UFV – Desmatamento pode afetar produção de safras na Amazônia

Resultado de imagem para UFV – Desmatamento pode afetar produção de safras na AmazôniaQue diferença faz se as chuvas na Amazônia começarem uma semana mais tarde? Para quem planta, pode ser a diferença entre se ter uma ou duas safras anuais. Para o agronegócio brasileiro, significa queda de produtividade nas principais commodities agrícolas. Vários trabalhos usando modelos experimentais já haviam demonstrado que o desmatamento na maior floresta do planeta está afetando os ciclos de chuvas. Pela primeira vez, as evidências das relações entre desmatamento e chuvas são comprovadas com dados concretos em um trabalho publicado por pesquisadores da UFV na revista Journal of Geophysical Research.

A pesquisa, realizada por Argemiro Teixeira Filho e orientada pelo professor Marcos Heil Costa, do Departamento de Engenharia Agrícola da UFV foi destacada também na Nature Climate Change uma das revistas científicas mais importantes do mundo nesta área.  Utilizando um banco de dados de mudanças de uso da terra e analisando a precipitação de chuvas ocorridas na Amazônia entre os anos de 1974 e 2012, eles estabeleceram a relação entre chuvas e desmatamento durante as últimas décadas no sul da Amazônia. O trabalho conclui que um desmatamento de 50 a 60% corresponde a um atraso de uma semana na estação chuvosa. Além disso, no início ou no final das chuvas, as regiões mais desmatadas ficam mais propensas a períodos de seca de mais de uma semana de duração. Para propriedades rurais que estão localizadas mais ao sul, a estação chuvosa tende a começar ainda depois do que na parte mais ao norte da região. “São impactos em cascata do desmatamento da Amazônia no hidroclima regional, com implicações importantes para a agricultura e o uso da terra”, diz o pesquisador Argemiro Teixeira Filho.

Os pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Interação Atmosfera-biosfera explicam que o atraso no início da estação chuvosa e os períodos mais longos de seca aumentam o risco climático para a agricultura na região. Para Marcos Heil Costa, o detalhamento da pesquisa, que analisa índices históricos de chuvas medidas em pluviômetros e dados de desmatamento em escala de um quilômetro quadrado, esclarece a complexa relação entre a mudança da cobertura vegetal e a precipitação na Amazônia. “Ao remover as tendências regionais e a variabilidade interanual, nossos resultados demonstram que o desmatamento contribui para o início cada vez mais tardio da estação chuvosa, à medida que o desmatamento progride”.

A trabalho discute ainda que o atraso das chuvas pode prejudicar a produção de duas safras em um mesmo ano e determinar mudanças na seleção de culturas de sequeiro. “Para que a dupla safra seja viável, os agricultores precisam garantir que a soja seja colhida a tempo para que a segunda cultura, o milho, amadureça enquanto as condições climáticas ainda são favoráveis, explica Argemiro. O atraso no início das chuvas pode ainda reduzir as áreas onde as duplas safras poderiam ser cultivadas, comprometendo a rentabilidade da agricultura regional. Além disso, o aumento da frequência de veranicos longos tem impactos na produtividade mesmo onde se planta apenas uma safra anual. “Ambos os casos configuram aumento do risco climático para a agricultura de sequeiro, perdas de produtividade e rentabilidade”, acrescenta.

Para os pesquisadores, os resultados podem ser usados por seguradoras, para influenciar a tomada de decisões e o planejamento do uso agrícola de terras amazônicas diante da expectativa de crescimento da produção agrícola brasileira. O trabalho mostra que a adoção de técnicas agrícolas intensivas, como a dupla safra, tem um papel importante para atingir esse objetivo, mas não é aconselhável desmatar para aumentar a área plantada na Amazônia, o que implicaria em aumento do risco climático para o agronegócio.  “Para os agricultores, é preferível aumentar a produção pela intensificação da agricultura, promovendo duas safras anuais onde esse sistema ainda não foi implementado, do que expandir demasiadamente a fronteira agrícola”, afirma o professor Marcos Heil Costa.

Compartilhe: