Farmácia e fitoterapia crescem na Amazônia, afirma José Carlos Tavares

Farmácia e fitoterapia crescem na Amazônia, afirma José Carlos Tavares

Reitor da Universidade Federal do Amapá destaca a importância das pesquisas na região

Para celebrar o Dia do Farmacêutico (20 de janeiro), o Globo Universidade entrevistou o professor e reitor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), José Carlos Tavares, que dedicou sua carreira aos estudos da Fitoterapia e da Farmácia. Graças às suas contribuições na área, o pesquisador ganhou, em 2007, o prêmio Farmacêutico do Ano, concedido pelo Conselho Federal de Farmácia da Secretária do Estado do Amapá.

Atualmente, José Carlos Tavares também acumula os cargos de vice-presidente da Associação das Universidades Amazônicas (UNAMAZ) e é membro da Comissão da Farmacopéia Brasileira, ligada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). A seguir, ele analisa as dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores e universidades localizadas na região amazônica e ressalta as conquistas realizadas ao longo dos anos.

Globo Universidade – O senhor se graduou em Farmácia, fez mestrado em Ciências Farmacêuticas, doutorado em Fármacos e Medicamentos e pós-doutorado na área de Fitoterapia. Quando decidiu escolher esta carreira e por quê? O que o motivou a seguir em frente com os estudos?
José Carlos Tavares – Bem, aos 10 anos de idade já pensava em ser cientista na área da saúde. Minha brincadeira favorita era misturar plantas que encontrava no quintal da minha casa. Foi assim que descobri o que significava a profissão farmacêutica. Entrando na UFPA [Universidade Federal do Pará], desde o 1º semestre de curso, comecei a pesquisar plantas medicinais. Vim de uma família muito humilde, que resolvia os problemas de saúde com uso de plantas. Era o que nós tínhamos de mais acessível e, assim, tornei-me um conhecedor do uso e aplicação de produtos a base de plantas o que me levou ao pós-doutorado na Alemanha.

GU – O que é Fitoterapia? Qualquer doença pode ser tratada com ela?
JCT – A Fitoterapia compreende a aplicação terapêutica de produtos à base de plantas, inclusive as medicinais. Os medicamentos fitoterápicos são fórmulas farmacêuticas que têm, como princípio ativo, produtos à base de plantas, como, por exemplo, um extrato bruto ou um extrato padronizado. Para se ter um uso racional de um produto fitoterápico, é necessário utilizar substâncias que passaram por comprovação cientifica e cujos efeitos, tanto benéficos quanto maléficos, foram descritos e testados. É importante ressaltar que os fitoterápicos não são isentos de efeitos colaterais. Para se ter uma resposta adequada, deve-se levar esta questão em consideração.

Quanto à sua aplicação no tratamento de doenças, a Fitoterapia em todo mundo é considerada uma terapia complementar, mas há fitoterápicos que podem ser aplicados como medicamentos de primeira opção, como, por exemplo, na obstipação intestinal, em que usamos os laxativos, e na insônia, em que há os fitoterápicos à base de valeriana e lupulus. A evolução dos estudos sobre a eficácia terapêutica dos fitoterápicos é muito grande e consolida a Fitoterapia no tratamento de algumas doenças.

GU – O que é a UNAMAZ e qual é a sua importância?
JCT – A UNAMAZ é uma instituição que congrega mais de oitenta universidades de oito países amazônicos e tem um papel fundamental no estreitamento das relações entre as universidades na busca de soluções para os problemas da região. Este órgão já atua de maneira muito forte em projetos multilaterais. Agora, estamos tentando consolidar programas de mobilidade acadêmica, principalmente de pós-graduação. Com a UNAMAZ, debatemos os temas da região que são de interesse internacional. Infelizmente, temos dificuldades de transporte e de acesso, visto que as distâncias são grandes, mas a UNAMAZ é uma realidade que precisa ser mais conhecida e reconhecida pelas universidades amazônicas, principalmente as brasileiras.

