O sistema avaliativo do MEC

O sistema avaliativo do MEC

Já há alguns dias que virou foco a avaliação de universidades, faculdades e centros universitários pelo MEC. É preciso esclarecer algumas coisas. Sabemos e temos certeza disso, que o MEC tem tentado acertar e tem trabalhado para a melhoria do ensino do país. A mudança do vestibular com o advento do Enem como forma de ingresso único em algumas universidades federais e, principalmente, com a mudança do estilo da prova, tentando torná-la mais eficiente na medida em que busca do aluno um verdadeiro saber em detrimento da “decoreba” (embora ainda persista, sem dúvida), são avanços consideráveis e só o tempo vai mostrar o acerto.

Da mesma forma como foi implantada uma mudança para a melhoria do ensino fundamental e médio, houve também uma que vem “mexendo” com o ensino universitário, que é o Enade. Entendo como sadio o exame. No meu entendimento cabe ao MEC avaliar o ensino e não os conselhos federais de profissões (é um disparate conceitual os exames e interferências aplicados por estes conselhos – mas isso é assunto para outra conversa). Assim, como instrumento de avaliação, o Enade vem a suprir de forma válida a verificação da qualidade do ensino aplicado nas IES (Instituições de Ensino Superior). Porém, também, como no Enem, no Enade e nas visitas dos avaliadores às IES há problemas que estão prejudicando alunos e as próprias instituições.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que a avaliação vai de 0 a 5. Alguns setores da imprensa, aqueles que Odorico Paraguaçu chamaria de marronzista, andaram divulgando as notas das IES sem atentar a esse detalhe (há uma diferença substancial entre ser 2 relativo a 10 e ser 2 relativo a 5). Pois bem, muitos cursos das IES que tiveram nota 2, tiraram 3 na prova do Enade e tiveram sua nota rebaixada para 2 por não possuírem em seu quadro professores com mestrado e doutorado em número que o MEC considera adequado. Esse é um erro crasso que o ministério vem incorrendo, assim como muitos setores públicos e alguns privados que remuneram em função da formação e da titulação. Titulação não garante competência (tornar capaz de), embora possa ajudar. Mesmo que garantisse competência (tornar capaz de), efetivamente não garante a entrega (a pessoa pode saber o que fazer, saber fazer e não fazer). Mesmo que garantisse a entrega, não seria, e não é, a única forma de aprender algo (é apenas uma delas). O pior é que o mestrado e o doutorado possuem características limitadoras da aprendizagem (por isso são stricto). Mais ainda: se as IES estão tirando 3 no Enade (que é a nota que o MEC considera como curso de qualidade), mesmo sem mestres e doutores, está comprovado que os especialistas estão dando conta do ensino-aprendizagem. É preciso repensar o modelo.

Mas, tem mais. Quando se tira 2 (ou abaixo) como nota final (mesmo que a nota da prova do Enade tenha sido 3), o MEC envia avaliadores para ver como está a IES. Isto está um caos. Há uma despadronização imensurável nos critérios desses avaliadores. Há avaliadores incompetentes e, como em todo lugar, há gente de má-fé. Em uma das visitas, um avaliador, chegou a dizer que queria ver o livro que estava emprestado pela biblioteca. O bibliotecário disse: “mas o livro está emprestado” e mostrou a documentação do empréstimo. O avaliador não aceitou. Queria o livro. Ele deveria estar lá. Ora, livro de biblioteca foi comprado para ser usado, não para enfeitar e/ou ocupar prateleira. Não sei se é burrice ou má-fé. E era pós-doutor, o dito cujo.

O fato é que existem problemas no ensino brasileiro, em todos os setores, em todos os estados e, posso dizer com certeza, em todas as IES espalhadas pelo Brasil. É certo que temos que buscar e zelar, cada vez mais, pela qualidade de ensino. É imprescindível que acertemos na forma de avaliar, pois, senão, estaremos passando por processos e vendo dinheiro público e privado indo para o ralo com essas medidas e sem que tenhamos eficácia nos resultados. Precisamos parar de brincar de fazer as coisas. Temos que ter processos e olhar para eles, mas o foco está sempre nos resultados. E como andam eles?

Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante, consultor organizacional, coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br – E-mail: junior@coltri.com.br – Twitter: twitter.com/coltri.

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