“O Brasil vai bem na produção de conhecimento científico, mas ainda engatinha na área da inovação”

“O Brasil vai bem na produção de conhecimento científico, mas ainda engatinha na área da inovação”

Chegando ao quarto ano de atuação, o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa – Confap – congrega Fundações de Amparo à Pesquisa de vinte e dois estados mais o Distrito Federal. Os orçamentos vêm dos estados e as Fundações se encarregam de fomentar a pesquisa. Articuladas no Confap, elas tem conseguido avanços e resultados expressivos no incentivo à política de ciência, tecnologia e inovação, que incidem sobre o desenvolvimento das pesquisas brasileiras. Em entrevista ao Portal Andifes, Mario Neto Borges, atual presidente do Confap, falou sobre a atuação das Fundações no apoio às pesquisas, sobre como elas funcionam e sobre a importância da articulação alcançada por meio do Confap.

Mario Neto Borges é graduado em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em Inteligência Artificial Aplicada à Educação, pela Universidade de Huddersfield (Inglaterra). Foi reitor da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) até 2004 e assumiu a presidência do Confap em março de 2009. Prestes a completar um ano de gestão, o professor também falou sobre a pauta do Confap para o ano de 2010.

Andifes – Qual é o papel das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa?
Mario Neto Borges – Basicamente, as Fundações têm a missão de fomentar a ciência, a tecnologia e a inovação em seus estados de origem. São órgãos ligados ao governo estadual, com orçamento definido em constituição. Em 2008, a soma desses orçamentos resultou em um valor maior que o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o mesmo período. Isso demonstra a força e a importância destas Fundações para o setor científico brasileiro.

Andifes – Qual é a importância da atuação das Fundações para o desenvolvimento dos estados e para o desenvolvimento do país?
Mario Neto Borges –
Ao realizar investimentos em ciência, tecnologia e inovação, as Fundações contribuem para a diminuição da dependência tecnológica, o fortalecimento da economia e a melhoria da qualidade de vida da população. Com isso, promove o desenvolvimento dos estados e do País. Os investimentos maciços e perenes em educação, ciência, tecnologia e inovação são capazes de gerar riqueza e oportunidades para as nações. Assim, é importante que a sociedade, os dirigentes e os políticos valorizem cada vez mais o trabalho que as FAPs têm a cumprir neste contexto. 

Andifes – Como funcionam as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa e que políticas e programas elas têm desenvolvido para estimular as pesquisas?
Mario Neto Borges –
As modalidades de apoio variam de estado para estado, mas podemos dizer que as Fundações atuam em quatro eixos principais. O primeiro é a pesquisa, ou seja, o financiamento de projetos em todas as áreas do conhecimento. O segundo é a formação de pesquisadores, que é feita por meio da concessão de bolsas em todos os níveis de formação. O terceiro é a inovação, que vem sendo incentivada por meio de programas e editais que associam pesquisadores e empresas. O quarto é a divulgação, que significa levar para a sociedade em geral os resultados alcançados por esses trabalhos. Em outras palavras as FAPs desempenham em cada estado um papel triplo equivalente ao da Capes, do CNPq e da Finep juntos.

Andifes -Como as Fundações estão articuladas entre si e qual é a função do Confap?
Mario Neto Borges –
Elas se reúnem no Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). O Confap é um conselho novo, com apenas quatro anos de existência. Mesmo assim, avançou em muitos aspectos, entre os quais uma articulação forte entre as 23 FAPs hoje existentes no país e a inserção do Conselho nos órgãos e entidades de CT&I nacionais. De forma especial, deve ser mencionada a relação com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e suas agências, nas quais o Confap tem assento nas instâncias de decisão. O Confap abriu portas para parcerias entre as FAPs – o melhor exemplo disso são as redes nacionais de pesquisa. Em 2009, foram lançados, em parceria com o CNPq e o Ministério da Saúde, editais para duas redes de pesquisa, uma sobre malária e outra sobre dengue, com a adesão de sete e quinze Fundações, respectivamente. Também lançamos um edital em conjunto com o MCT, para o apoio a museus de ciência, que foi discutido e elaborado em conjunto por todas as FAPs durante os encontros do Conselho. Vale também ressaltar a recente aliança com a Capes para apoio conjunto às atividades de pós-graduação no País.

