Com adesão da UFRJ ao Enem, estudantes mudam foco de estudo

Com adesão da UFRJ ao Enem, estudantes mudam foco de estudo

Preocupação vai além das matérias específicas, dizem alunos.
Para professores, mudança é benéfica.

Após a decisão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de substituir o vestibular pelo uso da nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), anunciada na semana passada, estudantes interessados em disputar vagas em uma das principais instituições de ensino do país devem mudar a forma de se preparar.

Candidata a uma vaga ao curso de música, Claudia Usai Gomes, de 17 anos, que fez tanto o Enem como o vestibular da UFRJ no ano passado como treineira, disse que se antes os estudantes se preocupavam mais com as disciplinas relacionadas à escolha da carreira, agora têm de saber de tudo um pouco. “A UFRJ focava mais nas matérias específicas, agora o aluno tem de ser bom em matemática, por exemplo, mesmo que não escolha áreas das exatas.”

Para Claudia, a mudança foi injusta porque o vestibular da UFRJ tinha questões discursivas, o que, segundo ela, analisa também a habilidade do candidato de organizar o conhecimento para atingir o resultado. “O Enem deveria ser usado como primeira fase do processo seletivo ou ter pesos diferentes dependendo da carreira”, diz a estudante, que é neta de maestro e toca piano desde os cinco anos.

Paulo Chehadi D”Oliveira, de 17 anos, também considera que a mudança vai mudar o foco dos estudos. Candidato a uma vaga ao curso de medicina, Chehadi afirmou que até então estudava muito biologia. Agora passará a se dedicar mais ao português. Segundo ele, a diferença entre os dois formatos de provas também deve atrapalhar a vida dos vestibulandos.

Paulo Chehadi fará um Enem para entrar em medicina (Foto: Arquivo Pessoal)Paulo Chehadi fará o Enem para entrar em

“A UFRJ tinha uma boa prova com questões discursivas onde você pode mostra seu raciocínio e não se limitar à questão. O Enem é uma prova de múltipla escolha, as questões não são tão difíceis, mas o número é maior e teremos menos tempo para pensar”, afirma Chehadi, que também fez as duas provas no ano passado como treineiro.

Mesmo espírito
Para Filipe Couto, professor de língua portuguesa do Curso e Colégio pH, os estudantes não têm do que se preocupar. “A UFRJ tinha um dos vestibulares mais inteligentes do país com a proposta de levar uma reflexão crítica. Porém, o Enem também tem esta característica de ser uma “prova cidadã”. É o mesmo espírito.”

Couto lembra que, se antes o candidato tinha de treinar a capacidade de escrita e a limpidez das ideias, já que o exame era dissertativo, agora com o Enem, como a prova é de múltipla escolha, é necessário treinar a capacidade de leitura e concentração.

Esta mudança poderia ter sido definida mais cedo”
Filipe Couto, professor de português do Curso e Colégio pH
O professor reforça que passar no vestibular exige a união de três habilidades: dominar a matéria, ter preparo emocional e conhecer a prova. “Como o modelo do Enem já é conhecido, vai ficar mais fácil para algumas pessoas. Sempre existe um susto dos estudantes, mas não foi uma mudança drástica. É uma forma de preparação única, o que elimina algumas angústias. Porém, esta mudança poderia ter sido definida mais cedo.”

Segundo Couto, os vestibulandos que farão Enem de olho nas vagas da UFRJ têm de se preocupar mais com as atualidades, notícias sobre tecnologia e ecologia, leitura de gráficos e tabelas, marcas do Enem, além de lembrar que a redação tem papel fundamental.

Carentes
O coordenador do Curso Pré-Vestibular Popular Motivação, Raphael Pereira, também acha positivo o fim do vestibular da UFRJ para a adesão total ao Enem e ao Sistema de Seleção Unificada (SiSU). “O vestibular tradicional era negativo para os alunos carentes. Bloqueava alunos que não tinham condições financeiras para se superespecializar e passar em determinados cursos. Então, para todos nós foi bom e positivo. Espero que aconteça com a UFF e outras federais do Rio e a Uerj também.”

Para Pereira, o Enem tem um olhar mais voltado para a educação contemporânea, interdisciplinar e que permite a interpretação. Além disso, segundo o professor, a unificação reduz o estresse de ter de fazer diversas provas. “No Rio, já sabíamos que o reitor (da UFRJ, Aloísio Teixeira) era a favor da migração, mas encontrava muita resistência. Eu torcia, mas não acreditava que ia acontecer tão rápido, por conta da resistência”, diz Pereira.

Para o professor, o uso do SiSU não vão dificultar a entrada de estudantes de escola pública do Rio de Janeiro na UFRJ apesar de estudantes de outros estados poderem tentar uma vaga na universidade com mais facilidade. “Os estudantes focam nas universidades mais próximas do lugar onde residem. A disputa sempre existiu, porque quem tem dinheiro já viajava antes. Agora simplificou mais. Não temos esse medo. Até porque a UFRJ destinou boa parcela das vagas (30%) para alunos da escola pública. A cota é uma facilitadora para entrar.”

Segundo Pereira, os alunos do curso Motivação, que é ministrado dentro da Universidade Federal Fluminense (UFF) e é voltado para estudantes de baixa renda, acreditam que haverá um maior número de egressos da escola pública na UFRJ. “Em geral, as aprovações eram mínimas entre alunos dos cursos populares. Menos do 10% dos alunos entravam.”

O Enem será realizado nos dias 22 e 23 de outubro. Mais de seis milhões de estudantes se inscreveram para as provas.

 

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