Escola troca formação de cidadãos pela capacitação de clientes, diz antropóloga

Escola troca formação de cidadãos pela capacitação de clientes, diz antropóloga

O Estado perdeu sua capacidade de dar coesão às instituições modernas e o mercado amplia sua abrangência. A educação já não prioriza a formação de cidadãos, mas quer oferecer serviços a clientes, consumidores. A escola como conhecemos pode desaparecer.

A visão é da antropóloga argentina Paula Sibilia, 45, que lança amanhã no Rio o livro “Redes ou Paredes – A Escola em Tempos de Dispersão” (Contraponto). No ensaio ela faz um cáustico diagnóstico do ensino e avalia o impacto das mídias eletrônicas no aprendizado num mundo cada vez mais dispersivo e refratário à reflexão. Para ela, “na escola deveríamos aprender a pensar”, resume.

Nesta entrevista, concedida por correio eletrônico, ela fala de temas variados, como o uso de câmaras nas salas de aula, alunos com hiperatividade e ensino remoto.

Sibilia escreveu também de “O homem Pós-orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais” (Relume Dumará, 2002, com reedição atualizada pela Contraponto, no prelo, 2012) e “O Show do Eu: A Intimidade como Espetáculo” (Nova Fronteira, 2008). Seu próximo livro tratará do fenômeno do culto ao corpo. Realiza um pós-doutorado em torno desse assunto na Universidade de Paris 8, na França.

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Folha – Por que a sra. se interessou em escrever sobre escola não sendo da área de pedagogia?

Paula Sibilia – Minha área de trabalho específica não é a pedagogia nem a educação. Contudo, me interessei pela crise da escola como um fenômeno contemporâneo, muito relacionado com outros que também venho investigando.

Uma aposta básica percorre todos meus livros. Essa hipótese é a seguinte. Estaria se produzindo atualmente uma mudança histórica nos modos de construirmos o que somos –ou seja, isso que chamamos de subjetividades–, assim como nas maneiras de nos relacionarmos com os demais e com o mundo.

Transformações como essas ocorrem constantemente. Não é a mesma coisa ser alguém agora –no mundo globalizado de início do século 21– que no século 19, por exemplo, ou então na Idade Média, na Grécia clássica ou em outras culturas não ocidentais. Tudo isso tem uma relação profunda com a cultura na qual estamos imersos.

O que mais me interessa deste processo que está acontecendo agora é uma mutação com relação às formas modernas de ser e estar no mundo. Aquelas que configuraram a subjetividade que teve seu apogeu nos séculos 19 e 20, protagonizando a era burguesa e industrial. Estaria ocorrendo agora um deslocamento no eixo em torno ao qual se organiza o que somos. Em que sentido? Se a confluência oitocentista entre o racionalismo ilustrado e os ímpetos românticos situou esse centro numa entidade misteriosa e oculta conhecida como interioridade –a alma, o espírito, o inconsciente, inclusive a mente incorpórea–, onde se acreditava que residia a essência de cada um, todo esse relato está perdendo força ultimamente, está se modificando para dar lugar a outras configurações.

No final do século 20 e início do 21, um complexo movimento histórico, que envolve fatores sócio-culturais, políticos, econômicos e também muitas mudanças no plano dos valores e da moral, vem deslocando esse eixo da subjetividade. Como resultado dessas transformações, já não nos construímos prioritariamente ao redor daquele centro considerado interior. Ao contrário, e cada vez mais, a definição de quem é cada um se ancora naquilo que se vê. Com isso me refiro não apenas ao aspecto físico, à imagem pessoal e tudo aquilo que costumava ser considerado vãs aparências, diante da contundência da beleza interior, mas também ao comportamento visível. Ou seja, tudo isso que agora denominamos a imagem e a performance de cada um, que se supõe que deveriam ser constantemente aprimoradas e expostas ao olhar alheio, num presente vertiginoso que costuma engolir tanto o passado como o futuro.

