UnB avança na luta por uma vacina contra o novo coronavírus

UnB avança na luta por uma vacina contra o novo coronavírus

Equipe responsável pela imunização desenvolvida por empresa chinesa iniciou, ontem, a aplicação, em cinco profissionais da saúde. No total, 850 voluntários deverão participar dos testes coordenados pelo Instituto Butantan, de São Paulo

Pesquisadores e médicos do Distrito Federal deram um importante passo na luta contra o novo coronavírus. Ontem, cinco pessoas receberam a primeira dose de uma possível vacina contra a covid-19, em fase de testes pela Universidade de Brasília (UnB), no Hospital Universitário de Brasília (HUB). Mais cinco participam hoje. Os voluntários são profissionais da saúde, que atendem a pacientes com confirmação ou suspeita de infecção. A fase 3 é considerada promissora pela equipe que coordena o projeto, pois os resultados da etapa 2 mostraram a produção de anticorpos em 90% dos participantes. O projeto é coordenado pelo Instituto Butantan, de São Paulo, e a imunização é desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech.

Os voluntários saíram, ontem, do ambulatório sabendo que podem fazer parte da história. “Sinto-me realizado como profissional da saúde, porque é angustiante estar na ponta da luta contra a doença sem saber como combater isso. Hoje, participei de uma experiência única”, disse Gabriel Ravazzi, 31 anos, o primeiro a ser vacinado. Gabriel é médico e trabalha na unidade de terapia intensiva (UTI) do HUB. Ele estava no hospital até o fim da noite de terça-feira, dormiu algumas horas, participou do ensaio na quarta-feira pela manhã e voltou para o trabalho. “É um esforço pelo sentimento de querer ajudar, porque nós estamos vendo o sofrimento dos pacientes, que são pessoas jovens, idosas, com e sem doenças. Então, quis participar dessa experiência para que a gente consiga dar um passo importante para mudar isso”, explicou.

O médico entende os riscos de efeitos colaterais, mas está tranquilo em relação a isso. “Lembro do meu penúltimo plantão, que foi bem exaustivo física e psicologicamente. Atendemos a pacientes graves e, naquele dia, perdemos três pessoas. É um sentimento ruim, de quem passa noites em claro tentando ajudar, lutando, mas acaba perdendo para o vírus. Ou seja, é um sentimento de impotência. Poder contribuir com a ciência e buscar uma solução é algo que me faz sentir realizado”, ressaltou o médico.

Gabriel chegou ao HUB às 9h e passou por uma bateria de exames sanguíneos, cardiológicos e outros, além de ser submetido à vacina. Apenas voluntários da área da saúde, que trabalham com pacientes com covid-19 e não tenham sido contaminados pelo vírus, podem se voluntariar. O médico retorna aos ensaios após 14 dias, para a segunda dose. Metade dos participantes receberá placebo e metade, o produto vacinal. No total, o estudo testará 850 pessoas, com meta de receber entre 20 a 40 voluntários por dia a partir da próxima semana.

Para o chefe do setor de pesquisa e inovação do HUB, Fernando Araújo, candidatar-se é uma atitude de empatia dos profissionais de saúde. “A participação dos voluntários é muito importante, porque eles são as pessoas que vão contribuir para que tudo aconteça. Se disponibilizar, tomar uma vacina ainda em fase de testes é uma disposição de ajudar a todos, pensar no próximo, pensar não só em si mesmos. Isso é algo bonito e gratificante”, avaliou Fernando.

Ele explica que há uma expectativa grande para divulgação de quando a vacina pode ser disponibilizada, após a fase de testes, mas que ainda não se pode afirmar mês ou ano específicos. “Temos essa esperança de sucesso, mas tudo depende de uma série de fatores. A qualquer momento, o comitê pode apontar do que ela está sendo tão mais efetiva que o placebo, que nem precisemos mais continuar”, afirmou (leia Cinco perguntas para).

Ansiedade

Quem também comentou sobre a ansiedade pelos resultados foi Gustavo Romero, coordenador do estudo e pesquisador do Núcleo de Medicina Tropical da UnB. “É prematuro fazer previsões sobre a disponibilidade da vacina para a população. Isso depende, também, de outras etapas, que não estão na alçada do HUB e da UnB. O que podemos dizer é que, sem os resultados do estudo, é cedo para estimar um prazo de quando o produto ficará pronto. O compromisso que assumimos é de fazer o trabalho o mais rápido possível”, explicou Gustavo.

