Educação impõe virada de página

Educação impõe virada de página

Editorial

Em uma década, o Brasil dobrou o número de alunos matriculados em cursos superiores. Mas o contingente atual, de 6,4 milhões, ainda representa apenas 15% da população com idade entre 18 e 24 anos. As evidências são de que urge acelerar o aumento da escolaridade. E não há tempo a perder: em três anos, o país deverá alcançar o posto de quinta potência econômica mundial – chegar lá com nível educacional tão atrasado será, mais do que vergonhoso, comprometedor para a sustentabilidade do desenvolvimento nacional.

O avanço dos últimos anos se deveu à mudança de enfoque na política de governo, com a educação passando a ser vista como eficaz meio de crescimento, e também à melhoria de vida das pessoas. Superadas décadas de crise, com estagnação, hiperinflação e altas taxas de desemprego, o cidadão não só foi às compras: para melhorar a renda, investiu no próprio aprendizado, suprindo parte da deficiência do Estado. O resultado do dever de casa cumprido é promissor. Estudo da Fundação Getulio Vargas mostra que, a cada ano de estudo adquirido, o brasileiro engorda o salário em cerca de 15%.

A equação igualmente vale para o Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país. O PIB cresce até 7% a cada ano de escolaridade somado pela população, graças à ascensão social e à melhoria das condições de investimento, inclusive em novas tecnologias. A questão é que tantas vantagens ainda são insuficientes para motivar as autoridades a promover a revolução educacional necessária. Lançado no ano passado, o Plano Nacional de Educação (PNE) é desanimadoramente tímido: prevê chegar a 2020 com pouco mais de um terço (33%) dos jovens de 18 a 24 anos na faculdade.

Pior que a realidade quantitativa é a qualitativa. Levantamento da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, equipara a produtividade do nosso trabalhador à que os japoneses tinham em 1964, perto de meio século atrás. A tragédia é simples de entender: 90% dos estudantes brasileiros não têm conhecimentos mínimos de matemática e a 62% falta habilidade para ler textos longos. Com a crise lá fora e a proximidade do pleno emprego aqui dentro, a atração de mão de obra, ou seja, a concorrência estrangeira no mercado de trabalho, passa a ser risco extra para o brasileiro. A conjuntura já leva o setor privado a investir em qualificação, mas mesmo esse esforço é incipiente.

Desde domingo, o panorama crítico da educação nacional vem sendo rigorosamente traçado nas páginas do Correio. A série de reportagens chega hoje ao fim, compondo o complexo retrato do desafio imposto ao país. Até cumprir a exigência do Ministério da Educação (MEC) de que universidades e centros universitários tenham pelo menos um terço do quadro de professores formado por mestres ou doutores está difícil de atender. Afinal, só temos 1,4 doutor para cada mil habitantes, ao passo que mais de 60% da população estão enquadrados na categoria de analfabetos funcionais. Para completar, a sexta maior economia do planeta é a 47ª em inovação. Ou viramos essa página, ou seremos nós a ficar para trás.

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