Por tais motivos, não surpreende que hoje proliferem as redes sociais, com seus perfis e sua infinidade de imagens e pequenos relatos pessoais que circulam pelas telas do mundo. Assim como os reality-shows e os programas de fofocas e confissões na televisão, ou as câmeras digitais que permitem fotografar todos os instantes da vida cotidiana e mostrá-los de imediato seguindo os códigos estéticos do espetáculo. Ao mesmo tempo, entra em declínio um conjunto de ferramentas e atributos que caracterizavam o antiquado homo psycologicus, aquele que brilhou no século 19 e início do 20: desde o diário íntimo até o pudor que envolvia a intimidade, por exemplo.

Considerando todo esse pano de fundo, neste livro mais recente, sugiro que talvez a escola faça parte desse pacote que está sendo descartado pela gradativa expansão dos novos modos de vida. Entra em crise, assim, não só a estrutura arquitetônica e funcional do velho aparato escolar, mas também se metamorfoseiam as subjetividades e os corpos das crianças (e dos adultos) que costumavam povoar esses espaços. Assim como os valores e as regras que os pautavam, as premissas em que se baseavam e as ambições que projetavam. Eis um dos principais motivos, portanto, daquilo que chamamos a crise da escola no século 21, de acordo com a análise que apresento no livro.

No seu livro “Redes ou Paredes” a sra. relata o desmoronamento no modelo de escola disciplinador e que formava a mão de obra para o mercado de trabalho capitalista. Esse modelo secular foi sendo corroído pelas “redes” que perpassam a sociedade atual. Na sua visão, quais devem ser as características da nova escola? É possível remar contra a maré individualista, consumista, dispersa e imediatista?

A escola fundada na modernidade se destinava a formar não apenas a mão de obra para alimentar as demandas da sociedade industrial, mas também os bons cidadãos requeridos por cada Estado nacional. Já a própria palavra “formar” dá uma ideia de em que consistia esse projeto: modelar uma matéria-prima humana (a infantil) que se considerava inacabada. Mas a garotada de hoje talvez não seja mais idêntica àquela do século 19 e boa parte do 20, para a qual a escola foi inventada e que era, portanto, bem mais compatível com os modos de funcionamento dessa instituição.

Mais do que entes inacabados com vistas a seu desenvolvimento futuro, as crianças atuais se apresentam como seres completos e bem definidos. Entre outras coisas, eles são os consumidores do presente, por exemplo, aos quais é preciso estimular, agradar, escutar e compreender, e dos quais se supõe que temos muito que aprender, em vez de se configurarem como os cidadãos do futuro que deviam ser formados porque ainda eram incompletos e não sabiam nada.

Porém, mais do que ter sido “corroído pelas redes que perpassam a sociedade atual”, como você diz na tua pergunta, esse modelo vem sendo questionado há várias décadas, por diversos motivos e de diferentes maneiras. É verdade, porém, que essa crise se intensificou muito nos últimos anos, em boa parte impulsionada e colocada em evidência pela popularização dos dispositivos móveis de conexão às redes informáticas.

Quanto à nova escola, o livro todo é uma grande pergunta nesse sentido: uma interrogação acerca da escola de hoje à luz dos colégios de ontem, porém sempre apontando para alguma possível forma futura dessa instituição. O intuito é instigar no leitor a necessidade de pensar acerca dessa escola do amanhã, como um aporte mais a um debate que sem dúvida já está em andamento, mas que deveria aumentar e se tornar mais audaz. Não creio que tenhamos respostas muito concretas ou categóricas. Pelo menos essas não se encontram no meu livro. Mas penso que estamos num momento ideal para tentar formular essa questão do melhor modo possível: indagar o que é uma escola, por exemplo, para quê serve e como gostaríamos de transformá-la se queremos que se torne mais interessante.

As épocas de crise são especialmente adequadas para lançarmos esse tipo de questionamentos tendentes a ampliar os horizontes do pensável e do possível. Aprender é algo tão importante que, embora custe e doa, vale a pena ousar com o pensamento para ver até onde ele nos leva. E convém lembrar que, mesmo em sua época mais gloriosa –quando ela funcionava bem e não se considerava que estivesse em crise–, a escola sempre esteve longe de ser algo perfeito. Por isso, penso que talvez possamos aproveitar este momento em que as certezas são abaladas para imaginar e inventar algo melhor.

