Enem, 20, avança e democratiza acesso ao ensino superior no Brasil

60% das instituições usam o exame para preencher vagas na graduação

Após 20 anos da sua criação, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) é uma das portas de entrada para seis em cada dez instituições de ensino superior do Brasil. No ano seguinte à criação, o exame foi aceito apenas em duas universidades (PUC-RJ e Federal de Ouro Preto-MG).

Das 2.448 instituições públicas e privadas existentes no país, 1.481 utilizam o exame para preencher vagas em cursos de graduação, segundo dados do Ministério da Educação, de 2017, os mais recentes.

Com pouco mais de 5,5 milhões de inscritos neste ano, o Enem detém o posto de segundo maior vestibular público do mundo. Só perde para o Gaokao, prova chinesa que tem o dobro de participantes.

De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, o exame foi responsável por democratizar o acesso de estudantes à universidade, além de ser uma ferramenta para a concessão de cotas e para a política de expansão universitária.

“O Enem oferece a chance aos mais pobres de entrarem no ensino superior público. E dialoga com o conteúdo que é ensinado na escola”, afirma Ocimar Munhoz Alavarse, pedagogo da USP.

A participação de pretos e pardos entre os inscritos no exame passou de 29% para 59% nesses 20 anos, segundo dados do Inep (instituto responsável pelo Enem).

Ao longo das duas décadas, o exame passou a ser critério para o estudante obter crédito do Fies (financiamento estudantil) e conseguir bolsas do ProUni (Programa Universidade para Todos), além de ter servido para certificar quem não havia concluído o ensino médio —hoje, porém, esse benefício não é mais concedido.

Em 2018, Enem será realizado em quase um terço dos municípios brasileiros

O objetivo do exame ao ser criado era avaliar o ensino médio e observar se o estudante havia adquirido competências para entrar na universidade ou no mercado de trabalho, como capacidade de argumentação, de enfrentar problemas do cotidiano e de propor intervenções à sociedade.

A prova tinha 63 questões, uma redação e era feita em um único dia —com duração máxima de cinco horas. Esse modelo perdurou por dez anos. Hoje, ela tem 180 questões para serem resolvidas em dois dias, além da redação.

Exame teve recorde de abstenções em 2009, quando 41,5% dos inscritos faltaram

O professor de inglês Rodrigo Aran Jallas, 42, prestou a primeira edição do Enem, em 1998, na capital paulista. Ele lembra que muitos colegas nem se inscreveram naquela ocasião porque não viram vantagem imediata no teste. “Ele foi encarado mais como um simulado”, afirma.

Jallas conta que já na primeira edição encontrou uma prova sofisticada, transdisciplinar e que, segundo ele, exigia “mais interpretação do que domínio do conteúdo em si”. Era o oposto do formato consagrado pelos vestibulares.

Proporção de candidatos negros no Enem mais que dobrou desde 1998

 

O professor de matemática Nilson Machado, 71, da Faculdade de Educação da USP, foi um dos convidados pelo Inep para criar a prova naquela época. A turma de especialistas construiu o exame como tentativa para atacar um problema ainda não resolvido até hoje: a fragmentação curricular, segundo Machado. “No ensino médio, os alunos ficam perdidos entre 13 disciplinas que não interagem entre si”, afirma o professor.

Nos primeiros dez anos de aplicação do Enem, o que se buscou foi uma interação entre as disciplinas, dando atenção “para o conteúdo considerado fundamental na etapa”, de acordo com Machado.

Norte e Nordeste ganharam mais espaço entre os inscritos

NOVO ENEM

Em 2009, porém, o conceito mudou. O Enem deixou de ser usado como diagnóstico do ensino médio e ganhou roupagem de vestibular. Foram criadas quatro grandes áreas: linguagens, matemática, ciências humanas e ciências da natureza.

A mudança de formato colocou o Enem em pé de igualdade com exames de larga escala feitos no exterior, segundo Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais do grupo Ari de Sá.

Mulheres são maioria entre os candidatos

O diretor menciona a implantação da TRI (Teoria de Resposta ao Item) no Enem como exemplo. “É um sistema que pune o participante que chuta a resposta e dá maior nota para quem acerta as questões de forma mais equânime”, afirma Celedônio.

Naquele ano, em paralelo, o governo federal criou o Sisu (Sistema de Seleção Unificada). O programa, operado de forma online, seleciona vagas nas instituições públicas federais a partir da nota obtida pelo estudante no Enem. Antes do sistema, o processo de seleção era feito pelas próprias universidades.

Foi também em 2009 que o Enem sofreu a sua maior crise. Um vazamento da prova adiou o exame em dois meses e chegou a causar prejuízo de R$ 35 milhões.

Enem tem explosão de inscritos em 20 anos

1998 Prova foi aplicada em 185 cidades

1999 Universidades passam a usar o Enem na seleção de calouros pela 1ª vez

2004 Nota passa a ser usada como critério para concessão de bolsas pelo ProUni

2005 MEC passa a divulgar as notas por escola

2009 MEC implanta modelo atual, com 180 questões e 2 dias de provas. Nasce o Sisu*

2010 Enem vira pré-requisito para o Fies**

2013 Todas as instituições federais adotam Enem como critério de seleção

2014 Universidade de Coimbra, em Portugal, passa aceitar o Enem

2017 Enem passa a ser aplicado em dois domingos consecutivos

2018 1.481 adotam o Enem
*Sisu, seleciona vagas nas instituições públicas **Fies, programa de financiamento estudantil. Fonte:Inep

O episódio elevou o nível de segurança em todas as etapas de confecção da prova, segundo Joaquim José Soares Neto, ex-presidente do Inep responsável pela edição do Enem no ano seguinte, em 2010. “Meu trabalho foi o de restabelecer a credibilidade do processo.”

O futuro do Enem caminha para uma prova feita no computador e em várias datas ao longo do ano, evitando o temido dia “D”, segundo educadores ouvidos pela Folha. “Com o nível avançado de tecnologia digital, a avaliação poderá trazer simulações de problemas ecológicos e sociais para o aluno resolvê-las com base em modelos teóricos”, prevê o biólogo Miguel Thompson, diretor do Instituto Singularidades.

Uma outra mudança poderá ocorrer caso a nova Base Nacional Curricular Comum para o ensino médio seja aprovada, segundo a atual presidente do Inep, Maria Inês Fini. “Ele vai ter de acompanhar esse aluno que será mais autônomo e menos dependente de conteúdo tradicional”, afirma Fini. Ela prevê, porém, que a edição 2019 não terá mudança.

 

Fonte: Folha de S.Paulo

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