UFSC na Praça aproxima população da pesquisa universitária

UFSC na Praça aproxima população da pesquisa universitária

“Um ato simbólico”. Assim define a professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Maria Alice Silva, o movimento UFSC na Praça, que ocupou as calçadas da Catedral Metropolitana de Florianópolis na quarta-feira, dia 15 de maio. Durante toda a manhã e instantes antes da multidão de milhares de manifestantes em defesa da educação inundar o Largo da Catedral, estiveram presentes docentes, estudantes e pesquisadores para a promoção e divulgação de diversas atividades de ensino e extensão desenvolvidas pela universidade.

Paralisação ativa

Após a realização de 81 atendimentos, os estudantes do curso de Direito da UFSC, Leonardo Moretto, Beatriz Zardo Klein, Rosimar Santos, Isabela Gomes e a professora do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) da UFSC, Carolina Bahia, desmontavam o estande do Núcleo de Prática Jurídica (NPJ). Cerca de 70 alunos e mais de 12 professores estiveram presentes pela manhã atendendo a diversas demandas do público que visitava o estande, esclarecendo dúvidas sobre determinadas situações jurídicas e fornecendo informações sobre como buscar certos direitos.

A professora, Carolina Bahia, comenta que se decidiu em assembleia que a paralisação não seria passiva, mas ativa. “Ela não significa um não-trabalho. Trouxemos a UFSC para a praça para esclarecer a infinidade de projetos de extensão que a instituição oferece”. O estudante Leonardo Moretto destaca que a ação de convocar assembleias e recolher assinaturas partiu da iniciativa estudantil diante da possibilidade da universidade ter de fechar as portas em agosto, devido ao corte de 35% do orçamento. Nesse sentido, percebe a importância do ato. “Acho que hoje representa principalmente uma disputa de narrativas, porque a narrativa do governo é dizer que a universidade é balbúrdia, e a gente está aqui para mostrar que não, que a universidade é essencial para Florianópolis e para Santa Catarina”.

Participaram também representantes da Revista Avant, do Programa de Educação Tutorial (PET) em Direito, do grupo de Sociologia Política, da empresa júnior de Direito da UFSC, Locus Iuris, entre outras atividade de extensão do curso. Para Carolina Bahia, esse momento de união possui grande significância. “É o momento de a sociedade catarinense como um todo compreender a relevância da UFSC, entender a universidade como patrimônio imaterial, e se associar aos docentes, técnicos e alunos nessa luta pela manutenção de um patrimônio tão relevante”.

Filosofia é de todos

“Para nós, não é só sobre a educação estar em desmonte, é também sobre a primeira fala do ministro ser de tirar os cursos de Filosofia e Sociologia, que ele acredita não fazerem sentido na vida prática”, destaca a professora do curso de Filosofia da UFSC, Maria Alice Silva, referindo-se às declarações do ministro da Educação, Abraham Weintraub, em suas primeiras investidas para realizar os cortes nas instituições públicas de ensino. “É por isso que estamos aqui falando porque a filosofia é importante para todo mundo”.

Distribuindo panfletos para fomentar reflexões, professores e estudantes do curso dialogaram desde às 9h30min com o público que visitava o estande. Em exposição, encontravam-se diversas dissertações de mestrado, teses de doutorado e livros de professores e alunos do curso de Filosofia. “A universidade faz pesquisa e extensão com muita qualidade, mas tem uma parte da população que não vai até a universidade utilizar os serviços de extensão. Sair da universidade é muito simbólico e significativo nesse sentido”, destaca Maria Alice.

A professora comenta que, dentre as questões abordadas com o público, grande parte teve como eixo central a importância da fundamentação filosófica para a formação de bons profissionais. Não por menos, destaca o caráter multidisciplinar da filosofia, que está presente como disciplina obrigatória em vários outros cursos. “Nós, professores da graduação, damos aulas para outros cursos, não só para os filósofos. Na UFSC, temos esse entendimento de que não-filósofos precisam de fundamentação filosófica para serem bons profissionais”.

