Elite das escolas públicas de SP no Enem 2014 tem perfil de escola rica

Elite das escolas públicas de SP no Enem 2014 tem perfil de escola rica

Os alunos das escolas públicas de São Paulo mais bem colocadas no Enem 2014 têm renda e condição social muito superiores às do restante da rede e comparáveis às de quem estuda nos colégios privados mais bem avaliados.

Em 90% das cem escolas estaduais paulistas com melhor desempenho no exame, a maioria dos estudantes tem perfil socioeconômico “alto” e “muito alto” –classificação dada pelo Ministério da Educação e que considera itens como renda familiar, bens e escolaridade dos pais.

Considerando toda a rede pública do Estado, essa proporção é de só 35%. Nas cem escolas particulares no topo do ranking, alcança 98%.

O grupo de elite das públicas é formado quase que integralmente por Etecs (escolas técnicas estaduais), que fazem seleção dos alunos, e por colégios ligados às universidades paulistas.

O índice socioeconômico criado pelo Inep, órgão do MEC responsável pelo Enem, é feito com base em questões respondidas pelos alunos.

Ele tem sete níveis. Nos dois mais altos estão escolas em que a maioria dos alunos tem empregada mensalista, renda familiar acima de 12 salários mínimos –R$ 8.688, no ano da realização da prova– e pais com ensino superior.

A escala de classificação é única no país inteiro. Com isso, escolas de São Paulo com perfil mais pobre em relação ao próprio Estado são classificadas nos níveis mais altos porque a base de comparação do índice é nacional.

Pesquisadores avaliam que os dados confirmam a influência do contexto social como algo predominante no desempenho dos alunos.

“As escolas técnicas têm um processo seletivo muito intenso. Nessa seleção, o que acaba pesando mesmo é o nível socioeconômico dos alunos”, afirma Ocimar Alavarse, professor da USP.

Ele diz que as condições sociais dos candidatos “por si só não propiciam um bom desempenho, mas favorecem comportamentos” que os ajudam a obter resultados.

Fenômeno parecido acontece nas melhores universidades públicas, cujos primeiros colocados no vestibular geralmente têm nível alto.

Além disso, diz o professor, “nas escolas técnicas muitos nem querem seguir carreira técnica. Querem se preparar melhor para entrar nas boas universidades públicas”.

CAMADAS

A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) diz que há um “alto índice de aprovados vindos das camadas menos favorecidas” no vestibulinho das escolas técnicas –mas não especifica se isso ocorre nas mais bem posicionadas no Enem.

O Centro Paula Souza, órgão do governo paulista responsável pelas Etecs, argumenta que grande parte delas fica na periferia e que, neste ano, 80% dos estudantes aprovados no processo seletivo fizeram o ensino fundamental na rede pública.

Cita que seu relatório socioeconômico “apontou que 88% destes estudantes vêm de famílias que ganham abaixo de cinco salários mínimos”.

O relatório considera o conjunto de 218 escolas técnicas do Estado. Na lista das cem estaduais mais bem colocadas em São Paulo figuram 93 dessas escolas.

Para o centro, a diversidade de seus estudantes é decorrência de ações afirmativas iniciadas em 2006.

No vestibulinho das escolas técnicas há bônus de 3% a candidatos afrodescendentes e de 10% a oriundos da rede pública –pode-se somar as duas pontuações e obter acréscimo de 13% na nota.

A Etesp (Escola Técnica do Estado de São Paulo) obteve a melhor média no Enem de 2014, entre as instituições públicas na capital paulista.

Esse desempenho no ranking não surpreendeu Elizabeth Rodrigues, 15, aluna do 2º ano do ensino médio.

“Elizabeth com Z e TH, igual à rainha”, orienta a adolescente sobre a escrita do seu nome. “Mas só o nome mesmo, já que sou uma das únicas da periferia aqui”, diz.

Moradora do extremo leste da cidade e oriunda de outra escola pública, ela aponta a receita do sucesso dessa escola da região central da cidade: a maioria dos alunos vem de escolas particulares, já com uma base de ensino.

Essa hipótese de Elizabeth faz sentido quando cotejada com os indicadores da escola no Ministério da Educação.

O nível socioeconômico dos alunos é “muito alto”, o mesmo dos dez colégios mais bem colocados do país –todos eles particulares.

Para estudar na Etesp, é preciso passar por um processo seletivo. Segundo a administração das escolas técnicas, 56% dos aprovados 2014 vieram de escola pública.

Guilherme Martins, 16, sempre estudou em colégio particular e diz que sua família teria condição de pagar uma instituição privada.

Contudo, para cursar o ensino médio, escolheu a Etesp. “Vim para cá porque sempre falaram que era a melhor escola técnica de todas.”

No ranking geral do Estado, que inclui tanto privadas como públicas, a Etesp aparece na 32ª colocação.

Ainda assim, passa por problemas comuns a outras escolas públicas.

No início do ano, por falta de professores, alunos do 1º ano não tiveram aulas de história, e os do 2º, de espanhol.

Diretor do colégio, Nivaldo Freire diz que ninguém se inscreveu no concurso, por isso prorrogou as inscrições, em vez contratar temporários.

Segundo ele, novos professores foram contratados em seguida, e as aulas estão sendo repostas aos sábados.

Outra reclamação é a falta de material didático. “Quando chega, vem pouco, e a gente precisa se dividir”, diz o estudante Gabriel Ribeiro, 17.

Responsável pela administração das escolas técnicas, o Centro Paula Souza afirma que a falta de livros didáticos ocorreu por um atraso no repasse do governo federal e que a direção solucionou o problema em uma semana.

De acordo com o diretor da escola, a Etesp comprou o material para os alunos que não tinham condição de pagar por ele.


Folha de S. Paulo – André Monteiro e Thiago Amâncio

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