Curso pouco concorrido adere mais ao “Enem-vestibular”

Curso pouco concorrido adere mais ao “Enem-vestibular”

A substituição dos vestibulares pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), proposta em março pelo Ministério da Educação, abrangerá cursos pouco concorridos e menos de um quarto das vagas das universidades federais do país.

Os dados foram tabulados pela Folha, que contatou as 55 instituições federais do país. Na prática, os candidatos poderão disputar, prestando só o Enem, 42,7 mil das 183 mil vagas previstas para 2010. A possibilidade de disputar diversos cursos sem precisar se inscrever em vários vestibulares é uma das grandes vantagens da mudança, diz o MEC. O levantamento mostra ainda que 81% dos cursos no sistema tiveram no último exame relação candidato/vaga inferior à média das federais (8,8).

Cada instituição tem autonomia para aderir. Muitos reitores dizem não ter aceitado porque a mudança seria abrupta e ainda há dúvidas sobre o sistema. A proposta foi lançada em março; a prova é em outubro, e as inscrições terminam sexta. Este primeiro ano é encarado como um teste. No próximo, pode ser que a adesão aumente ou que haja até a retirada do sistema. Dependerá do sucesso da prova", disse o presidente da Andifes (que reúne os reitores das federais), Alan Barbiero.

"Para o primeiro ano, a adesão está boa", afirmou o presidente do Inep (órgão do MEC responsável pelo exame), Reynaldo Fernandes. "É natural que universidades com grande estrutura de vestibular tenham receio. Se a prova selecionar bem, a adesão aumentará." Fernandes vê como positiva a adesão maciça de cursos pouco procurados. Com o sistema unificado, sustenta, a concorrência poderá subir e melhorar a seleção nesses cursos.

Para o coordenador da pós-graduação em educação da USP, Romualdo Portela, "o problema é que tentaram implementar a proposta muito rapidamente". "Em geral, aderiram as instituições mais novas, que são mais frágeis [politicamente] e dependentes do ministério."

A apreensão na rede pode ser exemplificada pela Unifesp (federal de SP). Para cursos mais recentes, como ciências sociais, o Enem será a única forma de seleção. Já para carreiras tradicionais, como medicina, haverá segunda fase. A instituição diz que nesses casos é preciso uma avaliação mais "abrangente".

O uso do Enem como única forma de seleção vem sendo tratado pelo governo Lula como um passo para o fim dos vestibulares, vistos como um problema para o ensino médio -ao cobrarem assuntos muito específicos, impedem que os alunos sejam capazes de integrar os conhecimentos.

O Enem cobra menos conteúdo das matérias e mais raciocínio. Mas, para virar um processo seletivo, teve de ser modificado. O número de questões subiu de 63 para 180.

"É preciso avaliar o impacto na seleção dos candidatos e no ensino médio. Nada ainda está claro, é preciso prudência", disse o coordenador do grupo de ensino superior da Anped (associação dos pesquisadores em educação), João Ferreira.

Mesmo se o curso desejado não estiver no sistema unificado do Enem, em geral, o aluno deve prestar o exame. Isso porque tanto universidades públicas como particulares podem usá-lo em seu vestibular.

O exame é usado ainda na seleção do ProUni (programa de governo federal que dá bolsas em faculdades particulares).

Federais que não aderiram ao Enem alegam insegurança
 
Possibilidade de melhorar a seleção dos calouros (ampliando o número de candidatos) ou insegurança com a nova prova são as explicações das universidades para aderir ou não ao sistema unificado via Enem.

Na UFABC (Universidade Federal do ABC), os 1.700 próximos calouros serão selecionados apenas com o novo exame do Ministério da Educação. "Nosso último vestibular teve 10 mil inscritos. O Enem deverá ter 4 milhões ou 5 milhões de participantes. Aumentaremos a nossa base de candidatos", disse o pró-reitor de graduação, Hélio Waldman. "Além disso, somos uma universidade nova [as aulas começaram em 2006]. Entrando no sistema unificado, ganhamos projeção nacional", afirmou.

