RUF retificado, USP em primeiro, mas…

RUF retificado, USP em primeiro, mas…

Rankings universitários são muito úteis. Orientam estudantes a caminho do ensino superior e estimulam universidades a buscar aprimoramento se têm maus resultados. Também podem passar por avaliação, como a que fiz em “O Estado de S. Paulo” de 21 de setembro, examinando o RUF (Ranking Universitário Folha) de 2017, publicado em suplemento desta Folha em 18 de setembro. Agradeço o convite deste jornal para trazer essa avaliação também a seus leitores.

Moveu-me um trecho do subtítulo desse suplemento: “Unicamp ultrapassa USP e conquista o 2º lugar. Assim, a USP ficou em terceiro, mas costuma ter posição ainda melhor em rankings nacionais.

O RUF cobre cinco aspectos: ensino (E), pesquisa (P), mercado (M), inovação (Ino) e internacionalização (Int). A USP ficou em primeiro lugar em “P”, “M” e “Ino”, e em segundo em “Int’.

Nem a UFRJ, em primeiro no RUF como um todo, nem a Unicamp, em segundo, tiveram posições melhores nesses quatro aspectos. Mas em “E” a USP ficou em nono lugar (!).

Vi que “E” abrange pesquisa com docentes (PD), professores com doutorado e mestrado (PDM), em dedicação integral e parcial (PDIP), e nota no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). PDIP deveria ser só PDI, e o Enade tem várias distorções, mas falta-me espaço para discutir isso aqui.

Ruf.folha.uol.com.br/2017 mostra a USP em primeiro em PD e PDIP, e em terceiro em PDM. Todas as oito universidades com posição superior à USP em “E” tiveram notas piores em PD e PDM, e iguais em PDIP.

A “nota” uspiana no Enade foi traço (-), ao não participar desse exame, e suspeitei estar no trato dessa ausência pelo RUF a má posição da USP em “E”.

Confirmei isso na reportagem “Líder em produção científica perde em ensino, de Sabine Righetti, no mesmo suplemento. Ela diz que a USP “zera (ênfase minha) em um componente do RUF “, as “notas médias (…) nos últimos três Enade. (…) Como quem estuda na USP não faz o exame, a universidade não recebe pontos nesse quesito (idem)”.

Ora, o trecho é contraditório, pois diz que a USP não recebeu pontos no Enade, mas que levou zero, uma pontuação ausente nos resultados oficiais do mesmo exame, do qual, vale repetir, a USP não participou.

E ainda Righetti: “(…) Se tivesse a mesma nota média da Unicamp (…)” no Enade, “(…) a USP teria cerca de 1,5 ponto a mais na sua nota final -o suficiente para encabeçar o ranking (idem). (…) O que separa a USP da líder, a UFRJ, é 0,18 ponto.” A Unicamp esteve no Enade, e também a Unesp, mas ambas e seus alunos tampouco o levaram a sério, pois ficaram em 47º e 49º lugares, respectivamente.

Portanto, a forma como o RUF avaliou a USP no Enade claramente a prejudicou. Registre-se a transparência do ranking ao publicar procedimentos que permitiram essa conclusão. O que fazer? Sugiro republicar o RUF sem o Enade, e/ou com este sem a USP, e/ou mantê-lo dando a ela a média das más notas de suas irmãs, Unicamp e Unesp.

Mas não cabe à USP se vangloriar de mais um primeiro lugar nacional. Tem muitos problemas, como o dinheiro escasso e a ausência de formação também interdisciplinar nos cursos de graduação, tema que venho pesquisando. Tendências do mercado de trabalho também recomendam essa formação, já adotada há muitíssimo tempo por várias das melhores universidades do mundo.

A USP deve mirar nos rankings internacionais. Mas no Shangai, conforme o mesmo suplemento, neste ano apareceu entre o 151º lugar e o 200º depois de cinco anos entre o 101º e o 150º. Pior ainda, no ranking Times Higher Education, neste e no ano passado ficou entre o 251º e o 300º, após ter o 158º em 2012. Em 2018, a USP terá um novo reitor. Que tal um efetivo plano para colocá-la entre as 50 melhores do mundo, ou bem mais perto delas, em dez anos? Lembrando Guimarães Rosa, “é junto dos bão que a gente fica mió”.

ROBERTO MACEDO é economista (UFMG, USP e Harvard). Na USP, foi também professor-titular, chefe de departamento e diretor da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade). Foi membro do Conselho Editorial da Folha

 

Fonte: Roberto Macedo (Folha de São Paulo)

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