Pioneira no sistema de cotas preenche só 28% das vagas

Pioneira no sistema de cotas preenche só 28% das vagas

Número de inscritos na Uerj cai de 3 mil para 900 entre 2003 e 2008

Houve uma redução da procura dos estudantes negros pelo vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a primeira do País a ter cota racial. No último concurso, apenas 28% das vagas para negros, indígenas, portadores de deficiência e egressos da escola pública foram preenchidas. Segundo o reitor Ricardo Vieiralves, houve 900 candidatos negros, ante 3 mil em 2003.

Essa redução também foi percebida na Universidade Estadual do Norte Fluminense, em que apenas 16% das vagas são ocupadas por cotistas. A lei fluminense reserva 45% das cadeiras para negros, indígenas, egressos da escola pública e deficientes físicos, desde que comprovem ter baixa renda, além de filhos de policiais e bombeiros mortos em serviço.

Na semana passada os defensores da cotas sofreram um revés. A Justiça do Rio suspendeu liminarmente a lei que prevê cotas para o ingresso de estudantes carentes nas universidades estaduais.

Vieiralves acredita que o programa de bolsas em universidades particulares do governo federal, o ProUni, tenha influenciado a mudança. "A pessoa acaba preferindo ficar perto de casa e há uma crença, verdadeira, de que a universidade pública exige mais do aluno", disse.

Mariana Mendes Pimenta, de 20 anos, está prestes a se formar em História pela Universidade Iguaçu. É bolsista do ProUni e ingressou pelo sistema de cotas. Ela tentou o vestibular para universidades públicas, mas não foi aprovada. "É claro que, se tivesse passado, teria ficado na Uerj. Mas tem também os prós. Desde o primeiro período eu faço estágios em cursos pré-vestibular da Baixada."

Frei David dos Santos, coordenador do Educafro, um dos principais cursos pré-vestibulares para carentes, discorda da influência do ProUni. Para ele, o critério socioeconômico (desde 2004 somente negros com baixa renda têm direito à cota racial) e a implantação da nota de corte, que passou a eliminar candidatos na segunda fase a partir de 2006, são os responsáveis pela redução dos inscritos.

Pesquisa

Para conhecer a real situação dos cotistas, a Uerj e o governo federal vão promover um levantamento detalhado sobre os alunos. O trabalho pretende obter dados sobre os índices de aprovação/reprovação, as notas, as matérias em que apresentaram maior dificuldade. Os pesquisadores vão procurar os alunos que deixaram a universidade para saber como estão no mercado de trabalho – se houve melhoria da renda, se foram vítimas de preconceito.

A terceira parte do projeto fará uma avaliação da eficácia das políticas educacionais para os cotistas. "Precisamos saber como as cotas influenciam e como mudaram a vida desses estudantes", afirmou Vieiralves.

Clarissa Thomé – O Estado de São Paulo

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