UFMG: 93 anos de compromisso com o conhecimento e com a vida

UFMG: 93 anos de compromisso com o conhecimento e com a vida

“Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão”
Carlos Drummond de Andrade

Para o reitor Tomaz Aroldo da Mota Santos (gestão 1994-1998), ‘in memoriam’

Hoje, 7 de setembro de 2020, é um dia especial para as universidades federais do país. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outrora Universidade do Brasil, nossa irmã mais velha, comemora seu centenário, e a nossa querida Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) completa mais um ano de existência.

A universidade brasileira é uma instituição relativamente recente. Apenas no século 19 foram abertas as primeiras escolas de educação superior, e apenas no início do século 20 se estruturaram nossas primeiras universidades. Pode-se dizer que a construção da Universidade no Brasil é um processo caracteristicamente tardio.

Nesses primeiros cem anos, nossas universidades testemunharam grandes mudanças. Houve um tempo em que o acesso ao ensino superior era uma exceção, reservada aos filhos das elites. Depois se tornou elemento de reprodução das classes médias, imprescindível para a estruturação de um Brasil que se urbanizava. Só muito depois passou a ser pensado como instrumento de equidade, a um tempo capaz de permitir a equalização de oportunidades para jovens de todas as camadas sociais, enquanto permitiria à sociedade mobilizar os esforços para atingir uma prosperidade que deveria ser compartilhada por todos, como direito.

Ao longo desse caminho, a universidade habitou diferentes lugares em nosso imaginário como instrumento para projetar o mundo do futuro. Diria Miguel de Unamuno, renomado filósofo e pensador, Reitor da Universidade de Salamanca por três vezes, “o presente nada mais é do que o esforço do passado para converter-se no futuro”. Assim é que as universidades no Brasil se tornaram, ao longo dos anos, lugar da formação das consciências, centro aglutinador do conhecimento transformador das realidades, lócus da tessitura das interpretações da formação do povo brasileiro, e núcleo da formulação de projetos de um país autônomo e soberano. Tornou-se, como projeto inspirador de um futuro por devir, elemento indispensável para romper os processos históricos de dependência, fonte de um pensamento autóctone, geradora do conhecimento capaz de impulsionar o desenvolvimento nacional. Ao mesmo tempo, consolidou-se como necessário polo da contestação e da resistência, guarida do pensamento contra hegemônico, abrigo das vanguardas, e centro de construção e convergência da ideia de um projeto nacional.

Andando no tempo, a universidade passou a dar ressonância à multiplicidade das vozes que compõem o tecido de nossa história e dos caminhos que se apresentam à nossa frente. Torna-se lugar do reconhecimento e da afirmação das identidades – sempre plurais – na busca pela expressão e na luta por direitos. Vê sua significação econômica ser redimensionada, tornando-se essencial para manter acesa a possibilidade de inserção do país na chamada economia do conhecimento. Adquire uma centralidade para a articulação da competitividade econômica e da inovação tecnológica e social ao mesmo tempo que assume o protagonismo quando a agenda nacional passa a pautar o tema da equidade nas diferentes esferas da cultura e da sociedade.

Nesse processo, a cada mudança a universidade se transformava e se mostrava para cada vez mais necessária para um projeto de país mais igualitário, democrático e inclusivo. Ao longo desse período, a sociedade brasileira mudou profundamente, mas também permaneceu profundamente imutável em muitos de seus fundamentos.

Nesses 93 anos de existência como Universidade, completados hoje, a UFMG atravessou tempos muito diversos, de um país que tanto mudou, que tanto se fez para avançar, mas onde ainda se encontram inconclusas tantas tarefas fundacionais da nossa ideia de civilização. São 93 anos de muita dedicação, compromisso, resiliência e também rebeldia, como cabe a uma instituição verdadeiramente mineira. Personagem de extrema importância para o estado e para o país, presente em muitos cantos e recantos das Gerais – Belo Horizonte, Montes Claros, Diamantina, Tiradentes, entre outros –, a UFMG reverbera para além das montanhas e seu nome está hoje escrito nas estrelas. Esta Casa carrega com orgulho, desde seu nascedouro, a marca do compromisso com o conhecimento, com a ciência e a inovação, com a reflexão crítica e a liberdade de expressão, com a cidadania e os direitos humanos, e, sobretudo, com a democracia e com a vida.

“A UFMG reverbera para além das montanhas e seu nome está hoje escrito nas estrelas”

Incipit vita nova – infunde vida nova –, convite e lema que ostentamos em nosso brasão, remete à capacidade da Universidade de se repensar, de se reinventar e de se revisitar a cada novo desafio, a cada novo obstáculo. E como tem sido preciso se reinventar; como tem sido necessário refletir, reconsiderar, ressurgir, renascer. Quando, por exemplo, voltamos nossos olhos para 2019, percebemos esse ano como um momento de expressivo reconhecimento da qualidade e relevância da UFMG. Classificada, pela sexta vez consecutiva, como a universidade com o melhor ensino do país, pelo ranking nacional RUF (Ranking Universitário Folha de S. Paulo), a melhor universidade federal do país e a quinta melhor universidade da América Latina pelo renomado ranking da Times Higher Education e entre as três melhores universidades federais brasileiras, segundo o ranking de Shanghai, a UFMG recebeu ainda o Prêmio Universidade Empreendedora, considerada a instituição federal mais empreendedora. Integrante da lista das universidades líderes no registro de patentes bem como na transferência de tecnologia, a UFMG demonstrou também sua relevância e compromisso social ao atuar de forma decisiva, nas áreas e comunidades atingidas pelo rompimento na Mina de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho. Como já havia ocorrido em 2015, quando houve o rompimento da Barragem de Fundão da Samarco, em Mariana, a Universidade se mobilizou, desde o início, de forma ativa, por meio do Programa Participa UFMG e de muitas outras ações, atuando junto às autoridades, oferecendo apoio no resgate de animais e na análise das causas do rompimento, bem como atendendo às necessidades sociais, educacionais, e mesmo psicológicas das comunidades atingidas. Não podemos esquecer, também, que em 2019 a UFMG iniciou o curso de Letras-Libras, seu 91º curso de graduação, em atendimento a uma importante demanda social para formar profissionais habilitados em tradução da língua brasileira de sinais para atender o ensino básico.