A sra. conta que a educação já foi o braço armado do iluminismo. Hoje, o que é a educação? Para que serve? Que tipo de cidadãos ela está formando?

A educação formal, tal como nós a conhecemos, é um instrumento idealizado na era moderna e industrial para dar substância aos cidadãos de cada nação. O que sugiro em meu ensaio é que tanto o mundo como seus habitantes mudaram muito nos últimos dois séculos. Era inevitável que essas transformações afetassem também a escola, daí a incompatibilidade que se observa agora entre nossas crianças e essa velha instituição. Empurrado por uma série de mudanças econômicas, socioculturais e políticas que sedimentaram nas últimas décadas, o Estado tem perdido sua capacidade de dar coesão e sentido às demais instituições modernas,entre elas, a escola. Essas ficaram mais ou menos à deriva e com a urgência de se adaptarem às novas regras do jogo. Por sua vez, o mercado tem expandido sua abrangência de modos que teriam sido impensáveis algum tempo atrás. Penetra agora em âmbitos que antes lhe estavam vedados. Assim, o espírito empresarial vai impregnando todas as instituições, inclusive a escola – e, também, os corpos e as subjetividades que por ela circulam.

Nesse contexto, converter as crianças de hoje nos cidadãos do amanhã não parece ser a meta prioritária de boa parte dos colégios atuais, que tentam se pôr ao dia oferecendo um serviço atraente para seus clientes. Mais do que uma educação, seria então uma capacitação o que essas instituições com inspiração empresarial procuram fornecer: uma série de instruções úteis que prometem a seus clientes uma inserção com sucesso no mercado laboral. Essas mudanças que estão ocorrendo são sutis, porém contundentes, e ecoam outras transformações igualmente importantes que estão se dando em todas as esferas.

Embora ainda não saibamos com certeza para onde estamos indo nesse processo, penso que é muito grave o risco de que instâncias como o mercado e a empresa assumam os papeis antes desempenhados pelo Estado. Claro que, com isso, de modo algum estou reivindicando um apego aos mecanismos imperfeitos –e, em boa medida, ultrapassados– da escola tradicional. Mas tampouco creio que devamos substituí-la por uma gama de mercadorias à disposição dos diversos tipos de consumidores – um movimento no qual, por outro lado, muitos dos antigos cidadãos ficariam de fora. Creio que a reformulação deveria ser bem mais profunda, assumindo que é fruto de um processo histórico extremamente complexo que estamos protagonizando, e cujo desfecho também está em nossas mãos.

A sra. observa a transformação de alunos em consumidores, clientes e da escola em empresa. Mas isso não é apenas uma característica do capitalismo? Quais são os impactos disso na sociedade?

O capitalismo vai se transformando com os vaivens da história. Além disso, trata-se de apenas um ingrediente, sem dúvida muito importante. Porém não é o único fator envolvido na complexa trama de influências que nos leva a ser o que somos –e que levou a educação formal à sua atual crise. Então, quando a escola vivenciou seu apogeu como instituição moderna, na segunda metade do século 19 e na primeira do 20, o capitalismo também estava em auge, embora em outra etapa de seu desenvolvimento. No entanto, as crianças daquela época não eram prioritariamente identificadas com seus papéis de clientes ou consumidores, por exemplo. E as escolas desdobravam outras estratégias para consumar sua missão civilizadora. Acredito que a pergunta que devemos formular, para tentarmos esclarecer este aspecto, é a seguinte: de que tipos de sujeitos o mundo contemporâneo precisa, e por quê? Comparando esse quadro com aquele do século 19, talvez possamos iluminar um pouco os sentidos dessas transformações. E, em função disso, tomar decisões.

Como a escola enfrenta essas mudanças?

A escola não é algo isolado do resto da sociedade, portanto ela também vai mudando ao compasso das transformações socioculturais, políticas e econômicas. No entanto, essa capacidade de adaptação é limitada: seu formato não tem uma flexibilidade total, e pode chegar um momento em que não dê mais conta das mudanças que ocorrem ao seu redor e se quebre, perdendo sua eficácia e seu sentido. Assim como num tempo passado nem muito distante, essa instituição não existia, ela pode muito bem vir a desaparecer no futuro, ou a se transformar tão radicalmente que deva ser redefinida.

