Helena Nader fala sobre as perspectivas e os avanços na relação entre a ciência e a sociedade brasileira

Helena Nader fala sobre as perspectivas e os avanços na relação entre a ciência e a sociedade brasileira

A presidente da SBPC, Helena Nader, concedeu entrevista à revista “Ciência para Todos”, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), na qual faz um balanço das ações científicas no Brasil e naquela região. A entrevista foi concedida durante a 64ª Reunião Anual da SBPC, realizada em julho do ano passado em São Luís, mas só foi publicada recentemente.

“Não podemos continuar pensando a Amazônia como um potencial, ela precisa ser uma realidade”

A afirmação é da presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, à revista Ciência para Todos ao fazer o balanço da 64ª da  Reunião Anual da SBPC que ocorreu em São Luis (MA). A entidade promove uma reunião com o objetivo de envolver a sociedade nos debates dos rumos da ciência no país. A 64ª reunião ocorrida em 2012 trouxe o tema “Ciência, Cultura e Saberes Tradicionais para Enfrentar a Pobreza”. Após o encontro, Nader fez um balanço das ações científicas no Brasil e na Amazônia. Dentre os principais pontos destacados pela presidente da SBPC está a fixação de mão-de-obra qualificada na Amazônia e melhorias na educação básica.

Ciência para Todos: Na sua opinião, o que falta para a sociedade brasileira se interessar mais por assuntos sobre meio ambiente?

Helena Nader: O que falta na sociedade brasileira é acreditar que é ela é quem vai mudar as coisas (e não o governo, e lá no Rio de Janeiro, eu vi um exemplo, um trabalho que começou na Rio 92, e 20 anos depois eles estavam apresentando resultados incríveis na mata atlântica, mostrando que as diferentes técnicas e saberes tradicionais estão restaurando a floresta. Na nossa cultura, estamos acostumados a esperar o governo fazer pela gente, isso vem de anos atrás, até os cidadãos mais letrados se comportam dessa forma. Precisamos ter outra atitude em relação à vida, acreditar que dá pra fazer tal coisa.

CT: Os que não têm acesso à ciência no Brasil podem ter um futuro promissor?

HN: Eu vejo um grande futuro, primeiro porque mesmo sem a escolaridade necessária, a inteligência do nosso povo é muito grande. Onde você ver pessoas sem nenhuma escolaridade formal, o número de atividades que eles conseguem desempenhar é grande, isso porque temos uma genética e um saber tradicional que o qualifica de forma impecável. A ciência, hoje, tem que ser multidisciplinar e transdisciplinar. É preciso ter um conjunto que se autossuporta, e não indivíduos dispersos.

CT: Como visualiza a falta de recursos humanos num bioma tão grande como a Amazônia?

HN: Acredito que a região amazônica é um potencial gigantesco, mas não podemos continuar pensando na Amazônia como um potencial, ela precisa ser uma realidade, e para isso temos que deixar de fazer aquele velho discurso, porque para onde você vai as pessoas falam, o governo fala. Nós pesquisadores falamos sobre a biodiversidade que é inimaginável, que nós temos 25% de toda biodiversidade, enfim. Não adianta nada, ter e não conhecer. Para conhecer temos que trabalhar, para trabalhar temos que ter pessoas especializadas. A SBPC e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) estão de acordo que é necessário um programa do estado brasileiro, pois se for programa de governo, assim que um governo acabar, o próximo não dará continuidade, pois criará o programa dele, do governo dele.  Então, a solução seria o estado brasileiro formular projeto de dez a 15 anos para ser aplicado na Amazônia, e daí trazer pessoas qualificadas de onde for necessário para trabalhar, e entender nossa biodiversidade.

Agora estamos formando muitos doutores, é impressionante o número, mas não estamos dando conta porque a demanda é muito grande, então temos que ser criativos. E não precisam ser apenas doutores, mas também em nível tecnólogo. Lembro sempre do que o Adalberto Val (diretor do Inpa) diz sobre a perda do indivíduo que faz realmente a sistemática (classificação dos seres vivos segundo um sistema) e esse pessoal é fundamental para conhecermos de fato a região amazônica.

CT: Em sua opinião, como atrair cientistas para trabalhar na Amazônia?

HN: Um grande atrativo seria o salário, tem que colocar um bom salário, porque para quem está no sul, sudeste e centro-oeste, mudar para a Amazônia não é trivial, pois sejamos francos, os custos são altos, e as condições não são triviais. Pude conhecer melhor a região norte quando fui para SBPC em Manaus, e os acho verdadeiros heróis, falo isso sempre, porque a região possui uma internet que funciona a manivela, o calor e a umidade não são triviais. Por isso, os programas têm que oferecer bônus para os indivíduos, você não vai querer que ele tenha apenas ônus.

CT: De que maneira o tema da 64° SBPC, “Ciência, Cultura e Saberes Tradicionais para Enfrentar a Pobreza”, coube ao Estado do Maranhão?

