Longe das agendas de campanha

Longe das agendas de campanha

Programas de governo de candidatos à Presidência dão pouco espaço para ações contra o analfabetismo. Educadores questionam sistemas adotados nas administrações públicas

O analfabetismo só entrou na pauta das eleições quando o letramento do palhaço Tiririca (PR-SP) foi posto em xeque. Segundo levantamento do site Observatório das Eleições, formado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o tema só foi citado pelos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) cinco vezes no segundo turno, mas apenas uma não se referia à possibilidade de os dois adversários incluírem em seus projetos a meta da candidata derrotada Marina Silva (PV) de erradicar o analfabetismo entre brasileiros de 15 a 30 anos em 2014. Como cortejo aos eleitores dela, ambos concordaram em cumprir a meta. No entanto, em nenhuma oportunidade explicaram como conseguiriam cumprir a promessa. Os dois candidatos foram procurados pelo Estado de Minas na semana passada para comentar suas propostas para combater o analfabetismo. Enquanto Dilma, por meio de assessoria, informou que avançaria nos programas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o tucano, também por assessores, apresentou seu projeto para educação, sem tratar diretamente do tema. Em nota, a ex-ministra afirmou que, se eleita, continuaria o  projeto do atual governo na área. “É seguir esse caminho para alfabetizar e possibilitar o acesso aos estudos a adultos que não tiveram essa oportunidade, um direito consagrado na Constituição”, informa o texto.

O documento registra ainda que Dilma consolidaria a política de educação para jovens e adultos de Lula, mobilizaria a população para erradicar o problema, expandiria o acesso à escola – criando turmas noturnas –, ampliaria apoio a secretarias e fortaleceria o Programa Brasil Alfabetizado (PBA). Em seu oitavo ano, o PBA gastou R$ 2 bilhões e matriculou milhões de alunos. Mas, no mesmo período, o índice de analfabetismo caiu apenas 0,3 ponto percentual, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Já a assessoria de José Serra informou que os projetos de educação do candidato estão disponíveis na internet. Sobre alfabetização, o site só apresenta a proposta do tucano para o ensino infantil. Ele se compromete a pôr duas professoras em turmas de letramento. Já a educação para jovens e adultos é ignorada. Questionada sobre a ausência de proposta, a assessoria do candidato informou que “os últimos dias de campanha estão atribulados e não havia tempo para elaborar uma resposta”.

EMPENHO – Para o senador Cristóvam Buarque (PDT), ex-ministro da Educação no governo Lula, falta comprometimento aos gestores. “A verdade é que acabar com o analfabetismo não garante voto a ninguém. Assim, os candidatos prometem o que atrai mais os eleitores. Quando eleitos, não se preocupam a convocar a população a resolver o problema”, afirma. Para ele, os únicos projetos sérios sobre o tema foram o do educador pernambucano Paulo Freire, em 1964, no governo de João Goulart, e o início do Brasil Alfabetizado, quando estava à frente do ministério. “No começo, a proposta era erradicar o analfabetismo, depois se tornou um programa de alfabetização, o que não é a mesma coisa”, comenta. A alfabetizadora da rede municipal de ensino de Belo Horizonte Emilce Maria Soares destaca que o direito à educação a jovens e adultos que não a tiveram no tempo correto foi garantido pela Constituição de 1988, mas ainda não deixou de vez o papel. “A lei garante, mas a verdade é que o direito ainda não é plenamente respeitado. Mais do que alfabetização, é necessário formar conhecimento”, diz.

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