A sra. discute o uso de computadores nas salas de aula e coloca alguns problemas. Como a informática deve ser usada como instrumento pedagógico? A sra. vê aspectos negativos na informática na formação de estudantes?

A informatização das aulas costuma se apresentar como panacéia que irá resolver todos os problemas que atualmente assediam a escola. Eu não tenho dúvida de que se trata de algo importantíssimo, mas também tenho certeza de outra coisa: a mera incorporação de recursos tecnológicos às salas de aula tradicionais não vai resolver todos esses conflitos; podendo, inclusive, intensificar alguns deles.

Esse é, justamente, um dos nós problemáticos enfocados no livro. Se pensarmos na escola como uma máquina ou uma tecnologia, ou seja, como uma ferramenta desenhada em certo momento histórico (a era moderna e industrial) para produzir determinados resultados (formar os cidadãos do futuro), podemos conjecturar que esse complexo artefato talvez tenha se tornado incompatível com as crianças de hoje em dia. Estas, por sua vez, não só rejeitam o dispositivo pedagógico que constitui a escola, mas se fusionam de modos cada vez mais afinados com outro tipo de aparelhagem: as chamadas novas tecnologias, particularmente os artefatos móveis de acesso à internet e comunicação em redes. Essas máquinas implicam certos estilos de vida e certas subjetividades, ou seja: determinados modos de ser e estar no mundo, de se construir o que se é e de se relacionar com os outros. E todas essas novidades respondem de maneira bem mais eficaz às exigências do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que demonstram seu crescente desajuste com relação à tecnologia escolar.

Por isso, creio que temos que refletir bastante sobre a possível fusão entre ambos os universos: o dispositivo pedagógico no qual se baseia a escola tradicional, por um lado, e o universo das redes informáticas, por outro lado. Eis o conflito entre as paredes e as redes que aparece no título de meu livro. O que eu sugiro nesse ensaio é que talvez no seja tão simples incorporar as novas tecnologias às aulas para atualizar os colégios e, desse modo, superar sua crise. Porque esses aparelhos não são ferramentas neutras, como se costuma dizer. O que tampouco significa que sejam bons ou ruins, mas simplesmente que não são instrumentos neutrais _até porque não existem os instrumentos neutrais!. Então, embora possam ser apropriados e usados de diferentes maneiras, eles estão carregados de valores e tendem a suscitar certos modos de uso e certas formas de vida, que se distanciam muito das regras escolares e talvez não sejam compatíveis com seu funcionamento.

Além de subverterem os usos do tempo e do espaço instituídos pelo regulamento escolar, as novas tecnologias entram em choque com um requisito básico da escola e outras instituições modernas com ela compatíveis: o confinamento. Ou seja, a ideia de que é necessário encerrar todos os sujeitos durante um determinado período de tempo em um espaço bem delimitado, todos os dias, com uma estrita regulamentação de cada movimento. Essa táctica foi muito eficaz ao longo do último par de séculos e define a escola por excelência, assim como a prisão, a fábrica, o hospital, embora já faça um bom tempo que vem perdendo sua antiga potência. Mas a popularização dos dispositivos móveis de informação e comunicação promete aniquilá-la de vez, não só ao diminuir ainda mais sua tradicional eficácia, mas também porque é capaz de deixá-la sem sentido. Para que se trancar todos juntos durante varias horas por dia, entre quatro duras paredes, se cada um tem um aparelho conectado à rede? Não é uma pergunta banal, que possa ou deva ser respondida às pressas.

A sra. relata a queda na importância da leitura e da escrita no ensino atual. Quais são as consequências desse fato para a formação dos alunos?

