que possa se integrar ao mundo e oferecer coisas boas. A nossa capacidade de resiliência e bem viver também é uma coisa muito importante para apresentarmos ao mundo. América Latina também é um continente muita riqueza natural, mas muito pobre de bens necessários para a sua sociedade. Devemos mostrar que há outras maneiras de medir a qualidade de vida, que não é somente o consumo, mas que precisamos ser capazes de fazer um aporte positivo para um mundo que está muito violento e agressivo.

 

Assista às palestras do Painel “A educação superior no pós-CRES 2018”:

Conferência de Abertura – Professor Francisco Tamarit 

O Significado do manifesto da CRES 2018 para a Educação Superior na América Latina e no Caribe” – Debora Ramos (Unesco – Iesalc), Reitor Gustavo Vieira (Unila) e Reitor Paulo Afonso Burmann (UFSM)

O Significado do manifesto da CRES 2018 para a Educação Superior no Brasil – Reitores Ângela Paiva (UFRN), Carla Jardim (IFFar), Cleza Sobral Dias (FURG), Dácio Matheus (UFABC), Jaime Giolo (UFFS), Haroldo Reimer (UEG) e Reinaldo Centoducatte (UFES)

O que fazer com o manifesto da CRES 2018 nos próximos 10 anos – Reitor Emmanuel Tourinho (UFPA), Professor Alvaro Maglia (AUGM), Mateus Fiorentini (Oclae) e Reitor Rui Oppermann (UFRGS) 

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