Enem: descaso e escárnio

Enem: descaso e escárnio

Não existe maior prioridade para um país do que a Educação. Valor fundamental para a construção de uma democracia sólida, ela esclarece a sociedade, abre novas perspectivas na construção de uma política de qualidade e faz deslanchar uma economia forte. O futuro de um país se escreve diariamente, em cada sala de aula, em cada prova, em cada lição de cada professor. Entretanto, infelizmente, o que vemos cada vez mais em nosso país é um total desprezo à melhoria educacional, uma repulsa em conjecturar soluções que possam resolver definitivamente o atraso que impera no Brasil. E não existe maior prova dessa alienação do poder público às demandas acadêmicas do que o novo Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem.

A cada ano que passa, mais um incidente na realização da prova demonstra escancaradamente o nível de incompetência administrativa do Ministério da Educação, órgão que deveria primar pela construção de um sistema acadêmico robusto e sustentável. Pelo contrário, as falhas do Enem demonstram que o MEC vem sendo exitoso em uma tarefa diametralmente oposta – a de se descredibilizar, e, ao mesmo tempo, desmerecer os milhões de estudantes da nação.

Se já não bastasse o incidente revoltante do vazamento de provas do Enem 2009, em 2010 o Exame conseguiu se depreciar ainda mais. Erros grotescos, como a troca de cabeçalhos, a falta e a repetição de questões, a falta de orientação dos fiscais, os locais mais inadequados à realização das provas, mostraram o que parecia ser impossível – o fundo do poço da Educação ainda não havia chegado. Fundo do poço este no qual é proibido o uso de lápis e borracha, com pleno uso de desculpas estapafúrdias por parte de membros do Inep, incapazes de convencer qualquer indivíduo racional. Pelo contrário, foi ironicamente comprovada a total falta de seriedade e comprometimento do órgão quanto a assuntos educacionais.

Mas os tropeços do Enem 2010 não são o maior erro da prova. O maior erro é o exame em si. Criado para ser um termômetro educacional no país, o Enem é desabilitado e insuficiente para servir como ingresso nas faculdades públicas. A prova não mede a qualidade do conhecimento adquirido ao longo do ensino médio. Pelo contrário, mede a resistência dos candidatos. Faltam questões relativas ao conteúdo programático, enquanto sobram questões fora de contexto, aleatórias, sobre vôlei, feijão tropeiro e Mr. Bean.

O mínimo que os mais de três milhões de estudantes mereciam era um pedido de perdão, mas, pelo contrário, o que ganhamos foram declarações tristes, atingindo seu ápice no discurso do próprio presidente da República. Dizer que o “Enem foi um sucesso estrondoso” não é apenas desrespeito, é uma ironia masoquista, uma demonstração cruel de total descaso, menosprezo e escárnio perante nós.

É lamentável ver a Educação de nosso país entregue a um punhado de instituições descompromissadas, repletas de autoridades incompetentes que nada entendem sobre salas de aula. Incapazes de assumir seus erros, forçam a manutenção de uma prova incompatível com a realidade nacional e com a sua capacidade de coordenação. Quantos anos mais serão necessários para perceberem o erro? Quantos mais artigos como este serão necessários para que se leve a Educação a sério no país? Se realmente quisermos ser gigantes pela própria natureza, já é hora de parar de pensar em medidas imediatistas e populistas, para focar em questões substanciais, em reformas profundas, desde a raiz, no sistema educacional, que garantam enfim o tão almejado desenvolvimento pleno do Brasil.

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