Faculdades pagam ONGs e igrejas para captar novos alunos

Faculdades pagam ONGs e igrejas para captar novos alunos

Intermediários buscam candidatos entre trabalhadores de menor renda e recebem até R$ 100 por matriculado

Escolas contam que futuro universitário poderá financiar 100% de seu estudo pelo Fies (programa federal)

Surgiu uma nova figura no meio universitário: o intermediário entre as faculdades privadas e os jovens trabalhadores de menor renda que se tornaram o principal público-alvo de algumas instituições.
Associações de moradores, líderes comunitários, ONGs e igrejas fazem parte da malha de captação de alunos. O fenômeno foi constatado pela Folha em bairros da periferia da Grande São Paulo.
As entidades intermediárias são remuneradas de duas formas: pelos alunos -que pagam uma taxa semestral ou anual para ter o nome incluído no cadastro para bolsas de estudo- e pelas faculdades, que chegam a pagar R$ 100 por matriculado.
As faculdades justificam a contratação da rede de intermediários dizendo que isso é mais eficiente e barato do que gastar com publicidade nas mídias convencionais.
Instituições de São Paulo como Uniban -recentemente adquirida pelo grupo Anhanguera-, Universidade de Guarulhos, UniRadial -ligada ao grupo Estácio de Sá-, Faculdade Sumaré e UniSant’Anna são algumas das que aderiram à prática.
Não há um padrão na contratação dos intermediários.
As faculdades mais agressivas recorrem a associações de moradores de comunidades carentes, contando que o futuro aluno poderá financiar 100% de seu estudo pelo Fies, do governo federal, ou por outras fontes de financiamento do governo de São Paulo ou privadas.
A Uniesp, por exemplo, contatou José Cecílio dos Santos, 43, presidente da associação de moradores do Jardim Boa Vista, na região administrativa do Butantã (zona oeste).
Neste ano, ele já encaminhou 200 candidatos para a faculdade, que remunerou a associação em R$ 100 por aluno matriculado. Além disso, a faculdade promete um notebook ao aluno que for aprovado no Fies.
Santos, que havia concluído o supletivo do ensino médio em 1998, matriculou-se em pedagogia e passou a divulgar a faculdade em outros bairros, como Freguesia do Ó, Vila Carrão e Itaquera. Hoje se apresenta como consultor de faculdades.
Outra liderança comunitária cooptada pela Uniesp foi Edna Loureiro, 54, do Jaraguá (zona norte). Auxiliar de enfermagem licenciada, hoje ela cursa pedagogia.
Edna indicou 160 alunos no ano passado, e mais 250 neste ano, mas diz que não recebeu pagamento por isso.

IGREJAS
Igrejas evangélicas e ONGs católicas também tornaram-se captadoras de alunos.
O Instituto Evangélico Pró-Educação anuncia convênios com quatro faculdades na capital: Sumaré, Mozarteum, Campos Elíseos e FMU.
Entre as ONGs, uma das pioneiras é a Educar para Vida, da Associação dos Trabalhadores Sem Terra, vinculada à Pastoral da Moradia e fundada pelo deputado estadual Marcos Zerbini (PSDB).
Ela é parceira de 18 faculdades, mas diz não ser remunerada por elas, apenas pelos alunos que encaminha para obtenção de bolsas de estudo, que lhe pagam uma taxa mensal de R$ 7.

Preço do ônibus já é desafio para alunos

Apesar do medo da dívida, estudantes melhoram autoestima e ganham perspectivas com ingresso na faculdade

Escolha do curso muitas vezes é feita menos por vocação e mais em razão da oportunidade e incentivo de associações

EM SÃO PAULO
Desempregada, a dona de casa Lindinalva Alves Araújo procurava emprego na creche em Morro Doce (bairro onde vive, zona norte de SP), quando a associação de moradores local lhe sugeriu entrar para a faculdade.
Ela se inscreveu no curso de pedagogia da Uniesp, no centro de São Paulo, contando que pagaria a faculdade com o financiamento do Fies.
A mensalidade é de R$ 632 e o valor do financiamento previsto para todo o curso, pelo crédito estudantil, chega a quase R$ 40 mil.
O aluno começa a pagar o crédito educativo um ano e meio após a conclusão do curso. No caso de Lindinalva, significará uma mensalidade de R$ 296 por 15 anos.
Um receio comum dos alunos ouvidos pela reportagem é não conseguir quitar o crédito educativo. A dívida é o que mais os assusta.
A reportagem encontrou alunos que declaram ter dificuldade até para pagar a passagem de ônibus. Alguns estudantes relataram ter faltado uma semana de aula por não poder pagar o ônibus, e sugeriram que o governo custeie as passagens.

AUTOESTIMA
Marília Rangel, mãe de dois filhos, moradora de Cidade Tiradentes (na zona leste, a cerca de 35 km do centro de SP), passou roupa para terceiros, em casa, para conseguir o dinheiro da passagem.
Mesmo assim, ela se mostra orgulhosa de estar na faculdade. A melhora da autoestima e a da capacidade de expressão são apontadas entre os benefícios imediatos de estar na faculdade.
Valdecir Batista, vendedor em um supermercado do grupo Pão de Açúcar, também cursa pedagogia e diz ter sido estimulado a entrar para a faculdade pelo empregador.
A Folha constatou que a escolha do curso, na maioria dos casos, é feita em razão da oportunidade, e não por vocação. Andressa Dias dos Santos, 28, parou os estudos após ficar grávida, em 2000.
Como auxiliar de licitações em uma empresa de distribuição de medicamentos, descobriu que não tinha vocação para trabalhar em escritório, mas não sabia o que fazer.
Estimulada pela associação de moradores de Bom Jardim (região do Butantã, zona oeste de SP), fez o teste para o curso de educação física e espera se qualificar para prestar um concurso público.
A amiga Luíza Campelo, 39, desempregada, se inscreveu no curso de enfermagem e também sonha em ser funcionária do Estado ou da Prefeitura de São Paulo.
O pai, Manoelito Santos, 58, mestre de obras, decidiu cursar música ou matemática, contando também com o acesso ao crédito educativo.
Eleitor de Lula, ele atribui ao ex-presidente o ingresso da população de baixa renda nas faculdades.

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