Cursos técnicos e tecnológicos surgem como opção para solucionar “apagão de mão-de-obra”

Cursos técnicos e tecnológicos surgem como opção para solucionar “apagão de mão-de-obra”

Na ponta da língua dos candidatos às eleições desse ano, os cursos técnicos e tecnológicos estão em expansão no país. “Há um aumento dos cursos, mas a demanda por trabalhadores com essa formação continua muito grande: é o “apagão da mão-de-obra”. Por isso faz sentido o discurso dos candidatos e as próprias ações. Não é algo de momento, tem um fôlego muito grande.”, afirma Celso do Prado Ferraz de Carvalho, professor da universidade Nove de Julho e especialista em educação e trabalho.

Uma pesquisa do economista Marcelo Neri, na Fundação Getúlio Vargas, ilustra a expansão com números: em março de 2004, 12,56% da população em idade ativa das seis principais metrópoles haviam concluído os cursos profissionalizantes; em março de 2010, esse número era de 22,05% – um crescimento de 75,6%.

De acordo com o estudo, publicado no primeiro semestre deste ano, 29 milhões de pessoas frequentam cursos de educação profissional, o que representa 19,72% da população com mais de 10 anos de idade do Brasil. Desse total, 16,07 % (23,5 milhões de pessoas) frequentaram cursos de qualificação profissional, 3,54% (5,1 milhões) fizeram ensino médio técnico e 0,11% (160 mil) tiveram formação tecnológica.

Luiz Augusto Caldas, diretor de políticas da educação da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, acredita que os cursos profissionais são opções para quem necessita o quanto antes de uma alternativa de renda: o superior tecnológico, devido à sua menor duração – de dois a três anos, enquanto um bacharelado leva até cinco anos – mas principalmente o técnico, que pode ser cursado junto com o ensino médio. Segundo Caldas, é no ensino técnico que estão as pessoas com maior necessidade de inserção rápida e qualificada no mercado.

De acordo com o estudo de Neri, os salários aumentam significativamente após a conclusão de cursos de educação profissional: chega a ser 27% maior com a formação de tecnólogo (curso superior de três anos) e a 17% com o ensino médio profissionalizante.

O setor com maior proporção de funcionários com formação profissionalizante é o automobilístico (45,71%), seguido pelo de finanças (38,17%) e de petróleo e gás (37,34%).



Graduações tecnológicas costumam ser mais curtas e direcionadas

As graduações tecnológicas costumam ser mais curtas que os bacharelados tradicionais – enquanto estes levam de quatro a cinco anos, aquelas duram, em média, dois ou três. Mas essa não é a principal diferença entre os dois cursos: o primeiro é mais focado em necessidades do mercado de trabalho, enquanto o segundo oferece uma formação mais abrangente. “Os tecnológicos têm uma relação mais direta com o mundo do trabalho, são mais dirigidos a processos, serviços, manufatura”, diz Luiz Augusto Caldas, diretor de políticas da educação da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do MEC.

“Os cursos de tecnologia têm a ver com o foco. Quando a pessoa tem muito claro o que quer, e se quer ir logo para o mercado de trabalho, é uma boa opção. Por exemplo, para alguém que não gosta das ciências da computação como um todo, mas gosta muito de banco de dados ou de jogos digitais”, diz Angelo Cortelazzo, coordenador de ensino superior do Centro Paula Souza, em São Paulo. “O curso tecnológico tem uma aplicabilidade muito grande, é ideal para pessoas que não gostam muito de ficar teorizando.Também por conta disso, os cursos são mais rápidos.” Além disso, há cursos tecnológicos voltados para áreas em que não há outras graduações, como por exemplo, pilotagem profissional de aeronaves.

Outra característica dos cursos tecnológicos é sua relação com a economia regional. “O curso de tecnologia é criado em função da demanda local. Em Marília, você tem a indústria de alimento, em Franca, o foco são os calçados, no ABC, tecnologia automotiva, em Americana, têxtil”, exemplifica Cortelazzo, com cidades do interior de São Paulo. Também por conta dessa regionalização, ele acredita que a inserção no mercado é mais rápida.

E em caso de crise econômica, o tecnólogo não sai prejudicado com relação ao bacharel? “Claro que [em comparação com o bacharelado] a plasticidade dessa formação é menor, mas como está em consonância com o mercado, é difícil de acontecer, as empresas não deixam o local de uma hora para outra” – diz.

É bom ressaltar que, apesar dos tecnológicos serem mais curtos no geral, alguns tem uma carga horária mais extensa. Por exemplo, os cursos de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e Automação de Escritórios e Secretariado da Fatec, no período noturno, têm duração de oito semestres, como muitos bacharelados.

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