Coordenadora fala sobre o sucesso do Dia C da Ciência

O dia 25 de outubro tornou-se uma data importante para a ciência brasileira. Em todo o país foram promovidas várias atividades em centros de ensino, universidades e espaços públicos, como praças e shoppings. Pesquisadores das diferentes áreas do conhecimento foram até as escolas públicas conversar com os estudantes sobre a ciência, tecnologia e inovação que estão produzindo. O objetivo é reforçar a importância da ciência para a sociedade.

A ação foi coordenada pela pró-reitora de pesquisa e inovação da Universidade Federal de Goiás (UFG), professora Maria Clorinda Soares Fioravanti, que avalia como “extremamente positivos” os resultados do primeiro Dia C da Ciência.

O que é o Dia C da Ciência?
Uma iniciativa das universidades e dos centros e institutos tecnológicos que desenvolvem pesquisa para sensibilizar e informar a população que, além de formar recursos humanos qualificados, essas instituições são responsáveis pela produção de aproximadamente 90% do conhecimento científico brasileiro.

Como a senhora avalia os resultados do Dia C da Ciência?
Avalio de uma forma extremamente positiva com a adesão da maioria absoluta das instituições de ensino superior do país. O movimento conseguiu atingir a sociedade, parlamentares e a grande mídia.

Porque há necessidade de ações para levar à população a reconhecer a importância da ciência no dia a dia delas?
As instituições de ensino superior brasileiras desenvolvem poucas iniciativas institucionais de divulgação científica que, por sua vez, tem o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento científico. Esse processo de popularização da ciência busca incluir os cidadãos no debate sobre temas especializados e que podem impactar sua vida e seu trabalho. No país como um todo, a divulgação científica por meio da mídia e de outros instrumentos ainda é pouco eficiente.
Portanto é nosso papel desenvolver ações permanentes para popularização da ciência e educação científica.

Qual é, hoje, o grande desafio da universidade para se aproximar da sociedade?
Temos vários desafios, um dos maiores é a quase completa inexistência de recursos humanos nas IFES preparados e destinados para a tarefa de divulgação científica. Outro desafio a ser superado é o fato das universidades e os institutos tecnológicos manterem o foco na comunicação científica em seus formatos tradicionais, tais como: artigos e livros científicos, resumos em congressos, entre outros. Na comunicação científica o emissor e receptor são os próprios cientistas, o que garante a comunicação, disseminação ou difusão do conhecimento científico entre os pares. Essa forma de comunicação científica é importantíssima, mas está restrita aos que estão diretamente envolvidos com as pesquisas em questão. Isso acontece porque as pesquisas são feitas majoritariamente nos programas de pós-graduação (PPGs), que atendem aos critérios de avalição da CAPES. Então além de incluir o novo foco, divulgação científica, na cultura dos PPGs, essa forma de comunicação precisa ser valorizada não processo de avaliação.

A senhora pode citar exemplos de ações imprescindíveis da ciência no cotidiano das pessoas?
A vida moderna está alicerçada em uma sociedade tecnológica. Isto é, as sociedades atuais estão cada vez mais relacionadas e dependentes dos meios tecnológicos e dos benefícios que eles proporcionam. Como não existe tecnologia sem ciência é licito dizer que hoje o nosso modo de vida é totalmente dependente da ciência, tecnologia e inovação. Sem ciência não seria possível alimentar os 7 bilhões de pessoas do mundo. O que precisamos e fazer com as pessoas se conscientizem de quanta ciência existe no dia a dia das pessoas.

Como estão os investimentos em ciência e tecnologia no Brasil hoje?
O cenário dos investimentos em CT&I começa a piorar em 2014, com redução gradual dos recursos. Em 2017 fomos submetidos ao mais severo corte de recursos para ciência, tecnologia e inovação, da nossa história recente, uma vez que os valores de custeio e investimento em CT&I foram de apenas R$ 3,0 bilhões, o que representou um terço do valor de 2013. O cenário para 2018 é ainda mais catastrófico. O recurso para OCC (orçamento para capital e custeio) no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, no PLOA 2018, é de apenas R$ 2,7 bilhões. O CNPq só terá recursos suficientes para cobrir o pagamento dos milhares de bolsistas até meados do ano. Os recursos do FNDCT (Fundo Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico) destinados para operações não reembolsáveis serão R$ 350 milhões, uma parcela pequena diante dos R$ 4,5 bilhões a serem arrecadados pelo Fundo em 2018. O orçamento da Capes sofreu redução de 32%. Ou seja, a proposta para o Orçamento de 2018, consegue ser ainda mais restritiva e ameaça seriamente a própria sobrevivência da ciência e tecnologia brasileira, bem como o futuro do País e sua soberania.

Há comprometimento da ciência e tecnologia hoje?
Para responder essa pergunta vou transcrever parte da carta que 23 cientistas ganhadores do Prêmio Nobel das áreas de Medicina, Fisiologia, Química e Física enviaram ao Presidente da República Sr. Michel Temer: “…O orçamento para pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações sofreu um corte de 44% em 2017, e um novo corte de 15,5% é esperado para 2018. Isso vai prejudicar o país por muitos anos, com o desmantelamento de grupos internacionalmente renomados e uma ‘fuga de cérebros’ que irá afetar os melhores e jovens cientistas. Enquanto em outros países a crise econômica levou, às vezes, a cortes orçamentários de 5% a 10% para a ciência, um corte de mais de 50% é impossível de ser acomodado, e irá comprometer seriamente o futuro do país. Sabemos que a situação econômica do Brasil está muito difícil, mas pedimos ao senhor que reconsidere sua decisão antes que seja tarde demais. ” Ou seja, os cortes praticados irão causar a paralização e o retrocesso do desenvolvimento científico brasileiro. O cenário fica ainda mais catastrófico quando são somados os cortes que estão sendo praticados no orçamento das universidades, uma vez que 90% do conhecimento científico brasileiro é gerado pelas universidades, especialmente as públicas. As federias respondem por aproximadamente 60% do sistema brasileiro de pós-graduação. Essas mesmas instituições são hoje as responsáveis pela transferência de tecnologia e as principais depositadoras de patente do pais.

Quais prejuízos poderão ser acarretados se os investimentos não forem revistos? Como o cidadão comum será prejudicado?
Os prejuízos já estão sendo sentidos pelo país de uma maneira geral. Por exemplo, o Brasil passou da posição 56 em 2014 para a posição 81 em 2016, no Índice Global de Competitividade, caindo 25 posições. O mesmo aconteceu no Índice Global de Inovação, caímos da posição 61 para 69. A redução na competitividade do país afeta diretamente a balança econômica. Como as consequências não são imediatas o cidadão comum tem muita dificuldade em ter essa percepção.

Como a população pode contribuir para que a ciência e a tecnologia não parem?
A sobrevivência do modelo de ensino público de qualidade e gratuito e manutenção do financiamento público do Sistema de CT&I, da forma com que conhecemos, encontra-se fortemente ameaçada, de modo que a conscientização e o apoio da sociedade serão decisivos para a manutenção desse modelo.

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