Orgulho dos brasilienses, a UnB completa 50 anos na próxima quinta-feira

Orgulho dos brasilienses, a UnB completa 50 anos na próxima quinta-feira

O primeiro ambiente acadêmico voltado para formar uma geração capaz de investigar e mudar a realidade brasileira está perto de completar 50 anos. Criada em meio a sonhos e discussões, a Universidade de Brasília (UnB) surgiu no papel em 15 de dezembro de 1961, quando o então presidente da República, João Goulart, assinou a Lei nº 3.998. Era o primeiro passo para a materialização dos conceitos do antropólogo Darcy Ribeiro, patrono da instituição.

Desde então, formaram-se artistas, personalidades e políticos, protagonistas da história da capital federal e do país. Com ideais originalmente revolucionários e um corpo docente selecionado, a universidade cresceu, ganhou cursos e um perfil diferente. Hoje, o ar esquerdista deu espaço a outros tipos de engajamento. A instituição é comandada por educadores jovens, mas considerados alguns dos melhores do país.

O arquiteto Oscar Niemeyer e o urbanista Lucio Costa previram o câmpus no projeto original de Brasília — ocuparia um espaço entre a Asa Norte e o Lago Norte. Mesmo assim, foram necessários três anos de discussões até a aprovação da norma que fixasse o endereço definitivo, no local desejado. Aos governantes da época, não era atraente a ideia de ter tantos universitários perto do centro do poder. Após a inauguração, em 21 de abril de 1962, as primeiras aulas eram ministradas ao ar livre, nas proximidades do Auditório Dois Candangos e no 9º andar do Ministério da Saúde. Pouco tempo depois, os institutos e as faculdades foram erguidos.

Em 1962, Darcy Ribeiro, o primeiro reitor, além de fundador da UnB, pediu ajuda financeira aos Estados Unidos, no valor de 14 bilhões de cruzeiros, a serem financiados em 40 anos com juros de 2% ao ano. Um ano depois, começaram as obras do Instituto Central de Ciências (ICC), projetado por Niemeyer. O Minhocão, como ficou conhecido, abriga a maioria dos departamentos, dos laboratórios e das salas de aula da UnB. Embora tenha sido palco de manifestações e da formação da identidade de muitos jovens, o espaço nunca foi concluído. Faltam ainda a cobertura e o tratamento acústico dos anfiteatros.

Ditadura
Ainda em fase de construção dois anos após a inauguração, a UnB voltou a ser o foco de polêmicas entre os políticos da época. Desta vez, a discussão não era em torno da localização, mas da ideologia. Logo após a queda de Jango, em 1964, a ditadura instalada a partir do golpe militar trouxe momentos difíceis para a universidade como modelo revolucionário, didático e aberto, além de muito diferente daquele implatando nos anos 1930 e seguido até então por todas as outras instituições de ensino superior do país.

Conhecida por sediar pensamentos esquerdistas, a UnB passou a ser taxada de ambiente marxista. Os militares não pouparam esforços para investigar as conexões entre estudantes e professores. Em 18 de outubro de 1965, uma devassa resultou na demissão de 15 educadores, acusados de subversão. As aulas acabaram suspensas. Indignados com a arbitrariedade militar, 223 mestres e instrutores pediram demissão coletiva. Os então especialistas, convocados para formar um corpo docente de ouro, promoveram uma das maiores revoluções dentro da universidade. A luta seguiu por três anos, quando uma série de manifestações contra a ditadura tomou conta da UnB em 1968.

Com o uso de armas e da truculência, as forças do Exército e a polícia política tentaram frear o protesto de 3 mil alunos contra a morte do estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto, assassinado no Rio de Janeiro, aos 20 anos, após a invasão do restaurante universitário Calabouço. A manifestação foi determinante para o decreto de prisão de sete universitários. Entre eles, Honestino Guimarães, presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (Feub) na época.

O aluno foi desligado da universidade, perseguido e preso, em 1973, após cinco anos na clandestinidade. O desaparecimento dele foi denunciado pelos presos políticos de São Paulo em 1976. Só em 1996 a morte foi oficialmente reconhecida. A memória de Honestino ainda é viva na UnB. O Diretório Central de Estudantes adotou o nome dele em homenagem.

Identidade
Na mesma época em que os professores pediram demissão e o Ato Inconstitucional nº 5 (AI-5) era decretado, nascia em Bruxelas, na Bélgica, Dado Villa Lobos. Depois de passar por diversos países com a família, aos 14 anos a história do músico se misturou com a da UnB. Passados os conflitos e prestes a entrar em um período de redemocratização, aquele que seria o futuro guitarrista da Legião Urbana começou a tomar posturas críticas e a fazer amizades no câmpus da UnB, na Asa Norte. “A maioria dos meus amigos morava na Colina. Foi lá que eu conheci o Fê e o Flávio Lemos (fundadores do Capital Inicial) e o André Müller (fundador da Plebe Rude). Com 15 anos, andava de skate no Minhocão. Lá, era o lugar onde as ideias fervilhavam”, contou Dado, que hoje vive no Rio de Janeiro.

Em 1983, Dado se tornou aluno da UnB, período considerado por ele como um divisor de águas. “Fui aprovado em ciências sociais em primeira chamada. Antes disso, participava das exposições de arte, em que tocava com a minha banda diversas vezes. Ser aprovado no vestibular foi um rito de passagem”, detalhou. Embora não tenha concluído a graduação, viveu o ambiente universitário por um ano. Segundo ele, o aprendizado contribuiu para a formação intelectual e pessoal. “As aulas de literatura brasileira, as leituras e a construção social foram essenciais para a construção do meu caráter.”

Dado Villa Lobos deixou o curso em 1984, por conta da rotina imposta pela Legião Urbana, a maior banda de rock do país. Mesmo assim, continuou a acompanhar o dia a dia da UnB. “Depois da ditadura, o perfil mudou, mas os estudantes não deixaram de lutar. Derrubaram um reitor, em 2008, e conseguem mostrar os seus ideais”, avaliou. O músico refere-se ao caso em que Timothy Mulholland se viu acusado de desviar recursos da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) e acabou deposto após a manifestação dos estudantes.

O guitarrista passou no vestibular num momento em que a estrutura inicial da universidade — direito, administração e economia; letras brasileiras; e arquitetura e urbanismo — havia sido alterada. O professor e pesquisador Amadeu Cury assumiu a reitoria em 1971, quando 14 cursos de graduação foram criados — um aumento de 82% em relação a 1962. Hoje, há 98 graduações, 163 pós-graduações stricto sensu e 58 lato sensu. Os 2.245 professores ministram aulas em quatro câmpus: Asa Norte, Ceilândia, Planaltina e Gama. E 50 anos após a sanção do documento que criou a universidade, 30.727 alunos estão matriculados. No primeiro vestibular, eram apenas 413.

Ponto de encontro
A Colina da UnB tem 11 blocos, construídos entre 1963 e 1998 para abrigar professores e funcionários da universidade. O local é considerado ponto de encontro da juventude na década de 1980 e ficou conhecido por ter sido essencial para o surgimento de uma das bandas de rock mais conhecidas da capital, a Legião Urbana. Foi a primeira obra no Brasil a ser feita com a técnica de concreto pré-moldado.

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