UFPR – Palestra do presidente da SBPC e ato contra cortes de recursos às universidades marcam encerramento da 9ª Siepe

UFPR – Palestra do presidente da SBPC e ato contra cortes de recursos às universidades marcam encerramento da 9ª Siepe

Na intenção de mobilizar as comunidades acadêmicas em defesa da ciência e contra os drásticos cortes de recursos anunciados pelo governo federal, a 9ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (Siepe) da UFPR foi encerrada nesta quarta-feira (4) à noite com dois atos simbólicos no Campus Jardim Botânico, em Curitiba.

Um deles foi a palestra com o físico Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que fez um diagnóstico da pesquisa brasileira frente aos contingenciamentos e cortes que atingiram neste ano universidades, instituições de fomento e ministérios. Na sequência, foi realizado um manifesto contra o desmonte do ensino nas universidades públicas que reuniu representantes dos grupos que compõem a comunidade da UFPR.

Falando a uma plateia formada principalmente por estudantes, Moreira foi enfático em afirmar que o quadro é o mais grave já vivenciado pela ciência brasileira na atualidade — especialmente por ter ares de política de longo prazo –, mas fez questão de defender que apatia só piora as coisas.

“O momento é difícil, mas não podemos desanimar, ainda mais vocês, que são jovens”, declarou. “Não adianta colocar a cabeça na areia porque não vai funcionar”, ressaltou. “Se não informarmos a população, se não nos mobilizarmos, quem vai fazer isso por nós?”, questionou. “Todo mundo pode fazer alguma coisa, começando com discutir com os colegas. Afinal, isso afeta a todos”, continuou, se referindo a professores, pesquisadores e estudantes.

São cenários graves: já retido, o orçamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pode cair 34% em 2018, assim como o do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Somam-se a isso pesquisas ameaçadas de interrupção, editais paralisados nas fundações estaduais e o risco de dispersão de profissionais, que podem escolher atuar no exterior ou mesmo mudar de profissão.

“Ciência não é brincadeira, que você pode parar por cinco anos e depois retomar como se nada tivesse acontecido. Ao fazer isso, você desmonta, desconstrói, anda para trás”, disse Moreira.

A situação se reflete na UFPR. Cerca de 25% dos recursos do orçamento para 2017 (em torno de R$ 173 milhões, já com cortes) estão sendo contingenciados. De Brasília, o reitor Ricardo Marcelo Fonseca reforçou a necessidade de mobilização via vídeo. “Chegamos a um tempo em que é necessário reafirmar o óbvio, e fazer isso com força: não temos um futuro para o Brasil sem pesados investimentos em ciência, sobretudo num país como o nosso, em que o conhecimento é massivamente produzido pelas universidades públicas”, declarou.

Informação

Moreira sustentou que é necessário que a comunidade científica se preocupe em informar a população sobre a importância da ciência — especialmente a básica, às vezes considerada pelo senso comum menos essencial. O presidente da SBPC enumerou avanços econômicos e sociais propiciados pela ciência nacional nos últimos anos: as safras recordes de grãos, a competitividade de empresas como a Embraer (hoje privada), o pioneirismo da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas e descobertas na saúde pública, como a relação entre o vírus zica e a microencefalia.

Segundo o pesquisador, é preciso que Estado, inciativa privada e o brasileiro médio compreendam que “apostar em ciência é um investimento”. No caso da população em geral, ele reconhece que existem empecilhos para isso, como a falta de acesso a informações da área.

Ainda assim, Moreira tem argumentos para convencer governo e parlamentares de que o brasileiro discorda do ataque à ciência nacional. E são argumentos produzidos pelo próprio governo. De acordo com a série de levantamentos “A Ciência e a Tecnologia no Olhar dos Brasileiros – A Percepção Pública da C&T no Brasil – 2015”, lançada neste ano pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência, Tecnologias, Inovações e Comunicações (MCTIC), mais de 78% dos cerca de 2 mil entrevistados acreditam que o investimento público em ciência deveria ser maior, ainda que isso possa significar menos dinheiro para outras áreas.

Apenas 3,4% acham que teria de ser menor – percentual inferior ao verificado nos Estados Unidos, onde 12% da população defende isso. Moreira reforçou que, há, portanto, motivos suficientes para questionar o Legislativo sobre representatividade popular que se espera de seus membros durante a audiência pública e a manifestação marcadas para 9 e 10 de outubro, com a participação de 25 entidades científicas e universitárias.

O pesquisador enfatiza ser primordial que as comunidades universitárias lutem para evitar que entidades de fomento tenham que fazer uma “escolha de Sofia” em 2018, o que pode reduzir a variedade de pesquisas ou afetar a educação básica. Os dois casos significariam grande retrocesso, uma vez que o Brasil já está atrás de outros países subdesenvolvidos quando os assuntos são investimento em pesquisa e resultados no ensino. Moreira registrou que o país coleciona notas abaixo da média em checagens de educação como o Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Alunos) – no qual a exceção tem sido o desempenho de alunos de colégios e institutos federais.

Manifesto
O ato em defesa da ciência e da universidade pública reuniu representantes dos professores, técnicos administrativos e estudantes da UFPR, bem como da SBPC nacional e estadual. Além do presidente da SBPC, Ildeu Moreira, compuseram a mesa o presidente da Associação dos Professores da UFPR (APUFPR-SSind), Herrmann Muller; a coordenadora de comunicação do Sinditest-PR, Carla Cobalchini; a representante da SBPC estadual, Elizabeth Schwarz; e a aluna de Medicina Sara de Oliveira, do Diretório Central de Estudantes (DCE).

De acordo com o pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação Francisco de Assis Mendonça, que mediou o manifesto, a iniciativa é uma reação aos ataques sucessivos direcionados à UFPR no último ano. Além do corte de recursos, a universidade teve que se posicionar, em julho, contra um projeto de lei federal que buscava desmembrá-la dos campi de Palotina e Toledo, sem que a instituição tivesse sido consultada. “É um momento gravíssimo da história do Brasil”, resumiu.

Membros da mesa destacaram a necessidade de mobilização dos diversos segmentos universitários. “No momento precisamos da união de todas as áreas do conhecimento e elas estão na universidade”, afirmou Elizabeth Schwarz, que citou o compromisso de “retorno” que “quem chega ao terceiro grau” tem para com a sociedade.

Muller ressaltou que a manutenção da universidade pública e gratuita, apesar de considerada por muitos “uma bandeira desgastada, está mais atual do que nunca”. Carla Cobalchini lembrou, por sua vez, a importância dos recursos públicos para a ciência. “Só o recurso público garante pensamento livre, que atende à comunidade e que não tem interesse mercadológico”.

Já Sara avaliou que a Siepe pode ser considerada um símbolo da resiliência da universidade. “Um evento que reúne pesquisas complexas é sinal de orgulho, de resistência”.

Agenda
Durante o manifesto, a Frente de Mobilização Estudantil da UFPR divulgou dois eventos para discussão da situação da universidade: reuniões nesta quinta (5), às 11 horas, nos Restaurantes Universitários (RUs) Central e do campus Politécnico; e na próxima terça (10) no Centro Acadêmico (CA) de Psicologia, no Prédio Histórico.

Fonte: Camille Bropp Cardoso

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