Outros modos de ler e escrever estão se desenvolvendo atualmente, na era da internet e dos celulares, bem diferentes daquelas modalidades que vigoraram no século 19, por exemplo, em pleno auge das cartas e dos romances. Também é preciso considerar a influência que os meios de comunicação audiovisuais vêm exercendo ao longo de todo o século 20 e, mais recentemente, com a incorporação das mídias interativas. As consequências de tudo isso são imensas e acredito que ainda não saibamos exatamente em que consistirão. Eu destacaria, porém, que junto com a crise nas hierarquias escolares e familiares, isso também ajudou a abalar o mito da transmissão, um pilar fundamental da escola tradicional. Segundo esse mito, o mestre é aquele que sabe, aquele que professa seu saber. E, portanto, deve transmitir esses conhecimentos aos alunos, que são aqueles que não sabem.

Embora tudo isso seja discutível e, de fato, venha sendo questionando há vários anos, durante muito tempo se acreditou firmemente que as coisas eram assim. Esse foi um dos motivos pelos quais a escola funcionava e não se considerava que estivesse em crise. Agora que se costuma admitir que as crianças “sabem mais” que os docentes em áreas tão bem cotadas como a tecnológica e que se generaliza o império da informação e da opinião, com uma multiplicação do acesso aos canais midiáticos, esse mito da transmissão hierárquica do saber termina de desabar.

Isso não é necessariamente algo ruim, pois pode nos levar a inventar outras formas de vinculação com os demais, novos modos de dialogar e pensar e que, portanto, sejam mais ricos e interessantes para nós. No entanto, convém ressaltar que nada disso está garantido. De fato, nas atuais circunstâncias é muito difícil criar as condições necessárias para que esse diálogo possa ocorrer.

A sra. critica a absorção pela escola da lógica mercantil e do empreendedorismo. Por que a sra. acha que essa ideologia é danosa para a escola?

Não se trata de constatar se é algo danoso para a escola ou não. O que tento suscitar com o livro é um debate sobre os fundamentos dessas tendências, procurando entender por que isso está acontecendo agora e quais seriam suas implicações. Uma pista para responder a isso talvez seja que o mundo contemporâneo precise mais de empresários ou empreendedores que de empregados ou funcionários, por exemplo. Após o qual seria necessário perguntar por que e para que. Mas, sobretudo, minha intenção é questionar as possibilidades de assimilação dessas novas tendências pela lógica escolar, que desde suas origens foram normalizadora e homogeneizadora, baseadas nos princípios igualitários e universais que norteavam o projeto moderno. Já os discursos em favor do empreendedorismo, por sua vez, destacam certos valores do discurso neoliberal mais recente, como a singularidade, a criatividade, a distinção e a competência, por exemplo. Mesmo detectando graves falhas naquele projeto mais antigo, que agora estaria perdendo vigência, acho importante ressaltar que seria muito pobre se, em lugar desses esquemas hierárquicos e centralizados com supervisão estatal e fortemente institucionalizados, fosse criada uma nova estrutura decalcada em moldes empresariais e mercadológicos, comandada por aquela caricatura publicitária do consumidor infantil com ares empreendedores que sabe de tudo e só quer se dar bem vencendo os demais.

A sra. discute a questão de que a escola necessariamente precisa ser divertida, atraente. Por que isso não é fundamental?

Eu não considero que não seja fundamental, de modo algum! O que procuro indagar, também neste caso, são os percursos históricos dessa demanda por diversão também dentro da escola,assim como ocorre no ambiente laboral, tentando desnaturalizá-la para compreender seus sentidos. Acho que uma boa ilustração desses processos é o título de uns dos livros com os quais dialoga meu ensaio, “Pedagogia do Entediado”, publicado em 2005 pelos autores argentinos Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz. Que, por sua vez, responde ao clássico de Paulo Freire intitulado “Pedagogia do Oprimido”, de 1968. Quatro décadas separam ambas as publicações e a mudança nos títulos é sintomática, porque, nesse período, o entretenimento se instalou no cerne de um modo tipicamente contemporâneo de viver.

Todos concordam, hoje, que é necessário oferecer diversão aos entediados alunos do século 21, algo muito diferente do que acontecia com os oprimidos de alguns anos atrás, aos quais era preciso emancipar por meio da alfabetização e do conhecimento. Isso não significa que a opressão ou a alienação e nem sequer o analfabetismo tenham sido erradicados, sobretudo na América Latina. Mas sim que nosso drama histórico foi redefinido e que, agora, os discursos são outros.

