UnB forma seus primeiros mestres indígenas

UnB forma seus primeiros mestres indígenas

Programa prepara profissionais para atuar em atividades técnicas e inovadoras nas áreas de interesse dos povos indígenas. Sustentabilidade é o grande eixo do curso

A água dos rios e igarapés, os ventos, florestas e estrelas, os animais pequenos e os grandes, tudo à volta dos homens assume força, significado e magia para girar e manter o grande ciclo da vida. A ancestral sabedoria que orienta e guarda os povos indígenas está assentada em um princípio basilar: a reverência à mãe natureza. Pois o esperado e necessário diálogo entre os saberes indígenas e acadêmicos passa a assumir mais vulto e relevo com uma iniciativa inédita no Brasil: o Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a povos e terras indígenas, com o primeiro ciclo de defesas de estudantes indígenas, encerrado nesta sexta-feira, 21.

Criado em 2010, pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), o programa forma os primeiros profissionais indígenas e não indígenas, qualificando-os para atuar em atividades técnico-científicas e de inovação no campo indigenista. Pastoreio, empreendorismo, mineração, vivências de sustentabilidade, educação escolar indígena foram alguns dos temas que constituíram os trabalhos apresentados por índios e caciques que representavam os povos Wapixana (Roraima), Kinikinau (Mato Grosso do Sul), Apurinã (Amazonas), Umutina e Kurã-Bakairi. A primeira turma envolveu 14 estudantes indígenas e 12 não indígenas.

ENGAJAMENTO – “Esse mestrado é uma experiência pioneira no país, uma iniciativa interdisciplinar que inova na metodologia, garante a troca real de conhecimentos, além da participação de indígenas como professores no programa”, expõe a antropóloga Mônica Nogueira, coordenadora pedagógica do curso, professora do CDS e da Faculdade UnB Planaltina.

“O programa cumpre com o papel de instrumentalizar quem já atua em defesa dos mais diversificados interesses indígenas”, afirma Mônica, explicando que os estudantes selecionados trabalham em consultorias, órgãos do governo, como a Fundação Nacional do Índio (Funai),  além de escolas nas aldeias. “Por isso, as dissertações podem ser apresentadas em forma de material didático, audiovisual, cartilhas, projetos técnicos – justamente para serem aproveitados nas comunidades em que atuam”, conta. “Todos têm um perfil engajado, são ativistas que assumiram o compromisso de reverter esse aprendizado para melhorar as suas realidades, alcançando, assim, pautas políticas importantes”.

Com a duração de 22 meses e carga horária de 420 horas, o mestrado resultou de um esforço coletivo e conta com o apoio dos Ministérios da Cultura e da Defesa, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e da United States Agency for International Development (Usaid). “A metodologia linear adotada pela academia, com tantos códigos e protocolos, é bem distinta da lógica circular associada à visão de mundo dos indígenas”, diz Mônica, mostrando a importância de a Universidade se aproximar dessa outra forma de apreender o mundo e de os indígenas dominarem alguns códigos para constituirem um debate mais simétrico e equilibrado.“Para darmos conta do amplo conceito de sustentabilidade é preciso compreendê-lo a partir de uma abordagem sistêmica, incluindo, além da dimensão ambiental, também os aspectos sociais, culturais, econômicos”, complementa a professora.

PRECONCEITOS – “Todo esse processo é importante também para quebrar preconceitos e tabus associados ao índio, em geral infantilizado ou vilanizado por uma ótica reducionista e equivocada da sociedade, que o vê como preguiçoso, indolente e oportunista”, complementa Mônica. “Cabe à universidade se abrir para um diálogo mais equibrado e simétrico”.

Estruturado em três grandes módulos – Epistemologia e Fundamentos do Indigenismo e da Sustentabilidade; Tópicos Especiais em Indigenismo e Sustentabilidade e Diálogo de Saberes –, o curso contou com importantes pajés e lideranças indígenas à frente de algumas disciplinas com abordagens diversificadas, como Davi Kopensawa, Aliton Krenak, Álvaro Tukano, além de Gersem Baniwa, doutor na UnB em Antropologia.

Criado em 2010, pelo CDS, o Mestrado forma profissionais indígenas e não-indígenas, qualificando-os para atuarem em atividades técnico-científicas e de inovação no campo indigenista. O curso é baseado nos princípios da educação intercultural, que se realiza no diálogo entre saberes acadêmicos e indígenas e na interdisciplinaridade, como abordagem necessária para a construção da sustentabilidade cultural e ambiental dos povos e a inovação. “Sem dúvida, é uma iniciativa que faz jus à memória de Darcy Ribeiro e todo seu legado de respeito e valorização dos povos”.

