Pós-verdade: salário pago a professores estrangulam o futuro das universidades públicas

Pós-verdade: salário pago a professores estrangulam o futuro das universidades públicas

Como professor, quando oriento uma tese, tenho preocupação com o método científico e com os princípios éticos que meus orientados devem observar. A academia tem compromisso com a verdade.

Quando leio uma matéria jornalística com dados distorcidos, temo pelo futuro de nosso país. Lendo a matéria “De Primeiro Mundo: salário pago a professores estrangula contas de universidades públicas” (http://www.gazetadopovo.com.br/…/de-primeiro-mundo-salario-…) lembrei do tempo que fazia meu doutorado, na Unicamp. Em uma das aulas, escutei de um dos maiores pesquisadores que o Brasil já teve, Prof. Edgar Salvadori de Decca, comentários relativos ao material produzido por veículos de comunicação como fonte histórica. Com sapiência, o Professor comentou que, diferente do pesquisador que tem compromisso com a verdade, os veículos de comunicação têm compromisso com a venda da informação. A verdade não é importante.

Lendo a matéria “De Primeiro Mundo”, ainda, vi com clareza o uso da pós-verdade (https://educacao.uol.com.br/…/o-peso-da-pos-verdade-na-soci…). A matéria, assinada por um articulista de um jornal de ampla circulação, defende duas ideais: o fim da gratuidade das universidades públicas e o salário elevados dos professores das universidades federais.

Na matéria (usando dados da OCDE), afirma-se que, “no Brasil, os salários anuais de professores de universidades federais são de US$ 40 mil (R$ 133,7 mil) em média. Para os professores titulares (os mais bem pagos), a média é de cerca de US$ 76 mil por ano (R$ 254 mil). O valor está acima do pago na Noruega (US$ 73 mil) e próximo dos valores da Finlândia (US$ 80 mil) e Suécia (US$ 81 mil)”. A informação (o recorte) é parcialmente correta(o). No entanto, no mesmo documento, é mostrado que “o salário médio anual dos docentes em 2014 variou de 27 mil dólares na Eslováquia até 133 mil dólares em Luxemburgo. No Brasil, o salário médio anual dos docentes trabalhando em IES federais foi de 41 mil dólares” (http://download.inep.gov.br/…/destaques_do_panorama_da_educ…). É desnecessário adicionar qualquer informação. Da forma como a informação foi colocada, os professores das instituições federais brasileiras estão entre os mais bem pagos do mundo. Isso é pós-verdade. A verdade que um aluno de graduação mostraria é que o salário médio do professor brasileiro é menos de um terço do valor pago em países desenvolvidos (por terem educação) e os valores médios estão no quartil dos piores pagos no mundo.

O salário de um professor titular de uma universidade federal, hoje, bruto, é de RS 19.440,48. O valor líquido no final da carreira não chega aos R$ 14 mil. Para ter este salário, o professor tem de ter sido aprovado em concurso público de provas e títulos, ter doutorado, no mínimo 16 anos de carreira, ter sido aprovado em todas as avaliações (comprovando produtividade) e ser aprovado numa espécie de um “segundo concurso”, para professor titular. Um dos mecanismos para essa aprovação é defender uma nova tese (um “segundo doutorado”). Faz muito tempo que não existem mais benefícios como quinquênio, incorporação de funções, aposentadoria integral etc. Os tão propagados privilégios inexistem para todos os que adentraram no sistema depois de 2003 (faz algum tempo). Mas, no tempo da pós-verdade, a ideia que se “vende” é que todo servidor público ganha valores fora da realidade. A realidade, infelizmente, é outra: as universidades não têm a capacidade de reter jovens talentos. Muitos profissionais promissores estão simplesmente desconsiderando o exercício da docência como uma opção. O salário de um professor recém-concursado, com doutorado, líquido, hoje, é de pouco mais de R$ 7 mil (e não tem auxílio moradia, auxílio paletó…).

A partir destes dados, diria que nem em tempos de pós-verdade a tese dos altíssimos salários dos professores das universidades federais é minimamente sustentável.

Quanto a outra tese, levando-se em consideração que as universidades públicas são patrimônio da sociedade brasileira e que parcela significativa da pós-graduação e do conhecimento são produzidos no interior dessas universidades, não vou nem discutir. Não merece.

Pegando os dados da LOA de 2014 (os mesmos utilizados pela OCDE para fazer o relatório utilizado na matéria que estou “lendo”), vemos que a educação (incluindo as universidades, os institutos federais, os programas voltados para as instituições privadas etc.) recebeu 3,44% do orçamento federal. O pagamento de juros da dívida teve destinação de 42,41%. Em tempos de pós-verdade, o problema do Brasil está nas universidades federais, que devem ocupar uns 2% do orçamento brasileiro, e não os 42% pagos aos banqueiros internacionais.

Como torcedor do Operário Ferroviário Esporte Clube, faço uma analogia do que li com o futebol: um jogador do time campeão brasileiro da 4ª divisão, em 2017, recebia salário próximo de R$ 30 mil mensais (o maior já pago na história do clube). Com a pós-verdade, os jogadores do glorioso Fantasma da Vila (quase todos) ganham R$ 30 mil mensais. O valor é semelhante ao pago para um juvenil pouco promissor do Barcelona (o time do Messi). Com efeito, o salário pago no meu time do coração é semelhante ao pago no Barcelona. A manchete pós-moderna seria: Fantasma paga salários semelhantes aos do Barcelona.

A sociedade brasileira não merece o que querem fazer com as universidades federais.

Por professor Luiz Alberto Pilatti, reitor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná

 

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