Tanto as crianças como os adultos de hoje pretendem que as aulas sejam divertidas, não exatamente libertadoras. Creio que isso evidencia uma mudança importante nas formas de nos relacionarmos conosco, com os demais e com o mundo, e tudo isso também pode nos oferecer algumas pistas sobre a tal crise que hoje vivenciamos.

No livro a sra. cita uma experiência de uma escola em Estocolmo que derrubou paredes de salas de aula e deu um laptop para cada aluno. O que pensa disso?

É um dos exemplos que menciono no livro, sim, mas não precisamos ir tão longe para observar experiências desse tipo. Podemos aludir aos projetos antes conhecidos como “um computador por aluno”, por exemplo, que estão sendo implementados em vários países da América Latina. Essa iniciativa está um pouco mais atrasada no Brasil. Mas também aqui há movimentos nesse sentido, com projetos-piloto e planos de implantação em escala nacional. Penso que se trata de apostas muito interessantes e corajosas, embora também cheias de riscos e com custos altíssimos, não apenas econômicos. Pois ninguém sabe o que vai acontecer quando esses dois universos aparentemente incompatíveis _o dispositivo pedagógico e as redes informáticas– terminem de se fundir ou, então, entrem em colapso.

Por isso, eu digo que a informatização das aulas é apenas um primeiro passo. E é, sobretudo, o mais fácil de dar, sem desmerecer suas dificuldades, porque depois virão desafios gigantescos. Primeiro, está o risco de que os aparelhos se convertam num novo agente de dispersão. Após ter permitido o acesso ao fluxo de informações, e mesmo sabendo que seria tolo ou inútil tentar barrá-lo, o problema consistirá em ensinar os alunos a lidar com ele. Algo que hoje ninguém sabe fazer direito. Então, como capacitar os docentes para que estejam à altura desse desafio? Além disso, ainda resta consumar sua integração a um projeto pedagógico realmente inovador, capaz de reconcentrar a atenção dos alunos na aprendizagem.

Aprendizagem que, de acordo com a imensa maioria desses projetos hoje em andamento, continuará a ocorrer prioritariamente entre as paredes da sala de aula. Ou, como no caso da escola sueca que você mencionou, dentro dos muros do estabelecimento. Tudo isso parece conspirar contra a plena consumação da vida em rede, motivo pelo qual acredito que ainda deve ser muito bem pensado e discutido.

Quais experiências inovadoras merecem ser mais estudas e implantadas?

Estamos num momento único, no qual a escola enfrenta um grau de questionamento inédito. Há muita experimentação nesse campo, talvez como em nenhum outro momento histórico. Mas muitas dessas alternativas são destinadas a poucos: aqueles que podem pagá-las. Nesse sentido, cabe insistir sobre algo primordial: o perigo de que instâncias como o mercado e a empresa ocupem os papéis antes desempenhados pelo Estado, por exemplo. Algo que seria catastrófico para boa parte da população. Por isso, creio que ainda falta debater bastante para que estejamos em condições de tomar decisões políticas tão vitais, tanto em nível micro como em escala macro. E essa reflexão, além de ser urgente, não deveria ficar restrita ao campo pedagógico.

A sra. discute a questão de que “dialogar não é educar”. O que é educar do seu ponto de vista?

O que é educar, ou o que deveria ser, é um problema que nossa sociedade inteira deveria pensar e discutir, não apenas os especialistas dessa área. Creio que sua definição está mudando. Meu livro tenta contribuir para esse debate, a partir de um campo considerado exterior e inclusive alheio a esse tipo de reflexões: o da comunicação, bem como o da antropologia e o da análise genealógica das subjetividades. Então, quando apresento esse problema da possível oposição entre o diálogo e a educação formal, o faço na tentativa de defender esse intercâmbio como uma possibilidade inédita de ensino e aprendizado. Mas as condições para que esse diálogo entre professor e aluno ocorra de fato, hoje em dia não estão dadas de antemão. Sobretudo porque foi corroído o solo institucional que antes sustentava e dava sentido a essa relação. Portanto, é preciso um imenso trabalho cotidiano e local, especifico, quase artesanal, de construção e fortalecimento desse vínculo em cada caso, com base em outros valores e premissas, embora sempre com vistas ao aprendizado.

