O Brasil fez Malthus errar, artigo do reitor Luiz Cláudio Costa

O Brasil fez Malthus errar, artigo do reitor Luiz Cláudio Costa

"País, responsável pelo desenvolvimento da ciência da agricultura tropical no mundo, foi fundamental para o erro das previsões do economista"
 
Durante muitos anos, a previsão feita por Thomas Robert Malthus em 1798 norteou o combate à fome no mundo. Ele previa que, devido ao rápido crescimento da população e ao lento aumento da produção de alimentos, teríamos uma devastadora fome no planeta. A previsão se mostrou correta quanto ao aumento exponencial da população. Mas os estudos se mostraram imprecisos nas previsões sobre a produção agrícola.
 
Os avanços ocorridos permitiram que toda essa população fosse alimentada. Se não o foi, não foi por deficiência na produtividade agrícola, mas por outras questões políticas e econômicas. As previsões de Malthus foram, desde então, assumidas como equivocadas.
 
O Brasil, responsável pelo desenvolvimento da ciência da agricultura tropical no mundo, foi fundamental para o erro das previsões de Malthus. Os estudos e pesquisas desenvolvidos em universidades como a Federal de Viçosa, onde nasce a pós-graduação no Brasil em ciências agrárias; a Federal de Lavras e a Rural do Rio de Janeiro; a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, o Instituto Agronômico de Campinas e a Embrapa promoveram um grande salto na produtividade agrícola das culturas tropicais e das culturas temperadas crescendo sob condições tropicais.
 
A produtividade de culturas que compõem a dieta da população do planeta alcançou, em menos de 30 anos, níveis inimagináveis quando dos estudos de Malthus. As ações do Brasil com certeza fizeram Malthus errar.
 
No entanto, as mudanças climáticas ressuscitaram as previsões de Malthus. O desafio de alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050 é preocupante. O aumento da produtividade agrícola em termos globais é de apenas 1% a 2% ao ano, muito pouco para atender ao crescimento demográfico e da demanda. A produção de alimentos precisa duplicar até 2050. As mudanças climáticas já provocam maior incidência de eventos extremos, como altas temperaturas e seca, o que vai reduzir ainda mais as safras agrícolas.
 
Dois bilhões de pessoas vivem nas partes mais secas do mundo e as mudanças climáticas vão reduzir acentuadamente a produtividade nessas regiões. As mudanças climáticas associadas a questões econômicas fizeram as previsões de Malthus retornarem revigoradas. O mundo corre o risco da perenização da fome.
 
Os preços estão acima da média histórica, os estoques estão baixos, o mundo vive um alto aumento demográfico e uma redução na taxa de crescimento da produção agrícola. A demanda mundial de cereais subiu de 815 milhões de toneladas, em 1960, para 2,2 bilhões, em 2008. Entre 2005 e 2008, o preço do milho e do trigo triplicou, e o do arroz quintuplicou. A carestia ocorreu em uma época de safras recordes de grãos, ou seja, o mundo consumiu mais do que foi capaz de produzir.
 
Como resolver a demanda crescente de alimentos? Como associar o aumento da produtividade agrícola com a redução da emissão dos gases de efeito estufa pelas atividades agropecuárias e com o aumento do uso eficiente dos recursos naturais como o solo e a água?
 
Há dois problemas que o mundo não resolve sem a efetiva participação do Brasil: o da fome e o ambiental – erradicar a fome e conter as mudanças climáticas. A agricultura sofre de forma contundente os impactos das mudanças climáticas.
 
Estudos realizados na Universidade Federal de Viçosa, na Embrapa e na Unicamp mostram que as produtividades de culturas como o milho, feijão, soja e café sofrerão redução entre 40% e 60% devido às mudanças climáticas. Por seu lado, a agricultura tem um grande potencial de adaptar-se às mudanças climáticas, bem como de reduzir e remover significante quantidade de emissões de gases de efeito estufa.
 
Com pesquisa, política governamental e investimentos podemos diversificar a agricultura, promover o setor agrícola, integrar a produção de bioenergia e a produção de alimento, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e resolver o maior dilema cientifico, ético e político da humanidade: a fome. A FAO indica necessidade de investimento de U$$ 83 bilhões ao ano na agricultura dos países em desenvolvimento para que o mundo alimente 9 bilhões de pessoas até 2050.
 
O Brasil tem novamente a missão, e hoje em condições muito mais favoráveis, de desenvolver a ciência da agricultura tropical sob condições de mudanças climáticas. Nenhum país tem o potencial técnico, cientifico e político do Brasil, capaz de liderar a cooperação Sul-Sul e efetivamente contribuir para a erradicação da fome no mundo. Enfim, cabe ao Brasil provar, mais uma vez, e com respeito, que definitivamente Malthus estava equivocado.
 
Luiz Cláudio Costa é Reitor da Universidade Federal de Viçosa, membro da delegação brasileira na Cúpula Mundial de Segurança Alimentar da FAO (Roma). 

(Correio Braziliense, 19/11) 
 

 

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