Andifes – Que áreas as Fundações e o Confap consideram estratégicas para o desenvolvimento de pesquisas neste ano?
Mario Neto Borges –
São várias as áreas bastante estratégicas para o País na quais as FAPs, em particular, e o Confap, no geral, têm investido. Podemos destacar algumas cujas pesquisas têm apresentado uma expressiva produção científica nacional e internacional e que têm se transformado em avanços do setor empresarial, como energias renováveis, biotecnologia, saúde e engenharias, especialmente aquelas relacionadas com o potencial dos recursos naturais do Brasil.

Andifes – Qual é a pauta do Confap para 2010?
Mario Neto Borges –
Basicamente o Conselho se dedicará a três aspectos importantes ao longo deste ano. O primeiro é a consolidação do Sistema Nacional de C,T&I, aperfeiçoando e fortalecendo as relações entre as diversas FAPs e entre estas e as agências federais de ciência, tecnologia e inovação. Segundo, aproveitando o ano da 4ª Conferência Nacional de C,T&I, que é também ano eleitoral para escolha de presidente e governadores, estabelecer uma proposta de política que considere este trinômio C,T&I como uma política de estado. Dessa forma, e como terceiro aspecto, assegurar mais recursos e um arcabouço legal e de controle moderno e adequado à estas atividades que são essenciais para assegurar o desenvolvimento sustentado e a competitividade do País no cenário mundial.
 
Andifes – Como o Confap vê a questão da Inovação Tecnológica no país? O que é preciso fazer para impulsionar esta área? Qual é a importância das universidades neste contexto?
Mario Neto Borges –
De forma geral, podemos dizer que o Brasil vai bem na produção de conhecimento científico, mas ainda engatinha na área da inovação tecnológica. É preciso mudar esse quadro, e isso depende de mais investimentos e de um arcabouço legal favorável. Estes dois temas, inclusive, serão levados pelo Confap para discussão durante a 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, marcada para maio de 2010. Uma iniciativa que já vem sendo feita e que procura impulsionar a área é o estímulo à interação entre as universidades, responsáveis por gerar o conhecimento, e as empresas, que lidam com o desenvolvimento tecnológico e da inovação. O sucesso de um estado ou país só acontece plenamente quando estas forças atuam em conjunto. Este modelo é hoje conhecido como hélice tríplice (academia-empresa-governo). Dessa forma, os investimentos realizados com recursos públicos retornam para a sociedade na forma de novos produtos, empregos, alternativas de renda, geração de riqueza e melhoria da qualidade de vida.

Andifes – Como as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa se relacionam com as universidades?
Mario Neto Borges – As universidades abrigam a maior parte dos pesquisadores brasileiros, que são os principais clientes das Fundações de Amparo à Pesquisa. De maneira especial, as Federais, hoje, tem papel fundamental nesse novo contexto de inovação e relação com o setor empresarial, já que detêm o maior acervo de pesquisadores do País e por isso têm demandado cada vez mais das FAPs.

Andifes – Como o Confap vê o crescimento e expansão do sistema federal de Educação Superior e a atuação das universidades federais na pesquisa?
Mario Neto Borges –
Vemos com muitos bons olhos! A necessidade de expansão da Educação superior com qualidade tem sido desejada por muitos anos. Se compararmos o percentual de jovens, com idade adequada, que entram nas universidades brasileiras com o de outros países a nossa posição é ainda vergonhosa para quem que se tornar um país plenamente desenvolvido. As federais já por muitos anos e nas várias formas de avaliação têm demonstrado qualidade e capilaridade que são essenciais para democratizar o acesso ao ensino superior. Não é diferente no caso da pesquisa onde, nos diversos estados, as universidades federais detêm as maiores carteiras de fomento das respectivas FAPs.

 

 

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