Mais representatividade feminina no mundo acadêmico

Uma das notícias mais interessantes para a academia neste mês foi a de que o Brasil é o país com mais igualdade de gênero na ciência. Segundo a pesquisa Gender in the Global Research Landscape, realizada em 12 países pela editora Elsevier, entre os anos de 2011 e 2015, as brasileiras foram responsáveis por 49% dos artigos científicos produzidos no país. Trata-se de um resultado animador, que nos coloca à frente de potências como Estados Unidos, Canadá e União Europeia — pelo menos, nesse quesito.

Embora tenhamos avançado nessa área, a representatividade feminina precisa crescer mais quando o assunto são os cargos de chefia e liderança, inclusive, em ambiente acadêmico. Um levantamento do ano passado, do site UOL, dava conta de que as mulheres estavam à frente de apenas um terço das instituições federais de ensino superior. Na Universidade de Brasília (UnB), as unidades acadêmicas repetem esse padrão. Dos 26 institutos e faculdades, apenas sete são chefiados por mulheres – o que corresponde a 27%.

Diante disso, a minha responsabilidade como primeira reitora da UnB é ainda maior, principalmente quando levamos em conta o principal público-alvo da instituição: os estudantes de graduação. Somente no primeiro semestre deste ano, a UnB recebeu 4.509 novos alunos, dos quais 2.109 são mulheres. Globalmente, elas são maioria: 19.164 dentre os 38.022 estudantes de graduação, o que representa pouco mais de 50%. Quando essas jovens observam que há mulheres professoras, pesquisadoras e gestoras à frente de projetos e iniciativas de excelência, elas se sentem estimuladas a chegar aonde quiserem e encorajadas a perseguir seus sonhos.

Sabemos que há situações de preconceito e discriminação contra as mulheres, mesmo dentro das instituições de ensino. Vivemos em uma sociedade em que, muitas vezes, nós somos vistas como incapazes, ineficientes ou mesmo sensíveis demais. Essas noções estereotipadas, infelizmente, acabam se repetindo em ambiente acadêmico. Nesse sentido, é papel da universidade discutir esses padrões, promover o intercâmbio de ideias, as reflexões e, consequentemente, a transformação social.

Pensando justamente nessa provocação, convidamos a professora Debora Diniz, da Faculdade de Direito da UnB, para proferir a aula magna de abertura do semestre no início deste mês. Debora é uma das principais porta-vozes da defesa dos direitos reprodutivos das mulheres no Brasil e foi eleita uma das 100 pensadoras globais do ano passado pela revista Foreing Policy. Na palestra, ela provocou os calouros a se questionarem constantemente sobre as próprias convicções. “Ao menos uma vez por semestre, elejam alguma coisa que os provocou. Façam perguntas sobre quem são vocês em uma universidade pública, em um país repleto de questões sociais, e levem essas inspirações para toda a vida”, disse ela.

Nós, da gestão da UnB, abraçamos essa proposta, pois sabemos que, além de formar bons profissionais para o mercado de trabalho, é nossa missão formar cidadãos. Uma universidade que não se compromete com a redução das desigualdades e das mazelas sociais, ou mesmo com a conservação ambiental, subestima a sua razão de existir, não importa o quão bem avaliada esteja em rankings de ensino e pesquisa. No final das contas, nosso trabalho é contribuir para que a sociedade avance em todos os aspectos.

Nessa linha, vamos promover, em 29 e 30 de março, um seminário que vai discutir a segurança da universidade, com especial atenção às questões de gênero. Batizado de Segurança se faz em comunidade e com respeito à diversidade, o encontro reunirá especialistas para a construção de um entendimento coletivo sobre o assunto. O resultado do evento vai nos ajudar a estabelecer diretrizes para uma política institucional e integrada para a segurança na UnB. A comunidade de Brasília está convidada a participar; os interessados podem fazer a inscrição (gratuita) no site dex.unb.br/segurancaediversidade.

O seminário faz parte de uma série de discussões sobre temas da atualidade que já iniciamos na UnB e que pretendemos repetir, periodicamente. A universidade assume para si o papel de protagonista dos grandes debates e conta com os brasilienses para fazer a diferença.Participem, proponham, enfim, nos provoquem, porque, afinal, o resultado é de todos nós.

* Márcia Abrahão Moura, reitora da Universidade de Brasília (UnB)

Fonte: Correio Braziliense

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