UFPR – Projeto ajuda a transformar perspectivas de alunos da periferia

UFPR – Projeto ajuda a transformar perspectivas de alunos da periferia

Estudantes de Comunicação integrantes do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP), sob supervisão do professor José Carlos Fernandes, auxiliaram jovens do Colégio Estadual João Gueno a olhar de uma forma diferente para o bairro em que o colégio está localizado, o São Dimas em Colombo.

O trabalho envolveu cerca de 60 alunos do oitavo ano que, na disciplina de Língua Portuguesa ministrada pela professora Erica Rodrigues, fizeram um levantamento de textos e notícias sobre o bairro. O resultado foi um grande número de materiais que retratavam violência, criminalidade e aspectos negativos da região.

Para tentar mudar essa percepção, as turmas, a professora e os membros do NCEP foram a campo e realizaram um mapeamento do bairro. Nessa etapa, foram observados diversos elementos como pavimentação, urbanismo, moradias, comércios, animais, questões culturais, entre outros.

A partir dessa sondagem, os estudantes do Colégio produziram crônicas que retratam alguns dos pontos de maior destaque, expondo impressões sobre a região. Os textos vão passar por revisão, edição e diagramação – com ajuda dos membros do NCEP – e devem resultar em um livro até o final deste ano.

Fernandes conta que conheceu a professora Érica e o Colégio em 2014, quando a instituição recebeu o prêmio Vivaleitura, do Ministério da Educação. “À época, a escola desenvolveu um trabalho de leitura tão simples e revolucionário, com leitura em voz alta, que resultou na ida da escritora infanto-juvenil Índigo a Colombo, para uma conversa. Este ano, a ação voluntária Freguesia do Livro iniciou uma parceria com a Érica e, então, a escola me convidou para ajudar os alunos a escreverem sobre o bairro. Foi quando escrevi um texto e iniciei o processo de engajamento dos alunos do NCEP”.

Érica explica que a Organização não governamental (ONG) Freguesia do Livro propôs à ela uma atividade para tornar os alunos leitores e agentes de leitura. “Para este projeto, pensamos em um gênero textual que eles tivessem facilidade para ler, no caso, a crônica. Como não tínhamos um texto base de literatura que falasse sobre o bairro, convidamos o professor José Carlos para conversar com os alunos e escrever um texto com algumas impressões da região e da escola. Desse contato surgiu a ideia de mapeamento para que os estudantes tivessem ideias de temas para escrever”.

“A ideia do NCEP é dar instrumentos para que as pessoas com quem trabalhamos possam contar suas histórias sobre o lugar onde vivem.  O bairro São Dimas tem uma história muito forte de violência que é retratada pelos veículos de mídia. Então percebemos que, ao atuarmos com eles, podemos dar oportunidade para que essas pessoas contem suas histórias”, avalia Hiago Rizzi Zanolla, estudante de Jornalismo da UFPR e integrante do núcleo.

Tayane Lopes de Melo, estudante de Publicidade e Propaganda, relata que além do livro, a ideia é promover um blog – chamado “Leitura além dos muros”– com os textos realizados pelos alunos do Colégio. “Vamos deixar esse blog para a instituição, que vai continuar alimentando depois”.

Além do desenvolvimento na questão da leitura e escrita e do despertar de um olhar mais atento e cuidadoso, com a percepção de outros aspectos, para a região, a parceria é importante pela interação entre escola e universidade, ambas públicas, que acabam por refletir experiências e colaborar na construção de um perfil de alunos mais interessado.

“A extensão universitária mexe com a rotina da escola, mas, sobretudo, torna-a um espaço frequentado por outras pessoas, de modo a romper o isolamento. João Gueno fica na periferia da periferia de Colombo, que é uma periferia de Curitiba. Essa interação diminui distâncias. Para os alunos de lá e para nós esse movimento é necessário, de modo a romper com os vazios urbanos e com os hiatos – que tendem a ser muitos e a ceder espaço para a violência, quando não são ocupados”, destaca Fernandes.

Para a professora, a interação entre os alunos é uma forma de estímulo e aproximação da realidade. “É também uma valorização para a autoestima deles. Eles passam a acreditar e a saber que não existem só coisas ruins nesta região. A partir disso eles conseguem se identificar e é muito mais válido que escrevam sobre algo que vivem, do que sobre um tema desligado da realidade deles”.

Experiência enriquecedora

Segundo Zanolla, as oportunidades promovidas pelo NCEP são chances de devolver para a sociedade a bagagem adquirida na universidade. “O contato com esse grupo de pessoas é muito enriquecedor e, enquanto ser humano, sinto-me muito contemplado”.

Já o estudante de Publicidade e Propaganda Alisson Alves Luiz considera a vivência muito válida também no que diz respeito à questão acadêmica e profissional. “Poder colocar minhas habilidades em prática para ajudar essas pessoas a contarem suas histórias está me fazendo repensar meu caminho profissional no futuro. Quando comecei a fazer parte do NCEP, passei a pensar mais nesta hipótese de ajudar as pessoas a exporem sua própria voz e de aprender em conjunto, com essa troca de conhecimentos”.

Tayane confessa que a experiência em projetos sociais está sendo uma boa oportunidade para que ela cresça como pessoa. “O retorno desse contato com as crianças é muito legal. Além disso, estou podendo trabalhar com o que pretendo fazer ao me formar, que é a criação de blogs e sites”.

O NCEP

O Núcleo de Comunicação e Educação Popular é um projeto de extensão vinculado ao curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná (UFPR), cujo objetivo é estimular a discussão sobre comunicação popular e assessorar movimentos sociais a fim de promover a democratização dos meios de comunicação.

Criado em 2003 por iniciativa da professora Rosa Maria Dalla Costa, o núcleo está completando 15 anos de existência com uma dezena de ações que envolvem alunos e comunidade. Exemplos são os projetos Radioescola no Colégio Estadual Santos Dumont; a formação de lideranças juvenis – em parceria com o Ministério Público – na Ocupação 29 de outubro, no Caximba; o recolhimento de depoimentos dos participantes do Grupo Adesão, formado por soropositivos; a produção de material didáticos para o programa Política Migratória e Universidade Brasileira (PMUB); entre outras inciativas.

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