Engenharia em baixa

Engenharia em baixa

Disseminou-se pelo Brasil a convicção de que há grande carência de profissionais em campos decisivos para o desenvolvimento, como as engenharias. Falou-se até no risco de um apagão, que só não se teria materializado porque a economia andou rateando.

O diagnóstico não está errado, mas necessita de refinamento. Como tantos outros casos na área de educação, o aspecto quantitativo das carências nacionais tende a sobrepujar sua dimensão qualitativa.

O número de cursos de engenharia vem aumentando pelo menos há uma década. Há hoje cerca de 650 escolas, contra 150 no início dos anos 1990. Há de ser uma boa notícia que em 2011 o total de matriculados na modalidade tenha ultrapassado, pela primeira vez, o de estudantes de direito.

Segundo o Observatório de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora, formaram-se em 2012 mais de 54 mil engenheiros no Brasil. Em 2011 haviam sido 45 mil, 152% mais que uma década antes (18 mil, em 2001), taxa ligeiramente acima da observada nos demais cursos superiores (146%).

A quantidade de vagas oferecidas, no entanto, avançou bem mais nas engenharias (266%) do que nas outras áreas (129%). A discrepância decorre da alta taxa de evasão na engenharia, da ordem de 50%.

Apesar disso, o número de diplomados cresce mais rápido que o PIB. Como explicar, então, a percepção entre administradores de recursos humanos de que se tornou difícil contratar engenheiros?

Segundo artigo de Leonardo Melo Lins e colaboradores na revista “Novos Estudos Cebrap” de março, não há sinais claros de aquecimento no mercado para profissionais desse setor. Seus salários só disparam –sinal inequívoco de carência de mão de obra– nos lugares em que há escassez aguda, como obras de infraestrutura distantes das regiões metropolitanas.

Segundo seu diagnóstico, o cerne da questão se encontra na década de 1980, quando a profissão perdeu prestígio social no mesmo passo em que a economia se afundava na inflação. A fuga dos cursos de engenharia, nos anos 1980-90, teria originado uma escassez relativa de profissionais na faixa de 35-59 anos, com experiência e capacidade para liderar projetos.

Esta lacuna só o passar do tempo pode sanar. Há algo mais preocupante, porém: nada menos que 40% dos engenheiros se diplomam atualmente em cursos mal avaliados, com notas 1 e 2 no Enade. Os profissionais disponíveis, além de inexperientes, são mal formados.

Mais do que seguir multiplicando as vagas em cursos de engenharia, o país deveria preocupar-se com duas coisas mais urgentes: reduzir a taxa de evasão e melhorar o aprendizado nos que já existem.

Folha de São Paulo

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