Estudantes voltam às ruas no Chile com forte presença policial

Estudantes voltam às ruas no Chile com forte presença policial

Encapuzados entraram em confronto com pedras e paus com policiais.
Chilenos protestam há mais de 2 meses por reformas na educação pública.

Dezenas de milhares de pessoas protestaram pela quinta vez em menos de dois meses em Santiago para exigir uma melhor educação pública, em uma manifestação que desta vez foi autorizada pelo governo e que voltou a derivar em incidentes com a polícia.

O protesto, que reuniu 60.000 pessoas segundo a polícia, 150.000 segundo os organizadores, levou às ruas de Santiago estudantes, professores, pais e trabalhadores de outros setores, como da indústria do cobre, e funcionários públicos.

Outras cidades como Valparaíso e Concepción se uniram ao protesto.

Vestidos com seus uniformes, portando cartazes nos quais afirmavam que “a educação está morrendo de fome”, fantasiados e outros dançando, os manifestantes caminharam vários quilômetros pela avenida central Alameda e por ruas próximas para desembocar na Praça Almagro.

“Protesto porque tenho dois filhos e não dá, eles vão terminar endividados por muitos anos e eu não quero isso para eles. Peço ao presidente que coloque a mão no coração e entenda as pessoas que já não podem pagar pelos créditos”, disse Graciela Hernández, uma das manifestantes.

O protesto foi iniciado nos arredores da Universidade de Santiago (no oeste da cidade) e avançou por várias quadras da avenida Alameda, a principal artéria do centro de Santiago, mas se desviou para o sul antes de passar na frente da casa de governo.

Vizinhos de casas próximas à passeata acompanharam os estudantes com panelaços e jogando água para refrescá-los, em um dia de “primavera” em Santiago.

O tom pacífico mudou quase no final, quando encapuzados entraram em confronto com pedras e paus com policiais sobre o Paseo Bulnes, a alguns metros da casa de governo.

Anteriormente, encapuzados destruíram semáforos e sinais de trânsito.

O governo pediu que os estudantes “refletissem” e acabassem com os protestos.

“Os resultados de hoje devem chamar à reflexão no país inteiro, e especialmente os líderes estudantis e o colégio de professores (sobre) até que ponto as passeatas estão sendo daninhas para nossa convivência social”, disse o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter.

“Quando alguém convoca uma marcha, tem que se comprometer que ela será pacífica”, completou o ministro.

Agentes de forças especiais dispersaram os manifestantes com jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo. Em meio às revoltas, foi registrado o incêndio de um automóvel e o apedrejamento de edifícios, constatou a AFP.

Os incidentes se ampliaram por vários minutos e contrastaram com o caráter pacífico da maior parte da manifestação.

A polícia não informou o número de detidos ou feridos nos confrontos.

Mais cedo, vários pontos de Santiago foram bloqueados por meio de barricadas montadas com pneus incendiados.

A manifestação desta terça-feira foi autorizada pelo governo e seu traçado foi fechado com os estudantes, diferentemente da quinta-feira passada, quando a polícia impediu que os manifestantes protestassem e prendeu mais de 800 pessoas.

Com esse gesto, estudantes mostraram flexibilidade, enquanto o governo demonstrou abertura para retomar o diálogo, após inconstantes encontros com os jovens.

As convocações estudantis foram as maiores desde o retorno à democracia no Chile em 1990, depois dos 17 anos de ditadura de Augusto Pinochet, cujo regime reduziu a menos da metade o aporte público à educação e promoveu sua privatização.

Em resposta, o governo propôs primeiro um Grande Acordo Nacional de Educação (Gane) e depois um programa de 21 pontos, qualificados ambos de “insuficientes” pelos estudantes, que exigem educação universitária gratuita para quem não puder pagá-la, que o Estado se responsabilize da qualidade e que as universidades privadas não tenham lucros.

Pela noite, a previsão é que um novo “panelaço” em apoio às demandas estudantis ocorra, um protesto típico da época da ditadura de Pinochet que se reedita duas décadas depois do fim de seu regime.

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