Dos dez cursos mais concorridos da USP, seis não possuem nenhum negro

Dos dez cursos mais concorridos da USP, seis não possuem nenhum negro

Hugo Nicolau, aluno de geografia, elaborou estudo sobre composição racial da instituição. Pesquisa demonstra que negros são maioria apenas entre trabalhadores terceirizados na universidade.

O estudante de geografia, da Universidade de São Paulo (USP), Hugo Nicolau fez um estudo de distribuição racial na instituição e constatou que o número de negros da universidade ainda é bastante desproporcional em relação a sociedade geral.  O levantamento mostra que dos dez cursos mais concorridos do vestibular da instituição, 6 deles não possuem nenhum negro inscrito. O relatório, intitulado Onde estão os negros da USP, foi publicado no blog Desigualdades Espaciais.

Através da análise de dados do vestibular da Fundação Universitária para Vestibular (Fuvest), da prefeitura de São Paulo e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Nicolau distribuiu por cor a comunidade da USP no mapa da universidade. Em 2010, 77% dos alunos que ingressaram na universidade eram brancos, 10%  pardos, 10% asiáticos e 2% eram pretos.

“A Universidade de São Paulo é branca, seus alunos e professores são brancos, os negros são minoria na USP. Os negros só são maioria entre os funcionários terceirizados, com condições de trabalho precárias, atraso de salários e outros ilegalidades denunciadas inúmeras vezes pelos funcionários e pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP”, relatou o estudo.

Para tentar mudar esse quadro, grupos como Ocupação Negra e a Frente Pró-Cotas cobram da universidade uma posicionamento positivo em relação ao sistema de cotas. O Ocupação Negra, criado em 2015, realiza intervenções durante as aulas e com o objetivo de fazer denúncia do racismo institucionalizado e cobrar de maneira forte, da instituição, dos professores e dos alunos, a necessidade das cotas raciais como uma ferramenta de ação afirmativa para modificar essa situação.

Marcelo Moreira, diretor do movimento, critica o fato da universidade ter se tornado um centro de poder e um privilégio para poucos. “Queremos cotas raciais, e quando falamos isso, a gente quer o ingresso de no mínimo 35% de alunos negros na USP. Desde de sua criação, a USP era destinada para uma elite branca, para que esta tenha a dominância intelectual do nosso país. Nesses 80 anos isso só cristalizou. Há uma forte resistência dessa elite para que haja a manutenção desses privilégios”.

Ainda que todas as universidades federais do país e algumas estaduais tenham implementado o sistema de cotas, a USP reluta em implementar o programa e conta apenas com uma bonificação na nota final. O Inclusp e o Pasusp (programas de inclusão social) dão um acréscimo de 15% na nota da Fuvest para alunos do ensino público e 5% a mais se o estudante estiver incluído no grupo PPI – raça ou cor preta, parda ou indígena .

Para Nicolau, um bônus de 5% no resultado final do vestibular é insignificante, pois não é suficiente para igualar o nível de quem teve um ensino fundamental e médio deficientes com quem sempre estudou nas melhores escolas. “A minha conclusão é que essas políticas de inclusão são só para mostrar que existem, mas elas não funcionam. A relutância em implantar o sistema de cotas está no fato de ser uma universidade elitista, assim, apenas a elite de São Paulo e do país tem acesso a USP”, conclui o estudante.

Correio Braziliense

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