MEC falhou no acompanhamento do Enem

MEC falhou no acompanhamento do Enem

Além de não fiscalizar segurança, Inep autorizou capa personalizada que obrigou consórcio a manusear provas na gráfica

BRASÍLIA. Apesar de responsabilizar pelo vazamento apenas o consórcio contratado para a aplicação do Enem, o Ministério da Educação também falhou ao acompanhar a impressão e distribuição da prova. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo contrato, não fiscalizou a segurança, aprovou a escolha da gráfica, que hoje é criticada, e autorizou o manuseio desnecessário de provas que deveriam estar lacradas.

O Inep, subordinado ao MEC, esteve diretamente envolvido num episódio que pode ter contribuído para a violação da prova na fase de distribuição: para corrigir erros nas inscrições sem causar atrasos, houve um improviso e foi desmontado o plano de segurança. Com isso, o exame ficou exposto a fraudes.

Discretamente, uma sindicância interna foi instaurada no Inep para investigar a responsabilidade de funcionários. A Controladoria Geral da União (CGU) vai acompanhar a apuração. O Tribunal de Contas da União (TCU) também instaurou auditoria.

Mas o pedido de ressarcimento ao consórcio Connasel pelo prejuízo de R$ 35 milhões pode estar comprometido. Isso porque o contrato diz que todas as etapas devem ser fiscalizadas e aprovadas pelo Inep. O órgão pode acabar sendo considerado corresponsável pelas falhas.

A falha que criou a maior fragilidade da logística do Enem foi a decisão — adotada pelo Connasel e avalizada pelo Inep — de grampear uma capa personalizada nos cadernos de prova para cada inscrito. Ninguém sabe explicar o propósito. O Inep diz apenas que “sempre foi assim”.

— Isso foi decisão da empresa e não há problema contratual.

Não caracteriza falta de segurança — disse Heliton Tavares, diretor de Avaliação da Educação Básica no Inep e responsável direto pelo Enem.

Ele não explicou para que serve a capa personalizada, mas disse que a prática deve ser repetida na prova de dezembro.

Ao individualizar cada cópia do exame, a empresa organizadora é obrigada a criar um “centro de distribuição” para abrir e reorganizar lotes de exames já tinham sido impressos, grampeados e lacrados na gráfica, sem qualquer interferência manual.

Conjuntos de provas idênticas precisam ser separadas por cidade, escola e sala de aula. Depois, são novamente lacradas.

Esse detalhe causou um desastre quando o Inep precisou corrigir, dias antes da prova, a inscrição de cerca de 30 mil alunos, e mudar os endereços onde eles fariam o exame. O problema mais grave ocorreu em São Paulo, onde alunos teriam que fazer a prova em pontos distantes de suas residências. A rearrumação das provas de São Paulo criou um gargalo logístico.

— O consórcio pediu para usar a área de estoque para o manusear provas. A Plural cedeu a área, desde que o consórcio garantisse a segurança do trabalho. Eles tiveram um problema de logística — diz Carlos Jacomine, diretor da Plural

Teste original é considerado à prova de fraudes
Estudantes brasileiros elogiam eficácia do tradicional exame de seleção para instituições dos EUA, que inspirou o novo Enem

BRASÍLIA. Distante do nervosismo de milhões de alunos e da polêmica que questiona a segurança e credibilidade sobre o novo Enem, cerca de 75 estudantes se prepararam para fazer ontem em Brasília o SAT (Standardized Achievement Test), prova americana de leitura e matemática que inspirou o Ministério da Educação a criar uma versão brasileira. A prova, baliza de capacidade lógica e raciocínio aplicada quatro vezes por ano em todo o mundo, usa precauções simplificadas para evitar a cola, como ordem invertida das questões nos lotes de exames de uma mesma sala.

Os inscritos garantem: não há conteúdo para decorar, o único preparo possível é treinar. O desempenho no SAT é um dos critérios utilizados pelas universidades americanas para selecionar seus alunos dentro e fora dos Estados Unidos.

Em Brasília, a prova é administrada pela Escola Americana. O lote lacrado chega por encomenda privada, a UPS. Fica em uma sala de acesso restrito, e só pode ser aberta na sala e hora da prova. Não há paranoia de que as escolas venham a participar de uma fraude para beneficiar seus alunos. Todos os envolvidos se fiscalizam, e o College Board, associação sem fins lucrativos que gerencia o exame, está atento até para desvios estatísticos nos resultados de alunos individuais e das escolas.

Três alunos da Escola Americana descreveram o que consideram ser a vantagem do SAT sobre o vestibular brasileiro.

— É um teste da sua capacidade de pensar.

Não tem conteúdo específico, não tem decoreba — disse Antonio Farias, de 17.

Seu colega de turma, Gabriel Granjeiro, também de 17, concorda: — A inteligência não pode ser medida.

Talvez esse teste não seja ideal, mas é melhor que um vestibular, que é decoreba.

Para cada região, uma prova

BRASÍLIA. Há provas diferentes para regiões no mundo, para compensar o fuso e a possibilidade de fraude internacional.

As regras de conduta são severas: alunos são proibidos de discutir as questões mesmo após o exame — se forem pegos até num debate inocente sobre qual seria a resposta podem ter a prova anulada.

Se um monitor errar no cronômetro, todo mundo na sala pode ter o teste cancelado.

A fiscalização permite que alunos façam denúncias.

O aluno só entra com lápis e borracha e a ida ao banheiro é monitorada.

— A importância da prova criou uma espécie de contrato social onde todos sabem que muito está em jogo.

Se a integridade ou validade for questionada, coloca na berlinda o interesse de todos — disse o diretor da escola, Craig Johnson.

Acusado de vazar o Enem culpa a segurança

SÃO PAULO.Vigilância zero. Assim Felipe Pradella, 32 anos, indiciado na PF como autor do roubo das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) da Gráfica Plural, em São Paulo, classifica o esquema de segurança de proteção do material.

Segundo ele, “um monte de gente” tinha acesso às provas. Em entrevista à revista “Época”, Pradella diz que seu objetivo foi denunciar a fraude, ganhar mérito e algum dinheiro.

— Ajudei os alunos. Se (a denúncia de vazamento) fosse depois da prova, do que ia adiantar? Mas não foi este o mérito que ganhei. Saiu o contrário — disse Pradella.

Corretor de imóveis, ele foi contratado para conferir e embalar o material impresso. Agora, Pradella garante que quem pegou as provas foi seu parceiro de conferência, Felipe Ribeiro, que lhe teria passado os papéis em 23 ou 24 de setembro.

— Trinta ou 40 pessoas tinham essa função (conferente).

Todo mundo tinha acesso às provas. A gente não tinha um local específico para ficar e trabalhar.

Só na impressão, a gente nem passava perto.

Ele contou que, embora a segurança não permitisse a entrada com bolsa ou celular, ninguém o revistava ou vigiava.

— Eu entrava com celular, falava com a namorada. Tinha pessoas que não sei se eram da Polícia Federal ou Civil. Eram cinco que trocavam de turno, ficavam olhando se alguém mexia nas provas

Leila Suwwan – O Globo, 11/10

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