Dilemas do vestibular

Saíram os resultados dos principais vestibulares do país. Especialmente os pedagogos adoram cair de pau nesses exames. Parte das críticas é justa. Os vestibulares têm, contudo, uma grande virtude, que nem sempre é lembrada: eles são (ou eram) uma instituição perfeitamente republicana.

A regra de ingresso era unidimensional, clara e válida para todos os candidatos, sem exceção:ganhava quem marcasse mais respostas certas. Houve tentativas de fraude, mas sempre casos isolados. Ao contrário do que já se viu até em concurso para juiz, não se tem notícia de as próprias universidades criando formas de favorecer candidatos. E isso não é pouco no Brasil dos compadrios.

Na última década, entretanto, as coisas começaram a mudar. Vieram as cotas e a noção de que a diversidade é importante para as universidades. Essa nova percepção não é facilmente conciliável com o princípio que orienta os vestibulares de que quem acerta mais respostas leva a vaga. Afinal, quando damos mais pontos ao candidato negro ou pardo, estamos tirando pontos de estudantes brancos ou asiáticos, que não são responsáveis pela escravidão nem pelas iniquidades sociais do país, e isso sempre pode ser visto como injusto.

Nesse novo contexto, talvez faça sentido abandonar a ideia de uma medida unidimensional calcada apenas nas habilidades cognitivas e abraçar uma avaliação mais ampla dos candidatos, que inclua aspectos comportamentais, atividades extracurriculares etc., como se faz nos EUA. Essas outras dimensões, afinal, também são importantes e, nessa avaliação mais ampla, incluir critérios como renda e raça já não soa injusto.

Creio que chegou a hora de discutirmos essa possibilidade. E, se decidirmos mudar, é preciso ter claro que há um preço a pagar. Devemos estar prontos para aceitar seleções mais pessoais e, portanto, menos republicanas.

Por Hélio Schwartsman, bacharel em filosofia, publicou ‘Pensando Bem…’ (Editora Contexto) em 2016, publicado, originalmente, na Folha de São Paulo. 

 

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