E as lanternas continuam acesas

E as lanternas continuam acesas

A enfermeira britânica Florence Nightingale, durante a guerra da Crimeia, fez total diferença por seu conhecimento, ousadia e determinação em salvar vidas. Incansável, percorria os acampamentos com a lanterna, pois a escuridão noturna não era obstáculo ao seu dever. Seu gesto tornou-se símbolo e referência de dedicação a este saber.

Milhões de profissionais da Enfermagem sabem exatamente que me refiro, no título, ao exemplo de Nightingale. 12 de maio, dia dos Profissionais da Enfermagem, é a data de nascimento de Florence Nightingale. Ela revolucionou a prática da profissão e, neste ano, é lembrada, de forma especial, por causa do bicentenário de seu nascimento. A Academia Nacional de Medicina se fez presente a esta efeméride, tendo promovido, na última quinta-feira, dia 14, um simpósio em homenagem à enfermagem, com uma rica e diversificada programação.

Em terras brasileiras, vale destacar, também, o exemplo de Ana Néri, enfermeira que decidiu acompanhar os três filhos que se alistaram para lutar pelo Brasil, na conhecida Guerra do Paraguai. Néri não levou apenas o conhecimento da enfermagem. Doou seus próprios recursos para erguer uma enfermaria em solo paraguaio.

Interessante perceber que tanto Florence Nightingale quanto Ana Néri agigantaram-se e inscreveram seus nomes na história – no panteão dos heróis mundiais – num cenário de desolação e terror que as guerras produzem. Altruístas, deixaram, além do exemplo, o legado do conhecimento adquirido que serviu de referência para milhares de discípulos dessa área.

Dados do Conselho Federal de Enfermagem dão conta de que, no Brasil, existem, aproximadamente, dois milhões de profissionais da Enfermagem que, em sua grande maioria, vivem em situações cambiantes: os quadros mais difíceis exigem muito tanto física quanto psiquicamente. Ainda assim, com diversos fatores contrários, enfermeiros e enfermeiras assumem a coragem e encenam proezas, ao cuidar daqueles que estão sob seus cuidados.

E proeza não está no limite da prática profissional cotidiana que inclui o estudo, a pesquisa e a disseminação relevante de descobertas. Está, sobretudo, na habilidade de se importar com o outro: de acender a lâmpada da lanterna na escuridão da enfermidade, quando ouve e conversa de forma acolhedora, produzindo os efeitos do afeto que, sem dúvida nenhuma, é alimento essencial que também ajuda na recuperação do paciente.

Como médico, tenho o prazer de conviver com diversos profissionais dessa área, responsáveis e comprometidos com o bem-estar do ser humano. Na condição de atual reitor da Universidade Federal do Maranhão, partilho o crescimento e a alegria de centenas de estudantes e professores do Curso de Enfermagem que vivem a paixão pelas novas descobertas da área. Acompanho, também, diariamente, o esforço heroico desses profissionais, no HUUFMA, muitos dos quais deixaram suas residências para morar, temporariamente, em hotéis espalhados pela cidade, para preservar suas próprias famílias.

Registro meu reconhecimento a todos os profissionais da Enfermagem que constituem a dose generosa de compreensão, acolhimento e apoio humano na luta contra as enfermidades. Reafirmo a necessidade de maior valorização com condições dignas de trabalho, sinal de mais respeito a esses profissionais imprescindíveis na área da saúde e na vida.

Passados os anos, o curioso é perceber que, novamente, estamos em cenário de guerra. Desta vez, contra um inimigo insidioso e cruel, que desconhece qualquer barreira. Neste quadro bélico, os heróis da resistência não vestem uniformes, nem empunham armas. Estão de jalecos, máscaras, luvas e, dentro do peito, lanternas acesas. Porque enfermeiros e enfermeiras carregam um coração valente, que resplandece à luz da determinação.

 

Natalino Salgado Filho

Reitor da UFMA, Titular da Academia Nacional de Medicina, de Letras do MA e da AMM.

 

 

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