Ex-professor da UnB é escolhido cardeal do Vaticano

Ex-professor da UnB é escolhido cardeal do Vaticano

Dom Damasceno passou 15 anos na Universidade e diz que sente saudades da instituição que o aproximou dos jovens

O anel que carrega na mão esquerda lembra Dom Damasceno dos tempos em que foi professor da UnB. O presente dos colegas do Departamento de Filosofia (FIL) marca os 15 anos em que lecionou na universidade. Nesta quarta-feira, 20 de outubro, Raymundo Damasceno Assis recebeu a notícia de que é um dos novos cardeais escolhidos pelo Papa Bento XVI. A joia que usa há quase 25 anos será substituída pelo anel que receberá das mãos do Pontíficie durante a cerimônia oficial de nomeação, em 20 de novembro.

De Roma, onde participa da Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos, Dom Damasceno falou à UnB Agência para contar como recebeu a ordenação. Pelo telefone, o professor aposentado pelo FIL em 1991, também relembrou dos tempos de UnB. “Notícia como essa a gente recebe sempre com muita emoção e com um certo temor pela responsabilidade que o cargo representa”, conta. “Cardeal é aquele que é chamado a colaborar mais de perto com o Papa no governo da Igreja”.

Atualmente, Dom Damasceno é arcebispo metropolitano de Aparecida, em São Paulo, e presidente do Conselho Episcopal Latinoamericano (Celan). Para o novo cardeal, a nomeação mostra a visibilidade da Igreja da América Latina e, especialmente, do Brasil. “Como Arcebispo de Aparecida, estou na cidade onde está a sede nacional da padroeira do Brasil e vejo a nomeação como uma manifestação do apreço do Santo Padre pelo país”.

TEMPOS DE UNB – Da época em que era professor de Filosofia na Universidade, o cardeal lembra-se do memorável episódio ocorrido em 1981, em que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, veio à instituição fazer uma palestra e saiu sob chuva de tomates e ovos jogados por estudantes. “Quase fui atingido”, relata. “A saída foi bastante tumultuada e o secretário teve de sair de camburão para não ser atingido”. Na época, o Brasil vivia sob a ditadura e o reitor da Universidade era o capitão de mar-e-guerra José Carlos Azevedo.

Dom Damasceno sente saudades dos anos em que foi professor na UnB. “De certa forma, a Universidade de Brasília sempre me acompanha porque foi um lugar onde fiquei muito tempo e vivi um período muito feliz”, diz. “O magistério nos coloca em contato com o jovem e isso nos obriga a ficar a par da atualidade, o que é muito bom”.

Os professores do FIL lembram do colega com deferência. Ubirajara Calmon Carvalho, já aposentado, conta que Dom Damasceno era bastante conciliador. “Não tinha posições radicais e era moderado”, relata. “Tinha abertura tal que fazia a conciliação entre posições ideológicas extremadas”. Ubirajara afirma ainda que o colega era adepto da ortodoxia católica sem ser conservador e que conseguia mediar os confrontos entre as diferentes ideologias políticas dos professores e alunos.

Nelson Gonçalves Gomes, professor do FIL, relembra a trajetória de Dom Damasceno na UnB, que foi contratado pelo então Departamento de Geografia e História (GEH) em 1976. “O GEH que reunia Geografia, História e Filosofia”, conta. “Ele dava aulas de Introdução à Metodologia Científica e Introdução à Filosofia”. Não havia curso de Filosofia na época e as disciplinas que Dom Damasceno lecionava eram oferecidas para a universidade inteira.

Em 1984 o curso de Filosofia foi criado no GHE, e o eclesiástico passou a assumir a disciplina de Estágio Supervisionado. Em 1986, mesmo ano de criação do Departamento de Filosofia, ele foi ordenado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília. Os poucos professores que faziam parte do FIL na época fizeram uma vaquinha para comprar o anel que Dom Damasceno usa até os dias de hoje. “Ele era muito querido no departamento”, diz Nelson. “Era competente como filósofo, bom colega, bom homem e muito profissional”.“O anel é uma lembrança que eu guardo com muito carinho e muita gratidão”, afirma Dom Damasceno, que usa a jóia diariamente. “Sempre lembro-me dos professores quando olho para ele”.

TEMPOS DE CNBB – O reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, teve a oportunidade de conviver com o eclesiástico entre 1987 e 2000, quando fazia parte de duas comissões organizadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Ele é fiel aos princípios que apoiavam os valores de cidadania e Direitos Humanos”, afirma o reitor, que também reconhece o papel mediador de Dom Damasceno e prepara uma mensagem para parabenizar o cardeal.

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