Para Olinda Assmar, reitora da Ufac (federal do Acre), a mudança no Enem ocorreu "muito em cima da hora".A instituição decidiu usar o Enem apenas para preencher as vagas remanescentes. "Não pode ser de um dia para o outro. Nosso processo seletivo está mais consolidado e cristalizado. Entrar em outro sistema é entrar no escuro."

A UFF (Universidade Federal Fluminense) também decidiu manter o vestibular para as suas cerca de 7.000 vagas. O Enem valerá apenas como parte da nota da primeira fase. Segundo o coordenador do exame da instituição, Néliton Ventura, ainda há algumas dúvidas sobre o novo Enem. "Como garantir o sigilo e a segurança na reprodução, guarda e distribuição de provas para mais de 4 milhões de alunos? Como uniformizar a correção de milhões de redações, de modo a evitar distorções?", questiona Ventura.

O presidente do Inep (instituto ligado ao MEC que é responsável pelo Enem), Reynaldo Fernandes, diz que os critérios de correção "serão semelhantes aos que já vêm sendo adotados". Sobre a segurança, afirma que haverá observadores nos locais de aplicação da prova.

Incentivos
O Ministério da Educação informou que não há incentivos financeiros específicos para que as instituições troquem o vestibular pelo Enem.
A pasta disse que apenas haverá análise sobre um eventual aumento de recursos destinados a assistência estudantil para as instituições que tenham grande mudança no perfil de seus estudantes.

Um dos objetivos do projeto é que haja mais mobilidade dos alunos no país, pois, com uma inscrição, o candidato concorre a até cinco cursos, de qualquer universidade do país participante do sistema unificado.

Essa mobilidade, porém, pode estabelecer um fosso entre universidades boas e ruins, alerta Eduardo Andrade, professor do Insper (ex-Ibmec-SP). Ou seja, as melhores atrairiam os melhores alunos; as demais, os piores.

Por outro lado, ele diz que a economia de recursos que um vestibular único proporciona pode atrair inclusive universidades privadas.
 

Cursinhos dizem ter dúvidas sobre exame e seleção

A menos de três meses do Enem, até cursinhos têm dúvidas sobre como será o exame. "Há uma certa apreensão em saber como vai ser, até para esclarecer para os alunos", diz Augusta Pereira, coordenadora do Cursinho do XI.Ela reclama ainda da falta de detalhes sobre o sistema unificado que será criado pelo Ministério da Educação para a escolha de cursos pelos alunos.

Pelo sistema on-line, o vestibulando vai monitorar se a sua nota no Enem é suficiente para entrar no curso que escolheu. Se não for, ele pode optar por outro curso (podem ser escolhidos cinco cursos de até cinco universidades federais).

A ausência de um simulado é a principal crítica do Anglo e do Etapa. Em maio, o MEC havia prometido distribuir uma prova-teste para ajudar os alunos e os cursinhos a se prepararem, mas isso ainda não ocorreu.

"Espero que seja antes de outubro [data da prova]", ironizou Alberto Nascimento, coordenador de vestibular do Anglo, que criou um preparatório para o Enem. "O correto seria divulgar o mais cedo possível."

É a mesma queixa de Caio Fernandes Ignácio, 23, e Paloma de Carvalho Siqueira, 24, alunos do Cursinho do XI. Ele fará o Enem porque quer estudar bioengenharia na UFABC; ela escolheu letras na Unifesp.

"O ministério não mostra exemplo e não há nenhum tipo de simulado [entre os feitos pelos cursinhos] que pareça fidedigno. Aí temos que estudar tudo e fica difícil estabelecer um foco", disse Caio.

Ele está receoso ainda quanto às notas de corte -que vão variar conforme o curso.Para Paloma, será uma prova maçante. Em dois dias, o aluno terá de responder a 180 testes.

Apesar da falta de simulado, o aluno não precisa temer o conteúdo da prova, afirmam os cursinhos. O argumento: quem já estuda para o vestibular estará bem preparado; o MEC tem afirmado o mesmo.

Fábio Takahashi e Ricardo Gallo – Folha de São Paulo, 13/07

 

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