GU – Pode nos contar um pouco mais sobre suas aulas nos cursos de pós-graduação da Universidade Federal do Amapá?
JCT – Eu já atuei em todos os cursos de mestrado da UNIFAP, mas hoje estou ligado a apenas dois programas de mestrado e doutorado. Eu oriento dissertações e teses na área de farmacologia de novos medicamentos, principalmente de origem vegetal, e hoje estou avançando no tema de nanotecnologia aplicada a fármacos, principalmente com princípios ativos de origem vegetal. As disciplinas que ministro na pós estão voltadas para esses estudos. São disciplinas pesadas, com leituras de muitos artigos em todos os idiomas, menos em português. Penso que nós, orientadores, temos que fazer com que os pós-graduandos saiam com capacidade de criar uma linha de pesquisa ou levar em frente seus estudos , sendo assim, não tem outra forma, senão cobrar muito.

GU – Como o senhor chegou ao cargo de reitor da UNIFAP? Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas ao longo desses anos?
JCT – Essa é uma grande história. Fui eleito reitor com 6 meses na UNIFAP. Depois de vinte e quatro anos fora de Macapá, e após voltar do pós-doutorado na Alemanha, resolvi ministrar um concurso na UNIFAP. Fui aprovado e tomei posse em setembro de 2005, e logo em dezembro do mesmo ano, assumi a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, o que fez com que a comunidade acadêmica me conhecesse. Mas o que me motivou a concorrer na eleição de 2006 foi a vontade de transformar a UNIFAP em uma Universidade, pois, até então, não possuía essa característica. Não existia nenhum curso de mestrado, muito menos de doutorado, e a pesquisa era raríssima, não tínhamos nem programa de iniciação cientifica. As maiores dificuldades encontradas após assumir em 2006 foram mudar a gestão existente e, lógico, lidar com a falta de infraestrutura para a implantação do tripé ensino, pesquisa e extensão. Hoje, a UNIFAP tem outra cara. Os investimentos cresceram em mais de 600%, temos novos cursos de graduação e estamos resolvendo os problemas dos cursos mais antigos. Vejo a UNIFAP com outros olhos e sei que ainda vai crescer muito mais.

GU – Em 2007, o senhor ganhou o prêmio Farmacêutico do Ano, dado pelo Conselho Federal de Farmácia da Secretária do Estado do Amapá. Em sua opinião, a que se deve este prêmio e que dicas o senhor daria para os estudantes que desejam se tornar futuros farmacêuticos?
JCT – Esse prêmio representa o reconhecimento da classe a um farmacêutico que procura se inserir nos grandes temas da profissão. Um profissional, se é realizado, defende a profissão em todos os níveis, e o profissional farmacêutico é importante para todo o Brasil, mas para a Amazônia é muito mais. E aos estudantes eu digo: se dediquem a vossas formações e aproveitem todas as oportunidades. Hoje é mais fácil conseguir uma boa graduação e a região norte do país precisa de profissionais bem formados para enfrentar os grandes desafios inerentes a essa grande área de pesquisa.

GU
– Qual é a função da Comissão da Farmacopéia Brasileira e quais são suas atribuições nessa entidade?
JCT – A Farmacopéia Brasileira é o principal instrumento para obtenção de medicamentos e correlatos de qualidade e seguros. É uma honra fazer parte da Farmacopéia, pois além de colaborarmos, aprendemos muito. Lá, eu coordeno o Comitê voltado para a Fitoterapia e plantas medicinais. Em dezembro de 2011, lançamos o Formulário Brasileiro de Fitoterapia, que é um grande instrumento para orientar as práticas de manipulação dos medicamentos fitoterápicos. No decorrer de 2012, lançaremos uma orientação para os profissionais que prescrevem fitoterápicos. Enfim, a Farmacopéia Brasileira tem crescido, e com isso precisamos nos dedicar às suas atividades cada vez mais.

Para saber mais, visite:
Farmacopéia Brasileira: http://www.anvisa.gov.br/hotsite/cd_farmacopeia/index.htm
Unamaz: http://www.unamaz.org
Unifap: www.unifap.br

Dia do Farmacêutico
O exercício da profissão farmacêutica foi regulamentado no Brasil no governo do presidente Juscelino Kubitschek, com base na lei 3.820, assinada em 11 de novembro de 1960. A atividade profissional farmacêutica se encontra sob jurisdição do Conselho Federal de Farmácia (CFF). O dia 20 de janeiro foi escolhido em homenagem ao dia da fundação da Associação Brasileira de Farmacêuticos (ABF), uma das mais antigas associações profissionais em atividade no país que data de 1916.

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