HN: O título da reunião envolve “ciência”, pois claro, somos a sociedade para o progresso da ciência; “cultura”, como você colocou, esse estado é muito rico em sua cultura; e “saberes tradicionais” para enfrentar a pobreza. São assuntos vastos que poderiam ser discutidos durante o ano todo no Maranhão. E realmente gostaria de ver acontecer para que pudéssemos aprofundar algumas discussões, gerar alguns documentos e levar isso para nossa diretoria como uma proposta para o Estado. Os diferentes biomas que existem nesse Estado são impressionantes.No maranhão você pode abordar, problemas de águas, águas inundadas ou manguezais, todos os problemas costeiros comuns a este país, características da Amazônia, Cerrado, e também o problema da urbanização que é comum em todo nosso país.

CT: “Saberes tradicionais” estão muito presentes na cultura do Maranhão. A SBPC sempre se preocupou em abordar este assunto?

HN: Sim, claro. “Saberes tradicionais” sempre foi um assunto presente na SBPC, não com esse título, mas grupos da antropologia que vinham trazendo essas discussões nas outras reuniões, e também pesquisadores da área biológica, por meio do enfoque da biodiversidade. Mas nesta reunião, em várias das sessões, além dos cientistas, pesquisadores e professores que estudam os temas trouxeram informações valiosas para os participantes.

Nós temos que preservar os saberes tradicionais, e temos que proteger, é o que tenho insistido nas entrevistas. O saber tradicional é patrimônio cultural brasileiro, além do cultural, é um patrimônio que pode, em algumas situações, gerar algum tipo de riqueza econômica, e se você não protege isso, vai se perdendo no tempo, de geração a geração.

CT: Já é possível fazer um balanço do Programa Ciência sem Fronteira?

HT: A demanda do Programa Ciência sem Fronteira foi impressionante, o números de estudantes que se inscreveram foi fantástico. Mas hoje, nós temos um gargalo na nossa escolaridade, nossos estudantes não têm domínio de outra língua, e a segunda língua hoje no mundo científico é o inglês, então isso foi um alerta para os estudantes interessados. Os que foram estão se saindo bem, mas o que queremos é que esse estudante consiga passar as informações valiosas que aprendeu no exterior. Nós da SBPC, somos totalmente a favor de qualquer programa que propague a educação. Queremos dar condições necessárias para esses jovens transferirem tudo o que eles aprenderam e devolvam ao seu país a educação que lhe foi proporcionada.

CT: Qual sua avaliação sobre a Rio +20?

HN: Para mim a Rio +20 foi uma grande decepção, mas pode ser que eu esteja errada. Vou deixar claro que quem esta falando é a Helena, cidadã brasileira, e não a presidente da SBPC. O que eu vi de positivo foi uma discussão na Pontifícia Universidade Católica (PUC) , que ocorreu dias antes do evento oficial “Ciência para desenvolvimento sustentável Global”, foi uma discussão interessante, cientistas colocaram suas propostas, umas antigas outras mais modernas. Foi uma conversa entre nós cientistas e não dos gestores. Então, entre nós tivemos troca de informações sobre as mudanças climáticas e outros assuntos relevantes, mas isto é um congresso científico, isso não é Rio +20.

CT: Qual foi o ponto mais relevante da Rio +20?

HN: Para mim o que realmente valeu à pena foi a popularização da ciência. O armazém do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), onde nós da SBPC trabalhamos junto tivemos uma série de atividades com crianças envolvendo ciência, uma série de palestras e um dos destaques foi o parque os atletas.

CT: O que o governo brasileiro poderia fazer para efetivar o desenvolvimento da região amazônica?

HN: O Brasil poderia seguir o exemplo de alguns dos países de primeiro mundo,que têm uma política de Estado de verdade, pois quando você vê o financiamento do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, percebe que ele só cresce, ele não tem baixas porque os americanos cobram dos seus legisladores. O Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, em meio à crise, aumentou os investimentos no que era necessário. A China também aumentou seus investimentos. Então, ou o Brasil segue esse exemplo, dos países de primeiro mundo, ou vamos ter que ver a Amazônia ser estudada por estrangeiros, e é o que está acontecendo. Agora eles não podem dizer, que nós cientistas e professores, não alertamos.

Helena Bonciani Nader

Helena Nader é presidente da SBPC e professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Tem experiência na área de bioquímica, com ênfase em química de macromoléculas, atuando principalmente nos seguintes temas: antitrombótico, glicosaminoglicanos, heparina, Hunter/Hurler,  mucopolissacaridose e heparitinases.

Possui graduação em biologia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1971, graduação em ciências biológicas modalidade médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 1970 e doutorado em ciências biológicas (biologia molecular) pela mesma em 1974 e pós-doutorado pela Universidade do Sul da Califórnia (1977), nos Estados Unidos.

Nader é membro titular da Academia de Ciências de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), classes comendador e Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, e professora honoris causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Fernanda Farias / Ciência para Todos

 

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