Editorial: À base de prudência

Editorial: À base de prudência

A pior coisa que pode acontecer com a Base Nacional Comum Curricular é seu descarrilamento por imperícia na implementação. Há urgência na reforma da educação, mas a experiência de outros países ensina que a precipitação arrisca ser contraproducente.

Considere-se o caso dos EUA, apresentado domingo (7) no caderno “Ilustríssima” desta Folha. O processo de adoção do “Common Core” (núcleo comum) teve início em 2009, por iniciativa de governadores e comissões estaduais de educação; oito anos depois, ainda se debatem erros e acertos.

A adoção de uma base curricular única tinha por meta, entre outras, melhorar o desempenho de alunos americanos em exames internacionais como o Pisa. Em 2015, contudo, quando alguns Estados já aplicavam o núcleo comum, os resultados seguiram abaixo da média de outras nações desenvolvidas.

Em Nova York, a mudança curricular entrou na rede pública de modo atabalhoado, sem a devida preparação de professores para a nova maneira de ensinar. Exigiam-se dos estudantes não só acertos em testes, mas que explicassem como haviam chegado a eles.

Desenvolver o raciocínio, para além da aquisição de conteúdo, tornou o processo mais lento. Isso dificultou cumprir toda a matéria relacionada na base curricular.

Um paradoxo, pois um dos objetivos do núcleo comum é evidenciar para todos —professores, pais, dirigentes e alunos— aquilo que os últimos têm de aprender.

A pressa também levou, em certos casos, a um descasamento entre a prática em sala de aula e o material disponível. No Kentucky, que adotou o esquema ainda em 2009, professores só receberam livros didáticos apropriados vários anos depois.

A BNCC brasileira está perto de sua versão definitiva para o ensino fundamental (a do nível médio ainda demorará alguns meses).

Aproxima-se a fase crucial de implementação, para a qual valerá mirar-se mais nos EUA —um país com porte e diversidade regional comparáveis aos do Brasil– do que em países pequenos e mais homogêneos como Cuba, Chile, Portugal ou Coreia do Sul.

Felizmente, os incentivadores da medida no Movimento pela Base Nacional Comum se declaram cientes dos riscos e percalços a rondar sua aplicação, na prática, em mais de 186 mil escolas do país.

Prepararam, para enfrentá-los, vários guias e sugestões práticas para secretários de Educação e diretores locais iniciarem, já, o esclarecimento e a preparação dos docentes para uma tarefa hercúlea.

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