A segunda voluntária a ser atendida pela equipe foi a enfermeira Mariana Rodrigues da Silva, 29. “Estou me sentindo bem, só com uma dor no braço da injeção, o que é normal em vacinações. Agora, vou detalhar os próximos dias em um diário de bordo entregue pelos médicos, relatando, nele, o que sinto, e volto após duas semanas para a segunda dose”, detalhou. Mariana pediu mais conscientização da população, até que se tenha uma medicação comprovada cientificamente contra o coronavírus. “A gente espera que as pessoas percebam a importância do isolamento. Porque todo mundo, hoje, tem um conhecido, um amigo ou até familiar que morreu por causa da doença. Eu mesmo perdi amigos para a covid-19”, lembrou Mariana.
Os voluntários da tarde começaram a deixar o HUB no começo da noite. Larissa Bragança, 33, é médica na mesma unidade de saúde e sugeriu mais investimentos na ciência. “Estamos em um momento em que é preciso valorizar mais profissionais de saúde, pesquisadores e pesquisas. Estou na linha de frente do combate e nunca tinha visto algo assim. É urgente conseguir uma vacina”, alertou. Durante atuação na UTI, ela sente-se impotente diante do perigo do coronavírus. “Vem marcando ver pacientes que morrem e a família não pode nem se despedir. Nas UTIs, a taxa de letalidade é alta, está, em média, em 40%. Então, o que a gente puder fazer para mudar isso, vai fazer”, reforçou.

Cinco perguntas para Fernando Araújo, chefe do setor de pesquisa e inovação do HUB

Qual é o sentimento de fazer parte de um projeto como esse?

Para nós, é uma satisfação muito grande poder participar de um estudo tão promissor, tendo em vista que todos estão esperando uma solução rápida, para que saiamos dessa crise o mais rápido possível. Ainda estamos começando, não dá para comemorar. Estudo químico é assim, a gente faz para ter certeza de que é eficaz e seguro. Mas é um grande passo entrar na reta final para que tenha logo uma vacina. Essa é uma etapa essencial.

Como estão sendo feitos os testes?

Temos uma equipe multiprofissional cuidando do processo, com médicos, investigadores, enfermeiros, técnicos em enfermagem, farmacêuticos, técnicos de laboratório. No total, são 28 pessoas trabalhando. Tudo voltado para a meta, que é cumprir o protocolo com rigor metodológico necessário, para que tenhamos resultados confiáveis. Isso vai viabilizar o registro do medicamento no Brasil e em outros países.

Quais foram as etapas desse projeto? 

Temos resultados de estudos das fases 1 e 2. Isso significa que estamos em uma fase posterior às primárias, que avaliam se o produto é seguro. Depois, passamos por uma fase em que avaliamos o foco maior na prova do conceito, se ela é, realmente, eficaz, mas, isso, a gente faz em um grupo muito reduzido de pessoas. Na fase que estamos agora, temos um grupo maior, com uma amostra mais significativa da população, para ter segurança maior de dizer que funciona na maioria dos participantes e é seguro. Vamos saber se ela vai imunizar, por quanto tempo vai imunizar, se vai ser necessário tomar a vacina de tanto em tanto tempo. Depois, vem o registro da Anvisa e, aí, segue a fase 4, quando ela está no mercado, com o país disponibilizando para a população. Estamos torcendo para esse caminho, com sucesso.

Quais os próximos passos?

Amanhã (hoje), nós vamos vacinar mais cinco participantes, vamos receber a visita da monitoria, que vai avaliar o resultado dos dois dias de vacinação e liberar a plataforma de inscrição para que os profissionais de saúde possam se candidatar para fazer parte do voluntariado. Isso deve acontecer até sexta-feira, mas o Butantan que vai definir.

Quais as diferenças dessa vacina para aquela produzida pela Universidade de Oxford, que está na fase 3 de testes em outros estados do Brasil? 

A vacina da Astrazeneca tem tecnologia diferente. A tecnologia daqui é mais tradicional. Nessa, a gente pega o vírus, inativa e produz a vacina. As proteínas desse vírus vão induzir a imunidade. Vão aparecer os anticorpos neutralizantes, que são os que impedem o desenvolvimento, o agravamento de uma possível infecção pela covid-19, que ou não acontece, ou é assintomática, ou é muito leve. Na vacina de Oxford, pega-se o material genético do vírus, coloca em um vírus que não é patogênico, e ele produz proteínas e, assim, imuniza o paciente por meio da vacina composta desse vírus, que não causa problema. Pode trazer a resposta imunológica necessária para proteger o paciente.

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