PASTOREIO – Alfredo Bernardo Pereira da Silva, cacique Wapixana, abriu o ciclo de defesas com a dissertação “Pastoreio do Futuro: projeto de sustentabilidade para a Terra Indígena São Marcos, Roraima”. Em seu trabalho, apresentou um projeto de desenvolvimento sustentável para os povos indígenas Macuxi, Wapixana e Taurepang da terra indígena de São Marcos, em Roraima. Sob a lógica do empreendedorismo, Alfredo mostrou a experiência dos povos indígenas com o manejo de gado, criado em sistema de pastoreio, envolvendo mais de quarenta comunidades, especialmente a partir de 2003, período que marcou a saída de mais de cem posseiros que há décadas ocupavam ilegalmente a terra indígena. Em seu projeto, o cacique expôs como é possível conjugar a atividade pastoril com o manejo sustentável de todos os recursos naturais e com o desenvolvimento de novas tecnologias e o  fortalecimento da participação comunitária.

IDENTIDADE – Em outra defesa, foram considerados a sustentabilidade e os processos de reconstrução identitária do povo indígena Kinikinau, na região de Mato Grosso do Sul – etnia considerada extinta por diversos pesquisadores. Formado em Biologia e professor em uma escola indígena no município de Dourados, Rosaldo Albuquerque Souza contribuiu, com o seu trabalho de mestrado, para divulgar a existência do povo indígena Kinikinau, indicando meios de sustentabilidade, tanto comercialização do mel extraído pelos homens quanto pelo comércio da cerâmica produzida pelas mulheres. “Na busca de minha origem e identidade, mostro que uma  comunidade Kinikinau resiste com mais de 50 famílias”, afirma. “Apesar de viverem por longos anos de forma oculta, sem declarar ao público sua identidade étnica, preservaram grande parte de raízes identitárias, como a arte, as manifestações culturais e a alimentação tradicional”, diz.

Para Francisco de Moura Cândido, da comunidade Apurinã, autor da dissertação BR 364: análise da sustentabilidade das medidas mitigatórias e compensatórias na Terra Indígena Colônia 27 no estado do Acre, a lição é simples e ancestralmente praticada: “sustentabilidade é poder viver harmonicamente com outros seres do ecossistema, ou seja, quando um homem encontra um pé de fruta, não colhe rodas, pois se lembra do papagaio, da paca, da cotia que dela se alimentam, deixando ainda os caroços para que nasçam outros pés”.

OBSERVADOR – Um dos maiores líderes indígenas brasileiros, o ativista Marcos Terena, exerceu a função de “observador externo” e de “convidado de honra” em algumas das bancas de mestrado nesse primeiro ciclo de defesas. Além dos tradicionais examinadores, a figura do observador externo foi incorporada ao rito devido à importância de se imprimir um olhar credenciado na compreensão da lógica e visão do mundo indígena. Para ele, “a iniciativa da UnB a coloca na frente por criar um cenário conturbador para a academia, agregando outros saberes e olhares étnicos e interculturais”. Segundo sua avaliação, “mesmo os índios, vindo de uma tradição oral, respeitam os códigos e metodologias da academia, incorporando essa estratégia como forma de empoderamento. Quando fazem isso, assumem a condição de recontar não só a  história do seu povo, mas a própria história do país, em geral invizibilizada pelo sistema”.

Othon Leonardos, professor aposentado do CDS e um dos responsáveis pela criação do curso, afirma que o “índio é o mais legitimado a atuar como indigenista na defesa de suas terras e valorização identitária de seus povos”. De acordo com sua avaliação, a experiência desse mestrado profissional é a confirmação de que a Universidade não está fechada para o mundo, com um curso que permite dialogar saberes, inclusive os dito não científicos. “Se a ciência é a busca da verdade e a metodologia científica costuma apriosionar, os outros saberes e conhecimentos merecem ser reconhecidos como verdade”.

Para o professor, “nosso país, nosso imenso e maravilhoso Brasil não percebeu ainda que sua alma é indígena. Afinal, como não reconhecer nossa ligação com a voz dos ventos, a riqueza dos rios, montanhas, a sabedoria emanada da própria terra?”.

 

Luciana Barreto – UNB

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