“A UFMG nunca se colocou do lado mais fácil e sempre pautou suas ações por seus valores inarredáveis”

As folhas do calendário se sobrepõem e chegamos a 2020 diante de um desafio de dimensão global com a pandemia do novo coronavírus, que mobilizaria a UFMG a, uma vez mais, se repensar, se renovar, se reinventar. Se em 1918, quando a jovem capital das Minas Gerais enfrentou a pandemia da gripe espanhola, a nossa Escola de Medicina transformou suas instalações em um hospital provisório, em 2020 o compromisso da UFMG com a sociedade diante de uma nova pandemia não foi diferente. Fizemos o que se espera de nós: toda a comunidade da UFMG se mobilizou para atender as demandas da nossa cidade, do nosso estado e do nosso país. Atuamos em colaboração com as autoridades governamentais na prevenção, no enfrentamento da pandemia e no atendimento à população por meio do Hospital das Clínicas da UFMG e do Hospital Risoleta Tolentino Neves. Realizamos ainda pesquisas de ponta, em todas áreas do conhecimento, direcionadas para o enfrentamento da Covid-19 e suas arrasadoras consequências sociais, acolhendo as populações mais vulneráveis. Mais de 120 pesquisas foram realizadas ou se encontram em realização, entre elas a que busca o desenvolvimento de uma vacina brasileira, mais de 36 mil testes de diagnóstico efetuados, aquisição de mais de 1,5 milhão de insumos, equipamentos e medicamentos para os hospitais universitários; produção de mais de 1,5 mil litros/mês de álcool em gel; testagem de vacinas e medicamentos, estudos epidemiológicos, estatísticos e probabilísticos, entre inúmeras outras ações de impacto para a sociedade.

Apesar de toda a qualidade, relevância e impacto regional e do destaque obtido pela Instituição, em âmbito nacional e internacional, nas ações de ensino, pesquisa e extensão, a UFMG, assim como as demais instituições federais de ensino superior, sofre com as consequências do contingenciamento orçamentário dos últimos anos e com a previsão de corte orçamentário drástico – da ordem de 16,5% – para 2021. É com profunda preocupação que vivenciamos igualmente um corte expressivo de verba para pesquisa nas agências de fomento como a Fapemig, o CNPq e a CAPES. É imprescindível destacar que no Brasil as universidades públicas são responsáveis por 95% da pesquisa científica e que os cortes em investimento em educação, ciência e tecnologia impactam de forma decisiva o desenvolvimento regional e do país. Ao efetuar cortes tão substanciais na educação superior, na ciência e na tecnologia, o país abre mão de um patrimônio inigualável de seu povo – patrimônio esse que precisa ser preservado como uma política de estado para que possamos enfrentar momentos de crise como esses que estamos vivendo e para que possamos fazer deste país um lugar mais digno e melhor para se viver.

“Façamos, todas e todas, dessa luta a nossa luta!”

Tempos difíceis como esses que vivemos caberá ao futuro avaliar, interpretar e mesmo julgar. O caminho que temos pela frente não está livre de percalços. Mas como nos diz Cora Coralina: “É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça”. É, por isso, seguindo os dizeres de Cora Coralina, que podemos afirmar, como altivez, que cabe a nós, como Universidade viva, prosseguir na honrosa tarefa que nos foi delegada pelo povo brasileiro.

Orgulha-nos imensamente a bela história desta Instituição – uma história de luta, de resiliência, de democracia – na qual a UFMG nunca se colocou do lado mais fácil e sempre pautou suas ações por seus valores inarredáveis. Dessa forma, a UFMG se faz dádiva – para mim, para sua comunidade e para toda a sociedade –, pois sua razão de existência, na condição de instituição pública, é estar a serviço da sociedade e daqueles que dela mais necessitam. Assim, neste dia especial para todas e todos nós, neste dia de comemoração, recorro ao sentido dessa palavra e faço um convite. Lembremos sempre e mantenhamos constantemente vivo, em nós e em nossa Instituição, o compromisso que nos define: a promoção, geração, desenvolvimento e partilha de conhecimentos e saberes múltiplos; a valorização da ciência, da cultura e das artes; o apreço pela liberdade e pela democracia; a luta pela inclusão e pela igualdade. Termino este texto lembrando que a UFMG, esta altiva, corajosa, íntegra e destemida senhora, não foge à luta. Façamos, todas e todas, dessa luta a nossa luta!

(Sandra Regina Goulart Almeida, reitora da UFMG)

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