Ex-presidente da Andifes, professor Tomaz Aroldo torna-se emérito da UFMG

Cursar uma universidade não figurava entre os sonhos do garoto Aroldo, em Itapeipu, distrito do município de Jacobina, na Bahia. Os caminhões que chegavam ao vilarejo, nos anos 1950, com mercadorias e passageiros mexiam com sua mente fantasiosa. Para o menino, o veículo era o passaporte que o levaria a conhecer o mundo, e, para matar essa curiosidade, a solução era virar chofer de caminhão.

Aroldo, a propósito, só foi apresentado ao seu prenome aos 8 anos, depois que a professora da escola rural em que estudava o chamou duas vezes de Tomaz. Como ele não respondia, a mestra reformulou o anúncio: “Tomaz Aroldo”. Naquele dia, o menino que só se reconhecia como “Aroldo” – assim era identificado em casa – descobriu que também se chamava “Tomaz”, nome dado em homenagem ao avô paterno.

Essas histórias foram contadas pelo próprio Tomaz Aroldo da Mota Santos na cerimônia em que recebeu o título de Professor Emérito da UFMG, na noite desta quinta-feira, dia 18, no auditório da Reitoria. Reitor da UFMG na gestão 1994-1998 e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), de março de 2015 a novembro de 2016, e diretor do Instituto de Ciências Biológicas por dois mandatos, Tomaz fez, em seu discurso, uma reconstituição do longo percurso entre o curso primário na pequena Itapeipu até a cerimônia de ontem, quando foi agraciado com a principal honraria outorgada a um professor da UFMG.

Tomaz Aroldo salientou que sua trajetória não é obra exclusiva do próprio mérito. “Meu empenho foi indispensável, pois esforço e dedicação são necessários a qualquer pessoa que queira construir sua vida profissional, sua autonomia. Mas eu não me fiz sozinho. Minha trajetória profissional não teria sido possível sem que outras condições tivessem sido providas”, disse ele. “Muito devo à educação pública. Viva o povo brasileiro”, registrou ele, sob aplausos da plateia que lotou o auditório da Reitoria.

Como exemplo da importância do ensino público, Tomaz citou as iniciativas implementadas em meados do século passado, na Bahia, por Anísio Teixeira, então diretor de Instrução Pública – o equivalente hoje ao cargo de secretário de Educação –, como a criação de escolas de ensino primário no interior do estado e a ampliação do ensino de segundo grau em Salvador. “Sem escolas nas zonas rurais e colégios públicos de qualidade nas cidades, o esforço individual de cada jovem para educar-se não prospera”, argumentou.

Tomaz Aroldo chegou a Belo Horizonte em 1960, depois de concluir o curso ginasial em Jacobina e o ensino médio em Salvador. Influenciado pelo irmão Altino, ele ingressou na militância católica de esquerda. “Percebi que católicos podiam conviver com marxistas na busca do ideal comum da justiça social”, afirmou. Sua atividade política o conduziu ao curso de Sociologia e Política, em 1963, na Faculdade de Ciências Econômicas. No ano seguinte, deixou o curso após o golpe civil-militar. Em 1965, ingressou no curso de Farmácia da UFMG, que, segundo ele, trabalhava na perspectiva de “valorização do farmacêutico no desenvolvimento da indústria nacional”.

Contribuição institucional e pesquisa
Em seu pronunciamento, Tomaz Aroldo da Mota Santos fez uma breve explanação de suas contribuições como reitor da UFMG – abertura de novos cursos, flexibilização curricular, ampliação do acervo das bibliotecas, estímulo à educação de jovens e adultos, aprovação da política de moradia universitária, entre tantas outras – e discorreu sobre o seu trabalho de pesquisa no campo da imunologia da esquistossomose em parceria com o professor Giovanni Gazzinelli.

“Descobrimos a imunossupressão em animais infectados como possível mecanismo de atenuação das reações inflamatórias e de facilitação da adaptação do parasita ao hospedeiro. Deu-me muita satisfação estudar os mecanismos de resistência à infecção pelo Schistosoma mansoni e identificar fatores que afetam essa resistência e a descoberta de que a pele é o seu sítio”, explicou.

O professor aposentou-se em 2014, aos 70 anos, após findar seu segundo mandato como diretor do ICB, mas sua trajetória como gestor universitário não terminaria ali. Ele foi convidado a assumir, em caráter pró-tempore, a Reitoria da Unilab. “Ficamos no Ceará, Yara [a esposa Yara Maria Frizzera Santos] e eu, por quase dois anos, quando vivemos rica experiência para continuar a implantação da Unilab”, disse Tomaz, enaltecendo o princípio que norteou o advento e a própria atuação da Unilab. “A integração que está no seu nome cria um espírito de cooperação entre os povos brasileiro, africanos e asiáticos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com a mediação de uma universidade pública brasileira”, afirmou.

