Sobre a migração da rede privada para a pública

Sobre a migração da rede privada para a pública

Os pesquisadores Karina Carrasqueira e Tiago Bartholo, da UFRJ, publicaram no site Latitude uma interessante análise, que vai na contramão de algumas reportagens recentes publicadas na imprensa do Rio e de São Paulo. Com base em dados do Censo Escolar, eles contestam a afirmação de que tem havido uma migração de alunos da escola particular para a pública.

Pelos dados que analisam, entre 2010 e 2014, o que tem acontecido é o oposto: mais alunos saindo da rede pública e se matriculando em escolas privadas. O ponto dos pesquisadores é que pode até estar aumentando o número de alunos que saem de escolas privadas em direção às públicas, mas o movimento contrário (das públicas para particulares) parece ser mais intenso, e esse fenômeno ainda precisaria ser melhor estudado.

Eles destacam que “o aumento das matrículas na rede privada é uma tendência tanto no Estado quanto no Brasil, possivelmente efeito do aumento da renda da população.” Analisando dados de capitais, eles concluem que o aumento da proporção de alunos da rede privada não é um fenômeno carioca.

As hipóteses que eles levantam para explicar esse fenômeno de aumento das matrículas na rede privada são o aumento do poder aquisitivo das famílias nos últimos 10 anos, a percepção ainda negativa sobre a má qualidade dos serviços públicos no país (agravada por fenômenos como greves e falta de reposição de aulas) e uma queda mais forte da fecundidade entre famílias mais pobres.

Por fim, eles concluem que “é razoável presumir que as famílias que transferem seus filhos da rede pública para a privada possuem melhores condições econômicas, o que pode reforçar a ideia que, no Brasil, o sistema público de ensino existe apenas para atender os alunos de nível socioeconômico baixo. Concentrar majoritariamente os alunos mais pobres na escola pública pode trazer resultados indesejados para a equidade do sistema escolar como um todo.”

PS – Os dados do Censo Escolar analisados vão apenas até 2014. A pesquisa ainda não capta, portanto, o impacto da crise econômica na escolha das famílias. Talvez para 2015 e para 2016 a tendência mude, não necessariamente por razões relacionadas a percepção da qualidade do ensinos.

Antônio Gois – O Globo

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