“Pensar no Brasil sem as universidades federais é imaginar um País parado no tempo”, afirma diretor do Cgrifes

Na última sexta-feira (29), o Conselho de Gestores de Relações Internacionais das Instituições Federais de Ensino Superior (CGRIFES), esteve reunido na sede da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), em Brasília, onde, entre outras pautas, tratou sobre a ampliação da internacionalização das universidades federais brasileiras. Para compreendermos um pouco mais esse processo, conversamos com o diretor do Cgrifes, professor Waldenor Moraes.

Moraes explicou que a pauta da reunião também foi composta pela visita de representantes da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). “Com a SESu, tratamos sobre a internacionalização por meio do projeto PDU Internacionalização, que implica em repasses de recursos para as Universidades Federais para que elas consigam desenvolver suas ações de internacionalização. Esse é um recurso que vem sendo alocado já há algum tempo, mas devido às ações orçamentarias e às dificuldades do país, não havia certeza desses recursos. O professor Noraí Romeu Rocco, coordenador de Relações Internacionais da SESu, nos assegurou que nós vamos continuar tendo um repasse, apesar de ser cerca de 20% menor em relação ao ano passado.”

O coordenador ainda explicou que as ações de internacionalização estão sendo articuladas com base em um documento preparado pela Comissão de Relações Internacionais da Andifes (CRIA). “Esse documento traz pontos fundamentais como, por exemplo, a criação de um portfólio das instituições federais, de modo que conseguiremos mostrar online quais nossas competências, para assim, atrair alunos e professores estrangeiros. Esse documento, traz também, uma reflexão sobre rankings, avaliação de processos de internacionalização e indicadores. Trata-se de um documento introdutório, mas que apresenta uma reflexão preliminar sobre aspectos fundamentais da internacionalização da educação superior.”

Confira a entrevista na íntegra:

Qual é a importância da internacionalização para as universidades federais?

Professor Waldenor: As universidades não conseguem produzir conhecimento de modo isolado. Cada vez mais, o conhecimento não cabe entre paredes, como não cabe mais em sala de aula. Antigamente, você ia para uma sala de aula e tinha o material didático, que era o mesmo livro sendo passado de geração em geração. O número de planetas era instável, a informação cabia no livro, logo, cabia em uma sala de aula. Hoje, a informação ela é dinâmica, ela ‘está’, não é permanente, sendo um fruto de pesquisas dinâmicas. Não se faz produção de conhecimento de modo isolado. Então, cada vez mais, os pesquisadores brasileiros e estrangeiros se conectam na mesma linha do conhecimento, seja fisicamente, on line ou pela leitura dos textos. Como o conhecimento não tem mais essa fronteira, se as universidades não ingressarem nesse fluxo de produção internacional ficarão isoladas e, certamente, teremos prejuízo na velocidade dessa produção. Internacionalizar a Universidade Federal é condição para sua existência, na perspectiva de qualidade que defendemos.

Como está o processo de internacionalização hoje?

Professor Waldenor: Varia de universidade para universidade. Por exemplo, as grandes instituições, com muitos anos de atuação, estão em um patamar mais avançado, já que tem uma história de pós-graduação, e a produção científica permitiu que se movimentassem para uma etapa maior. As Universidades de médio porte, estão em uma fase intermediária, ou seja, já tem suas ações, mas ainda precisam fortalecer as redes de parcerias no universo da pesquisa. Uma coisa que permeia em todas as nossas instituições é a falta uma linha de investimento específico para a internacionalização. A ciência brasileira tem que se internacionalizar. Por outro lado, é bom lembrar que não estamos começando hoje. A internacionalização da educação brasileira se dá muito por meio da pós-graduação. Temos um conjunto de programas de pós-graduação internacionais que produzem ciência, de maneira global, há muito tempo. O que se deseja é fazer com que esse sistema permeie toda a rede. Não se trata apenas de internacionalizar a pós-graduação, mas sim, a graduação, o pesquisador, ou seja, todos os processos de educação. Resumindo, é importante internacionalizar para que a gente faça parte da produção científica mundial. Para que nossas produções científicas sejam conhecidas e contribuam para o progresso da ciência. Se as pesquisas das nossas universidades são publicadas em língua estrangeira, iremos estimular outras produções. Com isso, nós participamos desse fluxo global de produções de conhecimento.

Como o senhor pode avaliar o papel da Andifes nesse processo de internacionalização?

Professor Waldenor: Fundamental. É a Andifes que estabelece, por exemplo, parâmetros avaliativos, indicadores que sirvam de balizadores para o desenvolvimento dessa internacionalização. Esses parâmetros, qualitativos e quantitativos, são importantes para o processo de internacionalização, considerando o número de alunos e professores estrangeiros no nosso universo, por exemplo. É o conjunto das universidades federais livremente associadas à Andifes nos dizendo quais são os indicadores de qualidade com quais nós nos identificamos. E é a Andifes que pode mostrar para o mundo essa qualidade. A Andifes acredita que a educação federal brasileira precisa ser internacionalizada, para que assim, compartilhemos com o mundo aquilo que nós fazemos de melhor.

Dentro dessa pauta da internacionalização, o que mais é prioridade das universidades federais?

Professor Waldenor: As línguas são aspectos essenciais. Porque não dá para fazer internacionalização sem o domínio de outras línguas. Há um movimento nas universidades, com o apoio do MEC, que é o Programa Idiomas Sem Fronteiras, do qual eu participo, para que pesquisadores e estudantes se capacitem nas línguas estrangeiras. Mas isso tem que ser uma estratégia de País, de médio e longo prazo. Para que eu produza um texto acadêmico, em língua inglesa, preciso dominar a língua em um nível de profundidade para além do senso comum. Então isso precisa fazer parte da estratégia da universidade, onde precisamos encontrar mecanismos para que o nosso alunado e professorado dominem uma língua estrangeira.

Quais são as dificuldades desse processo?

Professor Waldenor: São duas pautas grandes: as políticas de internacionalização e tudo o que decorre dela como financiamento, equipes, estrutura gerencial e, também, a questão da língua sendo um grande desafio. Os países estão se movimento, ainda que o Brasil não tenha uma política nacional nesta perspectiva, é muito importante que a Andifes assuma esse papel orientador.

Quais foram os encaminhamentos da reunião?

Professor Waldenor: Nós elaboramos seis grupos de trabalho, os quais irão desenvolver estudos de pesquisas para subsidiar essas discussões, como a política para internacionalização; políticas para cooperação internacional; mecanismos para elaboração de acordos; convênios e mobilidades; levantamento de dados institucionais para manter um banco de dados com informações sobre internacionalização; e as questões de fronteiras e refugiados. Esses grupos de trabalho irão se especializar em temas relacionados à internacionalização para propor documentos e desdobramentos para reflexão na Andifes.

Como seria o Brasil hoje, sem as Universidades Federais?

Professor Waldenor: Impossível. Não dá para imaginar o Brasil sem as universidades federais. Eu estou na Universidade Federal de Uberlândia há 30 anos e posso afirmar que vi o Triângulo Mineiro florir, sendo perceptível a influência da universidade na qualificação das pessoas, no processo de saneamento, de organização social, até no transporte público. Toda a produção de conhecimento, interligado com prefeituras e com a microrregião tem um efeito prático naquela sociedade. Pensar no Brasil sem a universidade federal é querer o país parado no tempo. As nossas universidades são geradoras de pesquisas, formadoras de pessoas, influenciadoras de ideias, provocam inovação. O Brasil sem elas não teria alcançado o nível de desenvolvimento que nós alcançamos. Isso é inquestionável.

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