Questão racial
Tomaz Aroldo também fez uma reflexão sobre sua negritude, o racismo e o papel da universidade no combate à discriminação. “Como primeiro reitor negro da UFMG, essa questão ganhou uma visibilidade que até então eu desconhecia”, afirmou o professor. Por um lado, ele disse ter percebido “certo estranhamento, principalmente externo à Universidade, em algumas vezes sugerido, noutras explicitado, de que eu estaria ocupando um lugar que não era meu; um lugar errado, inapropriado para um negro”. Por outro, acrescentou, houve reações muito positivas: “Fui abordado por pessoas negras e não negras que, ao me verem nas funções de reitor, expressavam sentimentos de admiração e orgulho. Diziam-me, principalmente as pessoas negras, que se sentiam bem, valorizadas, me vendo na TV, nas formaturas, em eventos públicos, como reitor da UFMG. Sem que eu falasse, o meu corpo, como se fosse um discurso, dizia: negros podem ocupar funções de relevo, de maior prestígio social”.

O professor revelou que essa condição (de reitor e negro) deu-lhe “maior consciência da discriminação racial pelo que ela tem de mais iníquo” – a própria situação social do negro, que é vítima da educação precária, trabalha em atividades menos prestigiadas socialmente e é alvo preferencial da violência social. “Essa discriminação, que parece ser um simples detalhe da organização da nossa sociedade, é assunto com o qual devem ocupar-se explicitamente as universidades públicas para muito além da boa execução das políticas de cotas que, diga-se de passagem, já melhoraram – e muito – a presença da juventude negra brasileira na educação superior no Brasil”, afirmou Tomaz, em outro momento em que foi muito aplaudido.

Inquietações
Para o novo emérito da UFMG, as universidades têm grande responsabilidade na condução dos rumos do país. “Cabe a elas formar uma nova mentalidade na juventude brasileira, de modo a se estabelecer uma convivência fraterna, de tolerância e respeito às diferenças”, conclamou o professor. Ele também defendeu que a universidade dê sua contribuição para superar “o sentimento de ódio que permeia o debate político nesse momento difícil do nosso país, evitando a cristalização de uma mentalidade fratricida em seus jovens”.

Encerrando seu pronunciamento, Tomaz falou de suas “inquietações” em relação ao futuro do Brasil e das novas gerações e voltou a evocar o papel da universidade, que deve assumir a tarefa de “compreender a inquietação da sociedade nesse contexto, acolhendo os jovens de hoje como fomos acolhidos pela sociedade de ontem em nossa vontade utópica de abraçar e mudar o mundo”.

Sem fazer um diagnóstico – “esse não é meu campo”, salientou –, Tomaz Aroldo afirmou que sua intuição diz que a universidade precisa chamar a si a reflexão sobre o mundo de hoje, sobre a juventude e seu futuro. “Que a universidade acolha o mundo e o reconstrua. Eu acredito nela”, concluiu.

Liderança
Em sua saudação, a professora Maria Elena de Perez Garcia [foto abaixo], do ICB, afirmou que Tomaz foi um grande líder na UFMG. “Ele exerceu com plenitude seu papel na Universidade”, afirmou a professora, pró-reitora adjunta de Pesquisa no período em que Tomaz dirigiu a UFMG. “Ali pude conhecer melhor esse homem público. Com ele, muito aprendi”, disse ela, que ilustrou esse aprendizado com o relato de uma conversa que teve com o então reitor logo no início de sua atuação na PRPq.

maria%20elena%20na%20sauda%E7%E3o.jpg “Disse ao professor Tomaz que temia que a administração interferisse no andamento de minhas pesquisas. E ele me respondeu: ‘Se nós pesquisadores não dedicarmos parte de nosso tempo à administração, quem poderá fazer melhor essa tarefa? Somos nós pesquisadores/professores quem melhor entende as necessidades e aspirações mais genuínas’”.

A diretora do ICB, Andréa Mara Macedo, disse que a homenagem ao professor Tomaz se “reveste de valor ainda mais relevante” por causa do cenário hostil à educação pública de qualidade, à universidade, à ciência, à cultura, à diversidade e aos direitos humanos. “Tomaz mantém compromisso intransigente com os princípios democráticos, de justiça e de igualdade de oportunidades”, elogiou a professora, que mantém uma convivência de 35 anos com o emérito. Ela revelou um conselho que recebeu do professor quando assumiu a direção da Unidade, sucedendo ao próprio Tomaz: “Faça uma gestão para todos e mantenha sempre o coração e as portas abertas para as pessoas”.

Merecimento
No encerramento da cerimônia, organizada pela Congregação do ICB, o reitor Jaime Ramírez recorreu ao filósofo Aristóteles para justificar a concessão do título de professor emérito a um docente de destacada atuação na Universidade como o professor Tomaz. “A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.” E acrescentou: “Emérito, pela etimologia latina da palavra, é aquele que ‘merece’ usufruir das honras do ofício pela contribuição prestada à instituição”.

Sobre a trajetória do homenageado, Jaime Ramírez lembrou que Tomaz Aroldo é referência na gestão acadêmica: “Ele cumpre papel importante na reflexão sobre a inclusão social e políticas afirmativas e é ferrenho defensor das políticas de igualdade social e racial”. E finalizou: “Este gesto [a outorga do título] sinaliza que a instituição lhe pede que continue presente em sua vida, nos ajudando a ensinar e a aprender, construindo assim uma sociedade cada vez mais relevante, justa e inclusiva, como você sonhou”.

Fonte: UFMG

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