Eu, particularmente, acho que na escola, ou em seus eventuais sucedâneos, deveríamos aprender a pensar. Não a usar as tecnologias. Ou melhor: não somente isso. Que, por outro lado, costuma se efetuar com entusiasmo e bastante sucesso fora do colégio. Mas ensinar a pensar é muito mais difícil, e sem dúvida tem pouco a ver com a informação e com a opinião, dois ingredientes que saturam nosso cotidiano do século 21 e que imperam nas redes. Ao contrário, até: para poder pensar hoje em dia é preciso cultivar certa capacidade de resistir ao fluxo constante de informações e às conexões intermitentes, sem procurar bloqueá-las ou se isolar, mas também sem sucumbir à dispersão promovida pelas infinitas distrações nem à banalidade da opinião. Para pensar, por tanto, é preciso criar as condições necessárias para que se produza um diálogo, uma situação que permita reflexionar e processar a experiência.

De modo que o problema ante o qual nos encontramos é bem mais complexo e profundo que uma mera atualização tecnológica incorporando as novas tecnologias, ou estimulando a capacidade de nos mantermos atualizados num mundo em constante movimento de renovação e descarte. Em vez disso, trata-se de ensinar às crianças algo que provavelmente ninguém saiba: como pensar, vincular-se com os outros e assentar a experiência num ambiente convulsionado por tamanho grau de dispersão. Esse é, creio eu, a questão primordial. Ou seja: um desafio e tanto!

Como a sra. analisa as diferenças entre o ensino público e o privado no Brasil?

A brecha entre ambos é uma marca do presente e, também, tanto um indício como uma consequência da crise da escola enquanto instituição moderna por excelência. Isso não apenas no Brasil, embora aqui essas diferenças sejam mais profundas e cruéis que em outras partes do mundo. Os processos históricos que analiso em meu livro levaram à dissolução de certa missão salvacionista que caracterizava a escola moderna (laica, gratuita, pública e obrigatória), firmemente apoiada no solo institucional proporcionado pela solidez estatal e pela lei universal. É possível perceber o declínio desse projeto no abismo que se abriu entre as instituições educativas públicas e privadas, o que não deixa de ser um problema gravíssimo de nossa sociedade.

No livro a sra. relata experiências no exterior de pagamento em dinheiro para alunos que obtêm bons resultados. Por que esse não é um caminho a ser seguido?

Não digo que não seja um caminho a ser seguido, até porque essa não é minha função neste debate. Prefiro priorizar mais a formulação de boas perguntas do que fornecer respostas definitivas, até porque duvido que elas existam neste momento. Então, também neste caso, o que procurei fazer foi pensar as implicações desses gestos que estão começando a proliferar. E que são aparentemente tão opostos à lógica escolar em sua versão mais tradicional: recompensar em dinheiro os alunos que, de acordo com esse outro discurso mais antigo, apenas estariam cumprindo com seus deveres obrigatórios e universais para se transformarem, futuramente, em homens de bem. Por que isto deixou de ser impensável, escandaloso ou moralmente condenável e começa a ser implementado em vários países por parecer sensato e até mesmo lógico? Que mundo era aquele que inventou e consolidou a escola tradicional, e que sujeitos queria formar por meio dessa aparelhagem, em oposição ao que ocorre atualmente e à direção para qual estas novidades apontam?

A sra. mostra que cresce o diagnóstico de hiperatividade entre alunos. Por que isso ocorre? É possível dizer que há um certo conluio entre professores, pais e médicos para “domesticar” crianças? O que deve ser feito?

