Mesmo com bônus na UFF, aluno da rede pública recorre a cursinho

Com exclusão de estudantes de colégios privados da disputa via Sisu, quem fez curso preparatório conquistou vaga para Medicina

Natural de Reserva, cidade do interior do Paraná, Calliana Lopata, de 20 anos, cursou os ensinos fundamental e médio em escolas públicas e tentava passar no vestibular de Medicina havia três anos. Em 2012, a espera chegou ao fim. Calliana está entre os candidatos que passaram para a Universidade Federal Fluminense (UFF) através do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) – que preenche vagas de acordo com o desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para entrar na instituição, recebeu uma ajuda e tanto: um bônus de 20% na nota para alunos da rede pública. O benefício, no entanto, não foi o único fator determinante para o sucesso. Assim como outros alunos selecionados entrevistados pelo iG, Calliana fez cursinho para repor conteúdos que não aprendeu no ensino médio.

Com o objetivo de “democratizar o acesso à UFF”, a instituição concedeu 20% de suas vagas pelo Sisu e deu um bônus de 20% na nota para aqueles que estudaram em instituições públicas, “excluídas as escolas federais, de aplicação ou militares”. O bônus, que excluía da disputa alunos de escolas privadas, gerou polêmica. Por causa dele, a nota de corte para a 1ª chamada para Medicina na UFF foi de 913,13, impossível de alcançar sem os 20%. De acordo com o MEC, a pontuação mais alta que um candidato poderia ter no Enem era 881,76.

O resultado foi que a grande maioria das 36 vagas oferecidas pelo Sisu foi preenchida por estudantes de escolas públicas. Nem por isso, eles deixaram de estudar muito e contar cursos pré-vestibulares particulares durante o período de preparação.

“Estava tentando pela terceira vez pelo Sisu, mas minha nota nunca dava para Medicina. Cheguei a passar nos outros anos para Engenharia Química, na UFTPR, e Engenharia da Computação, na Unipampa, mas não era o que eu queria”, relembra Calliana.

Para se preparar para o vestibular, a jovem enfrentou como muitos uma maratona de estudos com apoio de um cursinho. Segundo ela, as aulas foram fundamentais porque apenas o conhecimento adquirido no colégio estadual de sua cidade, onde fez o ensino médio, não teria sido suficiente. No primeiro ano, por exemplo, ela não teve aula de química.

“Não tinha base pela escola. Entrei no cursinho sem saber dividir fração! Nas minhas redações, a professora escrevia mais do que eu de tanto erro de português que tinha. Algumas aulas cobriram tudo o que tinha aprendido no ensino médio”, diz. “Hoje me sinto preparada para cursar a faculdade porque consegui uma boa base de química e biologia no cursinho. Sem ele, não teria condições de acompanhar a faculdade de Medicina”, avalia.

A colega Mariana Cunha, de 19 anos, também beneficiada pelo bônus, concorda. Para passar no vestibular de Medicina, jovem estudava de segunda-feira a sábado, das 7h às 22h40. “Só parava aos domingos, quando ia à igreja”, conta. Em Belo Horizonte, ela estudava na Escola Estadual Ordem e Progresso, da Polícia Civil. A instituição é tradicional na capital mineira e os alunos são selecionados por provas. Mesmo com o ensino mais reforçado, Mariana fez curso pré-vestibular.
“É quase impossível conseguir uma vaga em uma universidade pública estudando em escola pública e sem fazer cursinho. Nele você aprende macetes que vão te ajudar a vencer a barreira do tempo no Enem. O exame é uma prova de resistência. São muitas questões para pouco tempo”, avalia.

Além do cursinho e do ensino reforçado no colégio, a jovem ainda fez um período do curso de Terapia Ocupacional na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais através do Programa Universidade para Todos (Prouni). Nele, aprendeu noções de citologia, anatomia e bioquímica. “Foram conhecimentos importantes para o vestibular e a faculdade. Além da UFF, não passei na UFMG por oito décimos. Pode ser que ainda passe na reclassificação”.

Bônus é justo
Maria Angélica Martins, de 20 anos, também estava tentando o vestibular de Medicina havia três anos quando passou para a UFF com o bônus. Natural de Divinópolis, interior de Minas Gerais, a jovem usou o Sisu nos anos anteriores na UFOP, UFU e Universidade Federal de Viçosa, mas a nota alcançada não foi suficiente. Nesse período, assim como Calliana, chegou a passar para Engenharia, mas, Medicina, não.
Para a mineira, o benefício dado pela UFF aos alunos oriundos da rede pública é justo.

“O bônus é coeso porque o ensino em escola pública não tem comparação. Eu não sabia nada de Química e Biologia. O que sei, aprendi no cursinho que fiz. Alguns colegas de classe na UFF que passaram pelo vestibular tradicional estudaram em escolas com mensalidades de R$ 2 mil. Não tenho condições para pagar esse valor”, conta ela, que pagava R$ 200 em seu curso. “Pode ser que eu esteja defasada em algum conteúdo, mas, se a pessoa tem força de vontade e corre atrás, isso não é barreira”, completa.

O bônus para estudante de escola pública estadual ou municipal vem sendo adotado há 5 anos pela UFF. Segundo a instituição, a bonificação aumentou consideravelmente a democratização no acesso à universidade, em particular nos cursos mais concorridos, e continuará sendo adotado. Neste ano, a UFF vai selecionar todos os alunos via Sisu, mas o percentual de bonificação poderá ser alterado dependendo dos estudos que estão sendo desenvolvidos no momento.

Exceção
Nem todos que ingressaram no curso de Medicina na UFF em 2012 pelo Sisu vieram da rede pública de ensino. O brasiliense Lucas Rabelo, de 19 anos, é uma exceção. Ele alcançou 754 pontos no Enem e, como estudava em um colégio particular, não teve bônus de 20%. O rapaz, no entanto, só passou na terceira reclassificação. Geralmente na segunda e terceira chamada e na lista de espera as notas de corte exigidas costumam cair.

“O ideal era reservar algumas vagas para cotas e, não, dar 20% para todos. O Enem não é uma prova tão difícil assim, a ponto de dar 20% de bônus. Mas não me senti prejudicado com isso. O importante foi que eu passei”, finalizou, satisfeito.