Evasão vira ´paranoia´ para grupos privados

Evasão vira ´paranoia´ para grupos privados

Após um primeiro trimestre com aumento no número de calouros e bons resultados financeiros, as instituições de ensino montaram uma verdadeira trincheira para evitar a evasão dos alunos que não conseguiram o Fies, financiamento estudantil do governo. Estão sendo oferecidos descontos em mensalidades, crédito universitário privado sem juros, assessoria para o aluno conseguir um emprego, reforço pedagógico, conversas com professores e orientadores, entre outras ações.
As instituições se preocupam porque o período de inscrições do Fies terminou em 30 de abril e as primeiras desistências daqueles que não foram aceitos pelo programa podem ser sentidas na virada do semestre, quando ocorrem as rematrículas. O Ministério da Educação aceitou apenas 252,4 mil novos pedidos de financiamento, o que representa metade da demanda registrada este ano.

Segundo estudo da Hoper, consultoria especializada em ensino, o setor privado deve sofrer uma baixa de 3% no volume de matrículas em 2015 e uma queda de 1,6% em 2016 por causa dos limites do crédito governamental e do cenário macroeconômico.

Diante desses números, o nome do jogo no setor atualmente é retenção. “Modo paranoia total”, definiu o presidente Estácio, Rogério Melzi, sobre o trabalho para evitar a evasão nos próximos meses. Sua equipe entra em contato com o estudante ao menor sinal de que algo não vai bem e tenta reverter a situação, tanto com orientação pedagógica quanto com renegociação financeira. “Há indícios de que o aluno está querendo evadir quando ele começa a faltar muito, tem baixo desempenho acadêmico, reduz o acesso ao conteúdo didático no site”, disse Melzi.

Algumas instituições já sentiram a evasão de alunos neste começo de ano por causa das restrições em torno o Fies. Na Ser Educacional, 7,3 mil alunos cancelaram suas matrículas até março porque não conseguiram o financiamento do governo. Para recuperá-los, a Ser negocia com esses estudantes opções de financiamento privado da Ideal Invest e crédito universitário próprio, o EduCred. “Os resultados iniciais de trabalhos com esses alunos são promissores. A expectativa é bastante otimista”, disse o fundador da Ser Educacional, Janguiê Diniz, em teleconferência sobre o balanço na sexta-feira.

A Kroton oferece aos alunos que não conseguiram o Fies um parcelamento de 90% do valor das mensalidades deste ano sem juros. O estudante paga agora somente 10% do valor. Além disso está estruturando um financiamento próprio, que será uma opção para este aluno continuar com o curso em 2016.

O setor privado deve apresentar nos próximos dias ao MEC propostas para um novo modelo de Fies, que está sendo preparado pelo governo. Entre as propostas estão um sistema que contemple vários critérios, como valor da mensalidade, qualidade do curso, renda, taxa de evasão, satisfação do aluno e empregabilidade. O diretor-executivo do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), Rodrigo Capelato, pontua que critérios adotados recentemente pelo MEC, como as notas dos cursos como barreira para concessão do Fies, são falhos. “Há 20 cursos de engenharia aeronáutica com nota 4 e nenhum com conceito 5. Já em pedagogia, há 148 cursos com nota 4 e 13 com conceito 5. Pela regra do MEC, haverá mais alunos de pedagogia beneficiados”, explicou Capelato, durante o 8º Fórum de Educação Superior, no Rio.

O setor também propõe que os alunos que obtiveram menos que 450 pontos no ENEM (mínimo exigido para pleitear o crédito) sejam atendidos por cursos de tecnólogos ou outros intermediários. Segundo Capelato, a ideia é reunir dados de alunos e cursos numa plataforma única, com sinergia com as notas do ENEM. (Colaborou Tatiane Bortolozi, de São Paulo).

Jornalista(s): Beth Koike | Valor Econômico

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