Trata-se de um traço das subjetividades contemporâneas, especialmente presente nas crianças –mas não apenas nelas–, que denota sua incompatibilidade com a parafernália escolar. Por isso é incômodo e as instâncias escolares procuram punir ou controlar. No entanto, fora da escola e em muitos âmbitos da atualidade, ser hiperativo é algo extremamente útil, estimulado e desejado. Mas convém frisar que não se trata só das crianças. Os pais, os docentes e a sociedade em geral, todos estamos envolvidos nestas intensas transformações nos modos de ser e viver. O mundo contemporâneo solicita de todos nós essas atitudes e disposições, que conspiram contra a atenção concentrada em longo prazo, por exemplo. Embora a escola continue a rejeitá-las numa batalha que, muitas vezes, está perdida de antemão. Essa contradição se tornou ainda mais evidente com o auge das comunicações digitais, que são abertamente opostas à estrutura escolar tradicional. Sobretudo a sua lógica baseada no confinamento espaço-temporal e, também, na medida em que requerem e incitam uma atenção espasmódica, multitarefa, hiperativa.

Recentemente estudantes do tradicional colégio Rio Branco, em São Paulo, protestaram contra o uso de câmeras nas salas de aula. Qual sua visão sobre o tema?

Esse foi um assunto especialmente focalizado no meu livro, por ser outro sintoma importante da atual crise da escola, bem como da sociedade contemporânea de um modo geral. Essas tentativas de vigilância eletrônica e registro informático são fruto de certas transformações que vem ocorrendo nos últimos tempos e que deram nascimento também aos condomínios fechados, aos carros blindados e aos alarmes ativados com senhas digitais ou cartões magnéticos para proteger os lares ou outros prédios de eventuais ataques exteriores.

Ante a crise generalizada do projeto moderno e das instituições nas quais este se baseava (tais como a escola), as redes eletrônicas são utilizadas para tentar controlar essa falta de segurança que não para de aumentar. Supõe-se que esta não será conseguida pela repressão culposa dos desejos transgressores, tão cara à tradição escolar, e sim por meios técnicos. Por isso, essas câmeras instaladas nos colégios parecem continuar e atualizar seu velho esquema da vigilância hierárquica. Mas há diferenças bastante significativas, que mostram até que ponto estamos nos distanciando daquilo que costumávamos ser.

Não se aponta, neste caso, ao disciplinamento precoce e vertical de todos os corpos, inculcando uma moral capaz de internalizar a culpa, promover a normalidade e levar ao bom comportamento graças ao autogoverno assim aprendido, como era a proposta básica das instituições modernas. Em vez disso, a vigilância eletrônica procura obter um controle permanente, horizontal, múltiplo e minucioso, que não brota de dentro dos sujeitos, mas se impõe de fora. E costuma se apoiar na ilusão (para os pais, docentes e outros adultos) de que desse modo será possível exercer algum tipo de controle sobre os corpos hiperativos e indisciplinados. Além das câmeras, isso também costuma ser efetuado por meio de chips subcutâneos que enviam mensagens aos celulares dos pais, por exemplo. Ou por uniformes inteligentes que registram a entrada e saída dos alunos. Trata-se, em todos os casos, de tentativas de utilizar as redes para compensar a crise das paredes.

No livro eu menciono alguns casos de resistências à instalação de câmeras nas escolas, comparáveis a esse que ocorreu recentemente em São Paulo. Porém, o curioso é que essas revoltas costumam ser feitas em nome da privacidade individual. Algo que, por outro lado, as próprias redes eletrônicas estão esfacelando. Na maioria dos casos, de modo consentido e até desejado. Quanto ao combate à insegurança que vem de fora dos cada vez mais ameaçados muros escolares, as câmeras têm recebido pouquíssima oposição ou mesmo discussão.

O ensino à distância, que já atinge 15% no Brasil, é bom ou ruim para o sistema de ensino?

Creio que a educação a distância pode ser, sim, um dos caminhos a serem explorados para reinventar o aprendizado, já que o confinamento tem perdido sua antiga eficácia e boa parte de seu sentido. Com os avanços das redes informáticas, a legitimidade desse encerramento sistemático e cotidiano provavelmente termine de desabar. Não entanto, a opção da educação à distância parece bem mais adequada para o ensino superior que para os outros níveis da educação formal. Ainda é muito pouco o que sabemos sobre isso: é preciso experimentar, discutir e pensar muitíssimo.

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