Ensino a distância supera preconceito, mas cursos ainda podem melhorar

Ensino a distância supera preconceito, mas cursos ainda podem melhorar

A opção de estudar em casa ou em outro lugar qualquer, mas longe das tradicionais salas de aula tem atraído mais brasileiros jovens.

O avanço da educação a distância é documentado pelo Ministério da Educação: no dado mais atual, de 2013, o número de universitários em cursos virtuais subiu 16,2% em relação a 2011, com 1,1 milhão de matriculados, quase o dobro do crescimento registrado na graduação tradicional (8,4%) no período. A alta no número de inscritos em vestibulares nesses cursos foi ainda mais significativa: 80% em dois anos.

Luana Carvalho, 29, de São Paulo, é aluna de um dos 1.200 cursos a distância do país. Faz geografia pela Anhanguera via computador. Mas também segue todos os dias para o campus da UniÍtalo, onde estuda pedagogia. Ela explica a maior diferença entre os dois mundos.

“No curso a distância, você pode escolher quando quer ver a aula, e o quanto dela você quer ver, o que não acontece nos presenciais. Também precisa ser mais dedicado e seguir uma linha própria de estudo no primeiro caso”, diz.

No país, 97 instituições públicas oferecem graduação a distância. Mas as faculdades privadas detêm a maior parcela de cursos: 60%. Mesmo virtual, o curso exige do aluno ao menos um encontro presencial mensal no polo de ensino, para estreitar laços com professores. Há instituições com modelo híbrido, com matérias presenciais e a distância.

A PUC-RJ precisou fechar seu curso de história nesse modelo por “não dar conta de atender a todos os interessados”, segundo a coordenadora Gilda de Campos. Já o Mackenzie está indo na direção contrária. A universidade aguarda autorização para abrir ao menos três cursos virtuais de graduação ainda este ano, segundo adianta o reitor da faculdade, Benedito Aguiar Neto.

Para uma escola criar um curso a distância precisa ao mesmo tempo investir em infraestrutura tecnológica e na orientação de professores.

“É quase como pensar em uma nova universidade, focando em revisões curriculares a todo o tempo. É uma adaptação a um estudante que não é mais aquele do século 19 “, diz Pimentel.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, a modalidade a distância amplia o acesso ao ensino superior, mas a qualidade dos cursos ainda precisa melhorar. “As turmas são maiores que as presenciais, e o conteúdo é mais leve. Essa é uma postura perigosa porque compromete a formação dos alunos”, completa Pimentel.

Mas, para Luana, que além de duas faculdades se empenha na tarefa de mãe, o ensino a distância foi a saída. “Hoje, não tem como ficar sem estudar.”

Diplomas são iguais, mas os alunos, diferentes, diz reitor do Mackenzie
“Quando o aluno recebe o diploma do curso de graduação, não há especificação se ele foi presencial ou a distância. Exatamente para dizer: o curso é o mesmo. A metodologia é que é diferente”, afirma Benedito Aguiar Neto, reitor do Mackenzie.

A qualidade do ensino pode até ser parecida, mas as exigências sobre o estudante universitário são bem diferentes no formato virtual.

“A essência de um aluno a distância é que ele precisa ser mais ativo. Não pode mais ir para a aula e ficar dormindo lá atrás, ele precisa se manifestar, interagir”, explica Gilda Helena de Campos, coordenadora da PUC-RJ.

Nara Pimentel, diretora da UnB (Universidade de Brasília), lembra que o universitário brasileiro lê pouco, o que é incompatível com o ensino superior a distância.

Luana Carvalho, que cursa as duas modalidades de graduação, atesta que precisa recorrer às madrugadas para estudar. “Antes de assistir aos vídeos das aulas, imprimo e leio todo o material.”

Outro aspecto diferente é a perda de parte da sociabilidade da vida universitária. Para Gilda Campos, os recursos de interatividade são importantes nesse ponto, pois representam a conexão do aluno com colegas e mestres.

Segundo Luana, a interação com os docentes, mesmo reduzida, existe. Ela conta que, no seu curso virtual de geografia na Anhanguera, os tutores fazem plantões on-line três vezes por semana, para esclarecer dúvidas.

E ela deu um jeito de conectar sua turma, criando um grupo no Facebook para discutir o aprendizado. “Em menos de 15 dias, mais de 200 pessoas já entraram.”


Camila Lira – Folha de S. Paulo

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