Semeando para colher 

Estudantes e docentes reuniam esforços para remover cuidadosamente uma muda de açafrão-da-terra para Jane Boell, feirante que diariamente expõe seus artesanatos no Largo da Catedral. Por adorar flores e plantas, se disse impressionada com a ação UFSC na Praça. “Algumas pessoas vêm somente para tumultuar, e aqui é o contrário, vieram com algo produtivo”, relata. No estande dos laboratórios de Ecologia Aplicada (LEAp) e de Fisiologia Vegetal (LAFISIO) da UFSC, os passantes podiam escolher entre mudas de açafrão-da-terra e outras plantas nativas e levar para casa.

O laboratório dedica-se a estudar a fisiologia das sementes, especialmente as que possuem valor econômico, compreendendo como seu comportamento fisiológico influencia a dinâmica de regeneração das espécies nas florestas. A professora da pós-graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas da UFSC, Neusa Steiner, conta que a intenção de promover a ação na praça atua no sentido de divulgar a relevância da universidade pública enquanto produtora de ciência e educação. “Para mim, a importância de estar aqui hoje é ainda estar sobrevivendo enquanto ensino público e acreditando que a educação é capaz de fazer a diferença na vida das pessoas como formação e também na sociedade, produzindo ciência e conhecimento que pode ser utilizado pela comunidade”.

A professora revela preocupação com alguns julgamentos que minimizam a importância da universidade. “Acho muito surpreendente e decepcionante. Eu estou aqui justamente para me fazer ver fora da universidade, uma vez que soa como se o que estamos fazendo parece não ter sentido”. De modo semelhante, Paulo Mioto, professor da UFSC que integra o mesmo programa de pós-graduação de Neusa, demonstra-se preocupado quanto ao futuro. “Até agora, estávamos vivendo com pouco, e quando o governo ameaça cortar o pouco do que a gente ainda tem, tudo fica mais complicado”.

Regenerando

Atualmente, o termo “células-tronco” talvez não seja mais tão misterioso quanto poderia ser anos atrás. Por esse motivo, o bolsista de iniciação científica do Laboratório de Células-Tronco e Regeneração Tecidual (LACERT) da UFSC, Victor Juan de Souza Lima, surpreendeu-se quando apresentou o estande a duas pessoas que revelaram nunca terem ouvido falar sobre células-tronco. “Se não fosse o estande, talvez elas nunca soubessem. Acho importante a gente sair do laboratório e mostrar o que estamos fazendo”.

O LACERT se dedica, entre outros aspectos, ao estudo da diferenciação e renovação de células tronco em diferentes modelos animais e humanos, possuindo vários projetos de pesquisa relacionados à Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa. O estande, em que estavam expostos alguns materiais utilizados para cultivar células-tronco, como o folículo piloso e a polpa dentária, chamou a atenção do pedagogo Zani Suski. Para ele, é muito importante que a população conheça o que é desenvolvido nas universidades, e afirma que o conhecimento atua no combate às “inverdades” em que alguns acreditam. Licenciado por uma instituição privada de ensino, Zani é educador e seu filho cursa Agronomia na UFSC. “Ver o que estão fazendo com a universidade é um retrocesso tão grande e gritante que é impossível ficar alheio a uma situação como essa. Toda a sociedade deveria se mobilizar, se organizar, para impedir que isso aconteça”.

Cultura e poder

Bastava assinar o nome na lista de presença para levar para casa uma das diversas produções dos núcleos, laboratórios e frentes do Instituto de Estudos de Gênero (IEG) da UFSC. Além dos livros, resultados de pesquisas científicas na área de estudos de gênero e feminismo, estavam disponíveis folhetos diversos folhetos informativos. “É um momento muito especial de dialogar com a comunidade, porque nós entendemos no IEG que o instituto é para a comunidade, é para a sociedade, é para a produção de pesquisas que contribuam para a construção de políticas de estado e de governo que mudem a realidade, que de fato contribuam para combater a violência, criar políticas compensatórias às mulheres negras, políticas de inclusão para as mulheres trans, para as mulheres lésbicas e políticas de reparação as populações indígenas que historicamente são relegadas”, destaca a bolsista de pós-doutorado do IEG, Vera Gasparetto.

Entre os materiais disponíveis, Vanda Pinedo, integrante do Movimento Negro Unificado (MNU), optou pelo livro “Gênero, cultura e poder”. Era poderosa, para ela, a ação que marcava o dia 15 de maio. “A gente tem que vir pra rua e tem que vir lutar, se não a gente vai perder o pouco que a gente ainda tem”.

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